quinta-feira, 29 de dezembro de 2016

o acordar é lento
acontece repetidamente
se prolonga ao máximo
porque não faz sentido
não se quer completar
o torpor conforta mais
do que o clarão da realidade

quarta-feira, 28 de dezembro de 2016

foi

foi-se tão rápido quanto veio
deixou pra trás memórias
que se esvaem com a mesma rapidez
da sua fulgás passagem
memórias tão breves, tão tolas
que me sinto estúpida tentando, em vão
segurá-las entre meus dedos
tentando, em vão
(res)significar seus gestos
já não enxergo direito seu rosto
não reconstituo sua voz ou seu cheiro
lembro bem do seu toque 
dos círculos de seus dedos sobre a minha pele
do gosto da saliva e do som da respiração
do rosnado e do gemido rouco
da risada e do conforto
espero de verdade que retorne
mas se não retornar
foi o que foi
ficarei feliz se ao menos
retornar em novas faces, novas vidas

terça-feira, 15 de novembro de 2016

“Conhecimento de África, conhecimento de Africanos: Duas perspectivas sobre os Estudos Africanos” – Paulin J. Hountondji



Hountondji, ao longo do texto, diz que os estudos sobre a África são iniciados e controlados pelo ocidente e que seu motor faz parte de um projeto político de acumulação do conhecimento, no qual a pesquisa e conhecimento africanos são ou extraviados ou tem desde a sua produção um sentido exteriorizado.
O autor demonstra que o leque de ciências denominadas estudos africanos são geralmente sobre África e não de África e propõe uma visão abrangente e interdisciplinar desse leque, para que o nome estudos africanos tenha sentido em sua existência, por isso nos diz que essas disciplinas se interrelacionam e são interdependentes, que se solidarizam entre si.
O autor fala de seu local de filósofo e demonstra qual crítica teceu a respeito dos estudos de filosofia africanos ao longo dos anos, mostrando que o que se produzia não era filosofia e sim etnofilosofia, uma reconstituição da mundivisão antepassada e dos pressupostos coletivos de comunidades. O autor coloca esse fato como motivado pela visão historicamente consolidada de que apenas alguém de fora poderia realizar a análise completa, sistemática, daquilo que foi produzido de maneira não “autoconsciente” pelos africanos. O autor busca, por meio dessa crítica, questionar a necessidade de um distanciamento entre pesquisador e objeto, necessidade esta que se encontra na base do pensamento científico ocidental, além de buscar situar o termo filosofia africana como sendo simplesmente a filosofia produzida por africanos e não uma visão de mundo compartilhada por todos os africanos, colocando o pensamento e cultura africanas como pensamentos vivos, capazes de se transformar.
Para Hountondji, a ideia da produção massiva da descrição de mundivisão tem a ver com as ideias colonialistas, de um conhecimento produzido para facilitar a dominação de um povo, e é daí que surge a necessidade da construção de um tipo comum, da construção da unanimidade, por isso realiza críticas incisivas a esse tipo de produção.
            É por pensar na filosofia africana enquanto organismo vivo que o autor estabelece uma distinção entre africanos e africanistas, a distinção estabelecida tornou possível observar quais eram as tensões, contradições internas e debates que existem nesse campo, mostrando que não existe, em África, uma unanimidade dos pensamentos e colocando em choque uma ideia de etnofilosofia.
            A ideia de uma não unanimidade do pensamento africano era vista como perigosa e é por isso que o autor define essa não unanimidade como pluralismo, contrapondo a ilusão unânime que se busca fomentar ao estudar África, o autor coloca esse pluralismo como fator de progresso para a produção de conhecimento africana.
A proposta do autor é que se construa na África uma tradição de pensamento similar à Alemã, proposta por Humboldt, que se pauta em um debate interno, endógino, que cresce dentro de si por meio do diálogo entre pares, é dessa forma que propõe uma investigação científica autônoma, definida não pelo ocidente e nem para o ocidente, mas pelas necessidades e vontades africanas. Essa tradição de conhecimento se daria em torno de dois pilares: a apropriação do conhecimento disponível e a reapropriação do próprio conhecimento, focando na produção e transformação do conhecimento africano.

            O autor, ao propor a criação de uma agenda africana, motivada pelos interesses, vontades e necessidades africanos, cujos debates são realizados de maneira endógina e cujo conteúdo vindo do ocidente é apropriado a partir da bagagem africana, quebra com uma lógica do reconhecimento, o que interessa não é se mostrar legítimo e capaz para o outro e sim usar sua capacidade para si mesmo, não é construir um panorama para que o outro estude e sim produzir, revisar para si o conhecimento que já foi produzido, é nesse sentido que Hountondji retoma ideias panafricanas e trabalha a africanidade de uma maneira não essencialista ou reducionista.

quarta-feira, 5 de outubro de 2016

Exclusão

Artistas
Mesmo os mais medíocres
Produtores de pastiches
Genéricos em sua alma
Continuam artistas
E artistas sendo
Gozam da genialidade que
Só aos artistas cabe
Das visões que
Só aos artistas pertencem
Eu, por não ser artista
Preciso me tornar mil vezes mais genial
Para fazer ser vista a arte da minha concretude

quinta-feira, 22 de setembro de 2016

Lendo Casa-Grande & Senzala: o quarto capítulo

 O escravo negro na vida sexual e de família do brasileiro
Logo no começo do capítulo, na página 367, podemos perceber que o texto é feito de e para brancos (eu arrisco dizer que mais do que brancos, para a parcela específica da branquitude que fez parte da classe senhorial): “Na ternura, na mímica excessiva, no catolicismo em que se deliciam nossos sentidos, na música, no andar, na fala, no canto de ninar menino pequeno, em tudo que é epressão sincera de vida, trazemos quase todos a marca da influência negra. Da escrava que nos embalou. Que nos deu de mamar. Que nos deu de comer, ela própria amolengando na mão o bolão de comida. Da negra velha que nos contou as primeiras histórias de bicho e de mal-assombrado. Da mulata que nos tirou o primeiro bicho-de-pé de uma coceira tão boa. Da que nos iniciou no amor físico e nos transmitiu, ao ranger da cama-de-vento, a primeira sensação completa de homem. Do moleque que foi o nosso primeiro companheiro de brinquedo.”
O primeiro ponto defendido é o de que todos no Brasil tem um pouco de índio e de negro dentro de si, seja cultural ou biologicamente (tudo como reforço da harmonia defendida ao longo de todo o texto).
O autor coloca o desejo do homem branco pela mulher negra no território brasileiro como estimulado pela cultura de amas-de-leite, nesse ponto eu senti uma análise muito biológica para um fenômeno social que muito tem a ver com estruturas de poder e de exploração.
Outro ponto defendido é o de que o negro é superior ao índio, contrariando a visão que estava em voga na época, alguns aspectos da cultura negra são também colocado como superiores aos portugueses, sempre recorrendo a estereótipos como o do negro feliz e enérgico, procurando usar as diferenças biológicas para falar de uma superioridade física – estereótipos e uma suposta superioridade que serviram como justificativa para a escravidão negra e para a exploração da população negra de forma geral, para além da escravidão.
Podemos perceber, durante o texto, como o discurso da pscicologia era atrelado a um discurso de formulação de tipos nacionais e raciais – abordagem chamada de “tipo ideal”, ou “tipos psicológicos.
Muito se fala, durante o capítulo, sobre a questão da alimentação, sobre como o português em seu projeto de colonização esteve aberto às mudanças, aberto à novas tecnologias, dentre elas as tecnologias alimentícias, o que acabou fazendo com que uma boa parte da alimentação africana fosse transplantada para o Brasil. O que Freyre faz, ao nos entregar essas informações, foi pensar no impacto dessa transplantação na vida daqueles que foram traficados para o país, se você é transferido para um novo território, os impactos desse novo estilo de vida se amenizam se a sua alimentação não é tão modificada.
Como nos outros capítulos, é grande a amostragem de um panorama científico da época, acho que é esse o aspecto mais rico desse livro, a sua grande pesquisa bibliográfica e a capacidade de reunir conhecimentos de diversas áreas em uma mesma pesquisa, se fala de frenologia, de biologia, de psicologia e psiquiatria, dos grandes debates dentro da medicina, da sociologia, e dentro desse discurso nos são mostradas algumas teses sobre a melanina. Recentemente descobri que as teses sobre a melanina não são somente as vindas desse núcleo acadêmico racista, há conteúdos sobre o assunto dentro do panafricanismo, e é urgente na minha vida a necessidade de estudar esse movimento social, filosófico, histórico...
O trecho abaixo, localizado na página 378, nos mostra muito desse pensamento racista que tinha de ser desmentido, temos um parágrafo inteiro explicando o porquê de não ser o negro o tipo humano mais próximo ao do macaco, se faz isso aproximando a raça branca do mesmo animal, e o mais engraçado é pensar que as ofensas destinadas às populações negras não evoluíram até o dia de hoje.
“Nem merece contradita séria a superstição de ser o negro, pelos seus característicos somáticos, o tipo de raça mais próximo da incerta forma ancestral do homem cuja anatomia se supõe semelhante à do chimpanzé. Superstição em que se baseia muito do julgamento desfavorável que se faz da capacidade mental do negro. Mas os lábios dos macacos são finos como na raça branca e não como na preta – lembra a propósito o professor Boas. Entre as raças humanas são os europeus e os australianos os mais peludos de corpo e não os negros. De modo que a aproximação quase se reduziria às ventas mais chatas e escancaradas no negro do que no branco.”
O texto mostra também a tendência das ciências em se aprofundarem mais no estudo das áreas de cultura africanas, essa abordagem significa um avanço, uma diminuição da aplicação de uma lente macroscópica demais para se passar a observar as minúcias nas relações dentro do território africano, porém, ao mesmo tempo em que vem desmistificar a homogeneidade com que analisavam o papel do negro, vem, por meio do uso do arcabouço teórico da época e tendo como referencial, como norte, as civilizações europeias, classificar e hierarquizar as civilizações existentes dentro da África, sempre relegando certos traços, tonalidades, tecnologias, valores morais etc. como inferiores ao europeu.
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            Uma perspectiva transatlântica
            “Aliás é curioso notar que até fins do século XIX deu-se o repatriamento de haúças e nagôs libertos da Bahia para a África; que geges libertos repatriados fundaram em Ardra uma cidade com o nome de Porto Seguro. Tão íntimas chegaram a ser as relações da Bahia com cidades africanas que chefes de casas comerciais de Salvador receberam distinções honoríficas do governo de Daomé.” (página 395)
            Durante a escola, apesar de se falar sobre a escravidão, pouco se fala sobre as relações entre África e Brasil, sobre qual era a relação dos traficados com sua terra natal, sobre quais eram as trajetórias dos negros dentro desse período. Pensar nesses repatriados é pensar, e isso é estimulado por Freyre, no negro além do escravo, nas vidas negras para além da escravidão, por mais indissociável que seja, ao se falar da introdução dos negros no Brasil. Pensar nas trajetórias que negros se esforçaram para trilhar é entender que os escravizados não eram passivos, que eram seres completos em uma condição de subordinados, nesse sentido o ensino básico peca profundamente.
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            Outra face da miscigenação
            “Roquette-Pinto foi encontrar evidências, entre populações do Brasil Central, da ação europeizante de negros quilombos. Escravo fugidos que propagariam entre os indígenas, antes de qualquer missionário branco, a língua portuguesa e a religião católica. Aquilombados na serra dos Pareci, os negros fugidos cruzaram com mulheres roubadas aos indígenas.. Uma bandeira que os foi dispersar no século XVIII encontrou ex-escravos dirigindo populações aquilombadas de cafuzos. Encontrou grandes plantações. Criação de galinhas. Cultura de algodão. Fabrico de panos grossos. E todos os caborés de maior idade verificaram os bandeirantes que “sabiam alguma doutrina cristã que aprenderam com os negros [...] todos falavam português com a mesma inteligência dos pretos, de quem aprenderam.””
            O trecho acima me fez pensar em como a academia estuda a relação entre as raças – e com raças quero dizer dos indígenas e dos negros, pois acredito que a definição de raça se consolidou na definição de quem é o ser e quem é o outro, uma alteridade – e o branco – branco esse que representa o todo, o padrão, mas pouco se fala na relação dessas raças entre si. Acredito que isso se dá, pensando que nossas vivências, nossas histórias, são as principais forças que nos levam a estudar algum assunto, pelo fato de que os ambientes de pesquisa são dominados pela branquitude, branquitude esta que, mesmo quando se debruçando para entender o outro, está na verdade estudando sobre si mesma. Pensar nesse aspecto não europeu da miscigenação, nessas relações não pautadas diretamente no elemento branco, embora geradas por esse elemento, é algo que pouco se faz (ou que pouco se divulga) e que pouco se estimula. Se a vivência de africanos foi, no território brasileiro, unida pela experiência da escravidão, como se uniram as vivências de africanos e indígenas sob a ordem colonial, a estrutura escravocrata de uma sociedade dominada por europeus que condenaram como propriedade ou obstáculo tudo aquilo que deles se distinguia?
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A consolidação de um padrão estético e moral
Um dos fenômenos gerados pela escravidão foi o de uma sociedade dividida pela cor, de uma maneira nunca antes vista no mundo, a profunda divisão, embora tenha se dado por motivos econômicos, passou a ter sérios embasamentos ideológicos, e dentro desses embasamentos se encontra a criação de um restrito padrão moral e estético, que perpassa todas as esferas da vida social.
Uma das teorias embasadoras do capítulo é a de que o Brasil recebeu o melhor estoque africano, um estoque muito superior ao dos norte-americanos, essa tese é baseada nos índices de desenvolvimento das sociedades africanas que foram traficadas para cá e também no fenótipo – quanto menos negróide, mais superior – por isso a grande valorização dos negros de cultura maometana, de traços mais próximos aos traços árabes, de cabelos menos crespos, de peles mais claras. Essa tese, no entanto, vem para desconstruir a ideia de que houve um exclusivismo banto na escravidão brasileira, algo que pode ser contestado apenas observando como o catolicismo foi influenciado pela cultura maometana em sua ritualística nos locais com grande porcentagem de população negra.
            “Os característicos físicos dos negros importados para o Brasil, é interessante segui-los através da linguagem pitoresca do povo, nos anúncios de compra e venda de escravos para o serviço doméstico ou agrícola. Nesse sentido a coleção do Diário de Pernambuco – o diário mais antigo da América chamada Latina, fundado em 1825 – apresenta-se com particular interesse para o estudante de antropologia. Vê-se através dos velhos anúncios de 1825, 1830, 35, 40, 50, a definida preferência pelos negros e negras altas e de formas atraentes – “bonitas de cara e de corpo” e “com todos os dentes da frente”. O que mostra ter havido seleção eugênica e estética de pagens, mucamas e molecas para o serviço doméstico – as negras mais em contato com os brancos das casas-grandes; as mães dos mulatinhos criados em casa – muitos deles futuros doutores, bacharéis e até padres.”            Nesse trecho, da página 396, podemos observar como a cultura escravocrata se preocupou em realizar uma seleção estética dos seus serviços, podemos observar também como esse padrão estético estabelecido pela classe dominante serviu para causar especificidades e desigualdades nas explorações sofridas pelo povo negro. Sendo o serviço doméstico o serviço menos penoso dentro da ordem escravocrata – por menos penoso quero dizer aquele cuja expectativa de vida era mais alta – a seleção daqueles que viveriam nesse contexto era baseada nos critérios definidos por esse padrão. Essa seleção servia como forma de estabelecer divisões entre os negros e de garantir uma manutenção não só estética, mas também moral, já que os negros selecionados para conviver dentro do espaço doméstico eram aqueles mais distantes de religiões de origem africana, ou aqueles que eram de cultura mais maometana do que de outras áreas de cultura do continente africano.
            Também no campo da linguagem se deu uma seleção do correto e do errado. Ao mesmo tempo em que a língua portuguesa foi uma ferramenta de coerção e controle das populações africanas, ela absorveu muitas palavras, expressões e a forma falada de algumas línguas africanas. A forma que se criou de frear essa influência foi definindo toda essa linguagem como incorreta e fruto de burrice, ignorância de mau gosto, falta de refinamento, como pode-se observar no trecho abaixo, retirado da página 415. Acredito que o mesmo fenômeno ainda se manifesta na sociedade atual, quando se classifica como incorreta a linguagem falada nas periferias.
            “Embora tenha fracassado o esforço dos jesuítas, contribuiu entretanto para a disparidade, a que já aludimos, entre a língua escrita e a falada do Brasil: a escrita recusando-se, com escrúpulos de donzelona, ao mais leve contato com a falada; com a do povo; com a de uso corrente.”
            Na área das artes, pensando no conceito de arte com o qual temos contato como algo específico do ocidente, no qual os artistas tem papel definido, o papel do gênio, da excelência, essa formação de um circuito de pessoas que definem o que é boa arte e o que não é, uma arte que saiu da esfera daquilo que serve para a socialização das pessoas e hoje em dia serve como um fortalecimento de um individualismo, foi o eurocentrismo que classificou tudo aquilo que tinha origem em outros pontos como inferior, se convencionou a arte europeia como o verdadeiro conceito de arte e o que vem de fora como uma deturpação, um desvio desse conceito.
“Acima das convenções: em uma esfera mais pura, onde realmente se confrontassem valores e qualidades. Por longo tempo, a grande e forte beleza da arte de escultura, por exemplo, foi considerada pelos europeus simples grotesquerie. E simplesmente por chocarem-se suas linhas, sua expressão, seu exagero artístico de proporções e de relações, com a escultura convencional da Europa Greco-romana. Esse estreito critério ameaçou de sufocar, no Brasil, as primeiras expressões artísticas de espontaneidade e de força criadora que, revelando-se principalmente nos mestiços, de mãe ou avó escrava, trouxeram à tona valores e cânones antieuropeus. Quase por milagre restam-nos hoje certas obras do Aleijadinho. Requintados no gosto europeu de arte ou na ortodoxia católica, várias vezes pediram a destruição de “figuras que mais pareciam fetiches”.” (pág. 379)
            No campo da religião, certas coisas me chamaram a atenção: na América Portuguesa ocorreram mais esforços para a catolicização negra, a catequese funcionou como uma ação moralizante, de onde derivaram cultos católicos negros muito expressivos, que são colocados como permitidos e estimulados pela ala clerical da época, como uma forma de apaziguar possíveis conflitos, pensar nesses cultos dentro de uma lógica onde há ao mesmo tempo aculturação e resistência é algo que me interessa muito; se por um lado se tenta trazer o negro para essas crenças e ritos católicos, por outro lado, é citado um fenômeno interessante, os portugueses tentam jogar na conta africana e indígena aqueles aspectos de sua própria religiosidade não condizentes com o cristianismo:
            “A frequência da feitiçaria e da magia sexual entre nós é outro traço que passa por ser de origem exclusivamente africana. Entretanto, o primeiro volume de documentos relativos às atividades do Santo Ofício no Brasil registra vários casos de bruxas portuguesas. Suas práticas podem ter recebido influência africana: em essência, porém, foram expressões do satanismo europeu que ainda hoje se encontra entre nós, misturado a feitiçaria africana ou indígena. Antônia Fernandes, de alcunha Nóbrega, dizia-se aliada do Diabo: a consultas, quem respondia por ela era “certa cousa que falava, guardada num vidro.” Magia medieval do mais puro sabor europeu. Outra portuguesa, Isabel Rodrigues, ou Boca-Torta, fornecia pós miríficos e ensinava orações fortes. A mais célebre de todas, Maria Gonçalvez, de alcunha Arde-lhe-o-Rabo, ostentava as maiores intimidades com o Diabo. Enterrando e desenterrando botijas, os bruxedos de Arde-lhe-o-Rabo ligavam-se quase todos a problemas de impotência e esterilidade. A clientela dessas feiticeiras coloniais parece que era quase exclusivamente de amorosos, infelizes ou insaciáveis.” (pág. 406)
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            Uma ordem corruptora
            O argumento que permeia todo o capítulo é o de que a ordem escravocrata agia como corruptora dos seres humanos nela inseridos das mais variadas formas, no campo moral, sexual, nas relações familiares, nas relações travadas entre negros e brancos. O capítulo é concluído com o seguinte trecho, localizado na página 462, o autor avança em muitos sentidos, porém não nomeia claramente agentes dominadores.
            “Na realidade, nem o branco nem o negro agiram por si, muito menos como raça, ou sob a ação preponderante do clima, nas relações do sexo e de classe que se desenvolveram entre senhores e escravos no Brasil. Exprimiu-se nessas relações o espírito do sistema econômico que nos dividiu, como um deus poderoso, em senhores e escravos. Dele se deriva toda a exagerada tendência para o sadismo característica do brasileiro, nascido e criado em casa-grande, principalmente em engenho; e a que insistentemente temos aludido neste ensaio.”
Tratando dos campos em que a corrupção atua, destaquei alguns trechos ilustrativos, o primeiro, localizado na página 452, trata da ação das estruturas sociais na formação mental de uma criança, falando das relações que se travam entre os dois lados dessa sociedade cindida desde a mais tenra idade:
            “O menino do tempo da escravidão parece que descontava os sofrimentos da primeira infância – doenças, castigos por mijar na cama, purgante uma vez por mês – tornando-se dos cinco aos dez anos verdadeiro menino-diabo. Seus jogos e brincadeiras acusam nele, como já observamos, tendências acremente sadistas. E não era só o menino de engenho, que em geral brincava de bolear carro, de matar passarinho e de judiar com moleque: também o das cidades.”
            Na esfera sexual, destaco o trecho localizado na página 404, trecho em que o autor desmistifica a tese academicamente aceita na época, que ainda se expressa no nosso cotidiano e influencia muito a vida das mulheres negras, a tese da negra fogosa. O autor coloca a luxúria e promiscuidade como inerentes a uma ordem escravocrata, alegando que isso não é fruto da introdução do negro, que seria lascivo e teria mais apetite sexual do que os brancos, no território e sim fruto de uma ordem social que estimula a procriação feminina e o domínio sexual do homem branco sobre o maior número possível de mulheres, o qual ocorre principalmente sobre as mulheres negras, pois são as mais estruturalmente oprimidas dentro dessa sociedade. Para comprovar essa ordem corruptora o autor utiliza duas ferramentas: a comparação e a contraposição. Como semelhante a esse fenômeno no Brasil, o autor usa dados sobre o modo como se dão as relações sexuais no sul dos EUA, local também sob a ordem escravocrata e como contraposição usa o sertão, local que sofre mais indiretamente as influências do escravismo. Algo que o autor não diz mas que se pode inferir a partir da leitura é que a questão não é sexo, é poder.
            “[...] na divisão da sociedade em senhores todo poderosos e em escravos passivos é que se devem procurar as causas principais do abuso de negros por brancos, através de formas sadistas de amor que tanto se acentuaram entre nós; e em geral atribuídas à luxúria africana.” (pág. 404)
            Na página 421 há um trecho que trata das relações entre mulheres brancas e mulheres negras, falando de um sadismo acentuado proveniente das mulheres brancas, que mistura competição feminina e algo similar à síndrome do pequeno poder, é importante pensar nessas relações ao se pensar como organizar o movimento de mulheres na atualidade:
“Quanto à maior crueldade das senhoras que dos senhores no tratamento dos escravos é fato geralmente observado nas sociedades escravocratas. Confirmam-no os nossos cronistas. Os viajantes, o folclore, a tradição oral. Não são dois nem três, porém muitos os casos de crueldade de senhoras de engenho contra escravos inermes. Sinhá-moças que mandavam arrancar os olhos de mucamas bonitas e trazê-los à presença do marido, à hora da sobremesa, dentro da compoteira de doce e boiando em sangue ainda fresco. Baronesas já de idade que por ciúme ou despeito mandavam vender mulatinhas de quinze anos a velhos libertinos. Outras que espatifavam a salto de botina dentaduras de escravas; ou mandavam-lhes cortar os peitos, arrancar as unhas, queimar a cara ou as orelhas. Toda uma série de judiarias.
            O motivo, quase sempre, o ciúme do marido. O rancor sexual. A rivalidade de mulher com mulher.”
            O autor fala sobre um sadismo BRASILEIRO, o que me faz pensar: quem o autor vê como brasileiro? Para quem o autor escreveu esse livro?
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            Relações de gênero na ordem escravocrata
            Ao tratar da mulher negra o autor fala do que leva os senhores a se relacionarem com ela, que é a visão da mulher negra como propriedade (que também há, porém de forma mais sutil, em relação às suas companheiras brancas, é outra lógica que vigora nessas relações) e um sadismo que forma a moral da classe dominante dentre dessa estrutura.
            A prostituição é colocada como papel em que a mulher é colocada por seus senhores ou como única ocupação que essa mulher consegue para livrá-la do papel de escrava, pois geraria um pecúlio próprio.
Essas duas formas com que o homem branco se relaciona sexualmente com as mulheres negras levariam a uma sifilização dessa população, momento em que o autor desmistifica a lenda de que foi o africano que sifilizou o Brasil, colocando o papel da mulher negra dentro desse panorama como sim um fator que trabalhou para espalhar essa doença, mas que não tem responsabilidade nesse fenômeno.
É ao tratar da sifilização que o autor introduz a questão da cultura das amas-de-leite, afirmando que essa cultura foi responsável por transmitir a sífilis para as crianças. Ao tratar da amamentação o autor levanta diversas questões: a relação de afeto entre as amas e os nhonhôs, as razões que levaram essa cultura a ser padrão no país. Na relação de afeto o autor em nenhum momento fala de como esse carinho era em si um tipo de exploração e também não fala de como o afeto é usado como apaziguador de conflitos. Para falar da primazia que essa cultura adquiriu o autor muitas vezes trabalha com justificativas biológicas, que não sei até que ponto são válidas, mas que mostram muito sobre a realidade da mulher branca no território brasileiro.

Tratando-se da família patriarcal o autor fala da discrepância de idade dos casamentos, pontuando como as meninas se casavam ainda na adolescência e como começavam cedo a procriar, procriação essa que acontecia todos os anos, acabando com a saúde das mulheres e tornando fato padrão maridos viúvos de uma ou duas esposas.

quarta-feira, 7 de setembro de 2016

Quilombo e periferia: territórios negros e suas semelhanças. Reflexões sobre a minha experiência no quilombo do Bracuí

Ao longo das décadas, o conceito de quilombo foi palco de muitas disputas, essas disputas trazem em si diversos interesses políticos e têm na academia e no âmbito jurídico seus principais alicerces. Se de um lado temos a visão mais clássica e já antiquada, que enquadra os quilombos estritamente como terras de escravos fugidos, de outro lado temos uma visão mais plural, uma visão que define quilombos como territórios negros gerados por diversas circunstâncias, e é esse o caso do Bracuí, um território abandonado por seus donos e doado para aqueles que nele moravam.
A primeira definição citada no parágrafo acima traz consigo os interesses de uma burocracia cuja vontade de ceder terras que contrapõem a lógica individualista do mercado, por se tratarem de terras coletivas e que saem da rota da especulação imobiliária pela proibição se sua compartimentação e venda, traz consigo também um rigor conceitual pouco aplicável a realidade da formação da sociedade negra brasileira e uma idealização na abordagem daquilo que seria considerado resistência, restringindo muito o papel das populações negras brasileiras e pouco mostrando as diversas formas de luta, de organização e de agência histórica por elas exercidas ao longo do tempo.
As visões mais plurais buscam alargar a definição para mostrar que culturas negras “menos colonizadas” e que espaços de resistência sempre existiram em diversos moldes e que comunidades tradicionais vão muito além do que se imagina o senso comum, que povos quilombolas não pararam no tempo e que muitas vezes estão integrados nas comunidades que existem ao seu redor. A partir dessas visões, muito mais comunidades passam a se reconhecer como quilombolas, tendo seus processos de formação relacionados a uma visão mais ampla do que foi a colonização e do que foi a escravidão, estendendo tais fenômenos históricos a um passado muito mais recente, que consegue chegar até o período final do século XX.
Mesmo tendo acontecido a sua formação de modos completamente diferentes, o distanciamento entre o Quilombo do Bracuí e o centro o interliga com outros bairros de periferia, tanto do Rio de Janeiro, quanto de São Paulo. Se no século XX as periferias foram se formando pelo proposital distanciamento de comunidades negras dos centros das cidades, em um projeto higienista, o quilombo do Bracuí nasceu sendo periférico, sua localização distante da cidade é o que fez com que a fazenda de tráfico ilegal pudesse funcionar o tempo que funcionou. Mesmo assim, podemos perceber muitas semelhanças entre esse território e outros territórios periféricos, semelhanças essas que fazem com que as circunstâncias formadoras dessas comunidades sejam pouco importantes.
A mistura do brega com o funk, a coexistência entre bares e paredões de carros com altíssimas caixas de som mostra um cenário muito parecido com qualquer periferia do Brasil. A expansão das cidades faz também com que o Quilombo do Bracuí, ainda em processo de titulação, seja acometido por uma lógica perversa de descaracterização de sua comunidade, o encarecimento do centros urbanos faz com que cada dia mais pessoas migrem para locais mais afastados, seja por motivos financeiros, seja por procurarem um estilo de vida mais pacífico e uma qualidade de vida maior.

Sendo localizado em uma região muito propícia para hotéis e resorts por sua proximidade com a linda baía de Angra dos Reis e com um rio, cachoeira e pequenas quedas d’água, a especulação imobiliária avança cada dia mais para dentro do quilombo. Junto com a especulação, há uma descaracterização da paisagem, fazendo com que numa mesma rua existam casas gigantes com portões intimidadores, fruto dessa venda de lotes cada vez mais frequente e as casas com quintal de mato, com portões baixos, que são características de uma vida mais comunitária e de uma populações mais integrada, essas casas são a figura mais clara do elemento externo adentrando a comunidade. Há também uma maior introdução do elemento branco nessa comunidade, digo maior introdução porque, na sua formação, o Bracuí possuía uma parte significante de população branca, já que parte dos pescadores e comerciantes da região não eram negros. Essa maior introdução de uma população branca e vinda de outras partes da cidade, do estado, do país, portadora de outras trajetórias, pode acabar descaracterizando o Bracuí enquanto comunidade quilombola, pois, conforme essas outras pessoas vão entrando, seus habitantes, que venderam os lotes, vão saindo.
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          Há algum tempo entrei em contato com alguns textos, algumas narrativas, que causaram em  mim um impacto muito grande, me fizeram perceber que a minha existência não é acidental, que eu sou fruto de diversos processos históricos e não nasci e cresci na Casa Verde por acaso. Me entender como parte ativa de uma história, que tenho um compromisso com aqueles que vieram antes de mim, conseguir ligar a minha existência a períodos mais remotos da história da minha cidade, do país em que eu estou, me fez me sentir menos solta no mundo, fez com que eu entendesse demais muitas coisas, a história de muitas das pessoas que me rodeiam e que me rodearam ao longo dos meus recém-completos dezenove anos. Me descobrir fruto de tantas histórias fez com que eu me sentisse mais parte de muitas coisas, e esse texto foi produzido nesse momento de me entender como integrante de algo maior do que eu, o texto não é sobre mim, mas é TAMBÉM sobre mim. Enfim, vou deixar aqui embaixo textos que se relacionam ao que estou falando.

domingo, 4 de setembro de 2016

Lendo Casa-grande & Senzala: o terceiro capítulo


 O colonizador português: antecedentes e predisposições
Me saltou a vista o tom que o autor usa ao longo de todo o capítulo quando descreve o colonizador português, um tom de grandeza e admiração. O foco do texto é a formação híbrida da sociedade portuguesa, alegando que a escravização dos mouros foi o que os preparou para a experiência escravista na América, mostrando também que, por meio de sua mão-de-obra, a tecnologia moura influenciou muito Portugal e que como conseqüência a cultura moura influenciou e adentrou na vida brasileira..
O português é mostrado como o menos cruel dos escravistas, pois, diferentemente dos outros, ele se deforma ao entrar em contato com novas raças e, ao invés de se afastar, de sentir repulsa, ele confraterniza com elas.
 “Engana-se, ao nosso ver, quem supõe ter o português se corrompido na colonização da África, da Índia e do Brasil. Quando ele projetou por dois terços do mundo sua grande sombra de escravocratas, já suas fontes de vida e saúde econômica se achavam comprometidas. Seria ele o corruptor e não a vítima.”
Coloca a escravidão e o escravo negro como absolutamente necessários para a sobrevivência da hegemonia portuguesa em um cenário mundial.
Muitas coisas da minha leitura se perderam porque demorei para fichar e para desenvolver meus pensamentos, já me esqueci de quase todas as teses defendidas no capítulo, sei que tinha algo sobre parasitismo judeu, alguma coisa a respeito do conflito entre jesuítas e senhores de terras, sobre como foi resolvido, enfim, o que me sobrou foram as análises da sexualidade portuguesa e posteriormente da brasileira, na verdade nem isso, apenas achei interessante como o autor analisa a religião católica no Brasil na página 326:
 “Os grandes santos nacionais tornaram-se aqueles a quem a imaginação do povo achou de atribuir milagrosa intervenção em aproximar os sexos, em fecundar as mulheres, em proteger a maternidade: Santo Antônio, São João, São Gonçalo do Amarante, São Pedro, o Menino Deus, Nossa Senhora do Ó, da Boa Hora, da Conceição, do Bom Sucesso, do Bom Parto. Nem os santos guerreiros como São Jorge, nem os protetores das populações contra a peste como São Sebastião ou contra a fome como Santo Onofre – santos cuja popularidade corresponde a experiência dolorosamente portuguesas – elevaram-se nunca a importância ou ao prestígio de outros patronos do amor humano e da fecundidade agrícola.”

Uma religião voltada para a procriação tem muito a ver com um projeto colonizador que depende do aumento da população de um território.

Lendo casa-grande e senzala: o segundo capítulo

Segundo capítulo: O indígena na formação da família brasileira
            Freyre caracteriza os índios do território brasileiro como “crianças grandes”, em um discurso que os compara, compara em termos de evolução, com os maias, incas e astecas, e coloca esse como o fator de não se ter estabelecido no país uma política de extermínio, preciso me aprofundar mais nessa questão indígena, pois o que sei sobre a América Latina indica que no México os locais com resistência mais efetiva à colonização foram onde as populações não eram tão hierarquizadas ou organizadas em estruturas próximas de um reinado, enquanto os “grandes impérios” decaíram mais facilmente. Ainda no mesmo discurso evolucionista, o autor coloca a cultura indígena como inferior à africana.
            Pelo intermédio da mulher indígena se adotaram muitos costumes na vida brasileira: banho, higiene, comida, cuidado com crianças, remédios. Coloca a sexualidade da mulher indígena como maior que a do homem indígena e coloca esse fato como um dos grandes responsáveis pela miscigenação, apontando a miscigenação como um processo quase que voluntário, vindo de uma atração mútua entre homens portugueses e mulheres indígenas.
            Fala das relações de parentesco mas de um jeito superficial, preciso estudar isso, o máximo que já vi a respeito foi um documentário sobre os estudos de Levi Strauss, porém o foco estava no estruturalismo e na sua semelhança com as ciências lingüísticas, sobre a busca de um átomo formador da língua (fonética) e de um átomo formador do parentesco (aí se aprofundava um pouco no avunculado, mas sem nenhuma síntese).
            Algumas páginas se dedicam ao papel do vermelho na vida indígena e como esse papel penetrou na sociedade brasileira de forma geral. Achei interessante, pois mostra como a cor tinha um papel de proteção física (protegia a pele do sol e da picada de alguns bichos) e proteção espiritual, protegendo a alma dos maus espíritos (o autor vai traçar então um panorama do uso do vermelho em diferentes tribos e mostrar as infiltrações desse uso nas famílias das casas-grandes).
Finalmente fala de imperialismo e destruição de cultura, citando Pitt-Rivers, um importante teórico do campo da cultura material, que enxergava as coisas por um viés evolucionista, o trecho, localizado na página 177, é o seguinte:
“Considerando nesse ensaio o choque das duas culturas, a europeia e a ameríndia, do ponto de vista da formação social da família brasileira – em que predominaria a moral europeia e católica – não nos esqueçamos, entretanto, de atentar no que foi para o indígena, e do ponto de vista de sua cultura, o contato com o europeu. Contato dissolvente. Entre as populações nativas da América, dominadas pelo colono ou pelo missionário, a degradação moral foi completa, como sempre acontece ao juntar-se uma cultura, já adiantada, com outra atrasada.
Sob a pressão moral e técnica da cultura adiantada, esparrama-se a do povo atrasado. Perde o indígena a capacidade de desenvolver-se autonomamente tanto quanto a de elevar-se de repente, por imitação natural ou forçada, aos padrões que lhe propõe o imperialismo colonizador. Mesmo que se salvem formas ou acessórios de cultura, perde-se o que Pitt-Rivers considera o potencial, isto é, a capacidade construtora da cultura, o seu elã, o seu ritmo.”
Pitt Rivers acreditava que a humanidade caminhava em direção ao progresso e que culturas atrasadas, quando entravam em contato com culturas adiantadas, adotavam os costumes da nova cultura. Ainda que a visão apresentada seja ultrapassada, é o primeiro momento no texto em que sinto que o autor não positiva o contato entre dominador e dominado, em que não tenta procurar uma harmonia na forma em que se deram tais relações.
            Na página 186 podemos encontrar características das relações de gênero dentro do meio indígena:
            “Entre os seus era a mulher índia o principal valor econômico e técnico. Um pouco besta de carga e um pouco escrava do homem. Mas superior a ele na capacidade de utilizar as coisas e de produzir o necessário à vida e ao conforto comuns.
            A poligamia não corresponde entre os selvagens que a praticam – incluídos neste número os que povoavam o Brasil – apenas ao desejo sexual, tão difícil de satisfazer no homem com a posse de uma só mulher; corresponde também ao interesse econômico de cercar-se o caçador, o pescador ou o guerreiro dos valores econômicos vivos, criadores, que as mulheres representam.”
            Não, não sei como analisar esse trecho, então ele vai ficar aqui guardadinho pra algum momento no futuro. A única coisa que consigo pensar é que poligamia nunca é sobre desejo sexual. Algumas páginas são destinadas à homossexualidade/bissexualidade e sua importância na dinâmica das tribos indígenas, a análise é completamente estranha, isso nos momentos em que não é absurda, mas eu ainda não estudei o suficiente sobre o assunto para conseguir criticar.
            Uma parte que achei interessante foi quando se comenta a facilidade dos povos indígenas em aceitar a tradição de penitência católica, pois os rituais de iniciação e de cura indígenas também eram baseados no flagelo, na purificação por meio da dor.           
                        Em um trecho da página 213, o autor vai falar de alguns dos fenômenos sociais de insubordinação pelos quais nosso país passou, caracterizando-os como um furor selvagem que muito distava de um projeto político:
 “Também são freqüentes, entre nós, os relapsos no furor selvagem, ou primitivo, de destruição, manifestando-se em assassinatos, saques, invasões de fazendas por cangaceiros: raro aquele dos nosso movimentos políticos ou cívicos em que não tenham ocorrido explosões desse furor recalcado ou comprimido em tempos normais. Sílvio Romero chegou a criticar-nos pela ingenuidade com que “damos o pomposo nome de revoluções liberais” a “assanhamentos desordeiros”. O caráter, antes de choque de culturas desiquais, ou antagônicas, do que cívico ou político, desses movimentos, parece não ter escapado ao arguto observador: “os elementos selvagens ou bárbaros que repousam no fundo étnico de nossa nacionalidade, vieram livremente à tona, alçaram o colo e prolongaam a anarquia , a desordem espontânea”, escreve ele, referindo-se às balaiadas, sabinadas, cabanadas, que têm agitado o Brasil. Poderia talvez estender-se a caracterização aos mata-matamarinheiro, quebra-quilos,  farrapos; quem sabe mesmo se atualizá-la, aplicando-a a movimentos mais recentes, embora animados de um fervor ideológico mais intenso do que aqueles? A revolução pernambucana de 1817 parece-nos permanecer em nossa história política “a única digna desse nome”, da frase de Oliveira Lima; é sem dúvida aquela que se revestiu menos do caráter de pura desordem propícia ao saque, ou menos sofreu da deformação de fins políticos ou ideológicos. Não que a consideremos exclusivamente política, sem raízes econômicas; o que desejamos acentuar é que se processou de um modo diverso das abriladas, com um programa e um estilo político definidos. Da vinagrada de 1836, no Pará, escreveu Sílvio Romero: “o elemento tapuio alçou o colo, tripudiando sobre a vida e a propriedade alheia”.
Isto sem falarmos em movimentos francamente de revolta de escravos, explosões ou de ódio de raça ou de classe social e economicamente oprimida – a insurreição de negros em Minas, por exemplo. Ou como nos terremotos de cultura: culturas oprimidas explodindo para não morrer sufocadas, rompendo a crosta da dominante para respirar, como parece ter sido o movimento de negros na Bahia m 1835. A cultura negra maometana contra a portuguesa católica. Estes são movimentos  à parte, de um profundo sentido social, como à parte é o de Canudos – resultado da diferenciação da cultura qe se operou entre o litoral e o sertão. Os relapsos em furor selvagem observamo-los em movimentos de fins aparentemente políticos ou cívicos, mas na verdade pretexto de regressão à cultura primitiva, recalcada porém não destruída.”
O projeto jesuítico de colonização é mostrado de forma pouco romantizada pelo autor, se coloca primeiramente como um projeto que se preocupava com os indígenas mas que ao longo do tempo se tornou mais preocupado com o mantimento de sua hegemonia dentro da igreja católica e com os lucros que tirariam dessa hegemonia. As crianças eram usadas como instrumentos da colonização, pois quando se ensina para crianças uma nova ordem moral, a aceitação é maior, e assim eram as crianças o fator que policiava a moralidade dentro do seio familiar, crianças essas que passaram a ser muito valorizadas devido à alta taxa de mortalidade que lhes acometeu nesse período (período em que se cunhou no território a visão de que crianças que morrem eram anjos retomados pelos céus).
No trecho localizado na página 230 podemos encontrar um reforço da tese de que o índio era preguiçoso, fraco e primitivo, enquanto o africano era mais avançado, trabalhador e resistente, essa tese já não é mais aceita dentro das ciências sociais, se trata de uma visão preconceituosa e de um evolucionismo deveras simplificado. No entanto, achei interessante parar pra pensar em como a sedentarização modificou o modo de vida indígena e em como se amontoar muitos indígenas em assentamentos jesuítas acabou ajudando na disseminação de epidemias.
 “Se índios de tão boa aparência de saúde fracassaram, uma vez incorporados ao sistema econômico do colonizador é que foi para eles demasiado brusca a passagem do nomadismo à sedentariedade; da atividade esporádica à contínua; é que neles se alterou desastrosamente o metabolismo ao novo ritmo de vida econômica e de esforço físico. Nem o tal inhame nem os tais frutos da terra bastariam agora à alimentação do selvagem submetido ao trabalho escravo nas plantações de cana. O resultado foi evidenciar-se o índio no labor agrícola o trabalhador banzeiro e moleirão que teve de ser substituído pelo negro. Este, vindo de um estádio de cultura superior ao do americano, corresponderia melhor às necessidades brasileiras de intenso e contínuo esforço físico. Esforço agrícola, sedentário. Mas era outro homem. Homem agrícola. Outro, seu regime de alimentação, que, aliás, pouca alteração sofreria no Brasil, transplantadas para cá muitas das plantas alimentares da África: o feijão, a banana, o quiabo, e transportados das ilhas portuguesas do Atlântico para a colônia americana o boi, o carneiro, a cabra, a cana-de-açúcar.”
Na página 231, podemos perceber claramente a visão do autor de que o país é harmônico, de que a miscigenação gerou harmonia no país e de que isso é muito positivo e deve ser comemorado, uma visão que tem muito sentido quando vinda de um filho da casa-grande.
 “A verdade é que no Brasil, ao contrário do que se observa em outros países da América e da África de recente colonização europeia, a cultura primitica – tanto a ameríndia como a africana – não se vem isolando em bolões duros, secos, indigestos, inassimiláveis; ao sistema social do europeu. Muito menos estratificando-se em arcaísmos e curiosidades etnográficas. Faz-se sentir na presença viva, útil, ativa, e não apenas pitoresca, de elementos com atuação criadora no desenvolvimento nacional. Nem as relações sociais entre as duas raças, a conquistadora e a indígena, aguçaram-se  nunca na antiparia ou no ódio cujo ranger, de tão adstringente, chega-nos aos ouvidos de todos os países de colonização anglo-saxônica e protestante. Suavizou-as aqui o óleo lúbrico da profunda miscigenação, quer a livre e danada, quer a regular e cristã sob a benção dos padres e pelo incitamento da Igreja e do Estado.”

A última parte que me chamou a atenção foi a breve menção do autor à couvade, termo que eu só entrei em contato anteriormente no prefácio da Rose Marie Muraro para O Martelo das Bruxas, que é inclusive um ótimo prefácio.

segunda-feira, 22 de agosto de 2016

Eu caminho pela cidade e é como se você estivesse impresso em todos os cantos, esquinas.
Toda vez que passo por aquela rua me lembro da sensação de descer as escadinhas e ir, relutante,  pra um bar desconhecido, aqueles últimos minutos da sua não existência, os últimos momentos em que contemplei um mundo que você não preenchia, em que não raciocinei com uma cabeça que sente saudades suas.
O ônibus passa por aquela praça em que estivemos tantas vezes e em cada canto eu vejo uma face sua: a cara de quem me avalia, sem me conhecer; a cara de quem não quer conversar, que me deixa insegura; a cara de quem me quer por perto sempre, de quem me admira; a cara de quem quer se afastar. Eu me vejo ali de tantas formas, me vejo tímida, com raiva, com medo, me vejo plena e realizada e também me vejo triste. E eu vejo a sua mão nas minhas costas, vejo o seu abraço, seu sorriso me surge com cada detalhe, eu enxergo seus dentes pequenos e separados, tão próximos do meu rosto, e me vem nas bochechas o calor do seu hálito de vinho barato, que se mistura com o cheiro do seu corpo e o cheiro da sua roupa lavada.
Eu vejo a gente descendo aquela rua e conversando sobre nada, e também vejo a gente naquela esquina, a esquina em que vou sempre, sentados na ponta da mesa, conversando até você me beijar, aquele beijo que a gente dá com vontade de rir, que tem gente em volta fazendo palhaçada. Eu vejo a gente conversando muito tempo depois, com vidas muito diferentes. Aí eu ando mais e te vejo naquele morro, que hoje não tem nada, mas já teve uma multidão da qual fazíamos parte.
E quando eu passo por aquela placa eu me vejo chorando enquanto te beijo, assim como me vejo te olhando alguns metros mais pra frente, te olhando enquanto você canta a música que eu sempre quis compartilhar com alguém.
Naquele largo eu vejo a gente sentado nas calçadas, eu me vejo tentando te entender e me vejo incomodada com você se fechando completamente.
E quando eu fecho o olho pra não te ver eu lembro de alguma coisa que esqueci de te contar, aí o impulso é de correr pra falar com você e, quando eu tento esquecer o impulso, tudo que eu consigo é te sentir rondando a minha cabeça.
No fim do dia eu estou na mesma catraca, esperando alguém que eu sei que não é você, mas o lugar faz meu corpo reagir como se você fosse chegar a qualquer momento.

terça-feira, 2 de agosto de 2016

vira-lata

um cachorro na rua
vira-lata de tudo, de corpo, de alma
vem um e dá pão, um leve afago
vem outro e dá carne, tapinha na cabeça
cachorro fecha o olho, arrebita o queixo
cachorro quer mais carinho
carinho não vem

chega um
vem cachorro, ele diz
cachorro segue, portão se abre
ali cachorro, pode deitar
cachorro ganha carinho, mas quer mais
cachorro fica no chão, mas quer colo, quer sofá
cachorro dorme, mas não dorme bem
medo de acordar na rua
medo de nunca o colo, nunca o sofá

terça-feira, 19 de julho de 2016

esperando


todos os meus pensamentos têm ficado em segundo plano. nos últimos dias eu só consigo pensar nele, aí o coração acelera e me falta um pouco de ar.



agora, esperando, com tão pouca distância entre a gente, certas coisas não param de passar pela minha cabeça: como ele me enxerga? o que ele sente por mim? como vai ser encontrá-lo e matar as saudades? será que ele mudou muito? quanto vou sofrer com a nova despedida? quantas minas vou ter que ver ele pegando nos rolês? quando vou conseguir partir pra outras histórias? quando vão APARECER outras histórias?



porque, quando ele apareceu, meu coração já estava vazio tinha um tempo, e nada surgia na minha vida, então foi como um sopro de, sei lá, alegria, eu acho.



e fiquei pensando em como a vida era cruel em me apresentar alguém que nunca me pertenceria, quando eu sou exatamente o tipo de pessoa que precisa desse sentimento de posse.


e ele me deixa tão insegura que nesse momento eu estou nervosa e com medo de que ele me deixe esperando
(talvez esperando por ele pra sempre, isso é assustador demais, porque o que eu prevejo pra minha vida é exatamente isso: esperar por alguém que nunca chega.)

quarta-feira, 6 de julho de 2016

Lendo Casa-grande & senzala: o primeiro capítulo

Características gerais da colonização portuguesa do Brasil: formação de uma sociedade agrária, escravocrata e híbrida
Vai ser feito um apanhado das características dessa sociedade que tem uma formação de estrutura agrária, de técnica de exploração econômica escravocrata e híbrida de índio, negro e português em sua composição.
A primeira tese apresentada é de que os portugueses teriam uma predisposição para essa colonização híbrida, pois possuíam em sua formação muito desse hibridismo e sempre foram uma nação sempre indecisa entre Europa e África, caracterizando um “vago impreciso”, algo que não pertence a nenhuma das duas realidades, atlântico e móvel por natureza e, assim, realizadores de um domínio continental que tem valores e estruturas mais flexíveis e adaptáveis.
A conseqüência foi a execução de um tipo de colonização que, devido às suas predisposições, superou empecilhos como nenhuma outra, tendo um caráter original e criador. É mostrado que a colonização da Argentina e dos EUA, pelos espanhóis e ingleses, foi mais fácil, pois o clima desses territórios em muito se assemelhavam ao clima europeu, coisa que não aconteceu no Brasil.
O português colonizador foi o primeiro a realmente se estabelecer em uma colônia, transportando seus cabedais para os trópicos, assim como suas famílias, quando não eram essas formadas aqui mesmo – ou, o que autor afirma ter sido comum, coexistiam duas famílias, a estrutura da colônia era polígama, e eu vou falar sobre isso mais pra frente. Essa característica faz com que a família se torne o fator colonizador do Brasil, a família se torna a menor célula constituinte dessa sociedade.
É pontuado um aspecto da colonização que já tive contato em outros textos: a tendência da colônia era a de se derramar – espalhar as pessoas ao longo do território – e não de se adensar. Esse fato gera algumas interpretações no debate historiográfico, alguns historiadores afirmam que foi um modelo de colonização que gerou um despovoamento inicial na colônia, pois não havia braços para tomarem todo aquele território, outros dizem que não, foi a forma que se encontrou e dominar o espaço, senti que o autor fica no meio termo, ele diz que primeiro se domina o território horizontalmente e depois em sua profundidade e quantidade. Importante mencionar que a ferramenta de unidade do projeto colonizador era a religião católica.
Retomando um pouco o conceito de lavoura parasita da natureza vai se falar um pouco sobre os hábitos alimentares da colônia e é mostrado que a dieta com a qual as pessoas viviam na época era tenebrosa: a classe senhorial e os escravos viviam bem alimentados – no sentido de não passavam fome e de tinham uma alimentação um pouco mais equilibrada que a dos outros, mas não era uma boa alimentação – enquanto a população média, não inserida na grande lavoura escravocrata, passava muita fome. A economia se organizou ao redor da economia açucareira de tal forma que pouco se produziam os itens básicos de sobrevivência, foi necessário regulamentar a produção de alimentos para conseguir aliviar um pouco da escassez gerada pela monocultura – e a situação persistiu até o século XVIII (aí se pontua também o costume que as pessoas tinham de fazer jejuns religiosos, achei muito interessante). (e em São Paulo essas questões eram mais equilibradas)
Um trecho, localizado na página 79, que achei que explica bem essa questão da lavoura exploratória, que mais rouba do que gera, é esse aqui:
“O colonizador português do Brasil foi o primeiro entre os colonizadores modernos a deslocar a base da colonização tropical da pura extração de riqueza mineral, vegetal ou animal – o ouro, a prata, a madeira, o âmbar, o marfim – para a de criação local de riqueza. Ainda que riqueza – a criada por eles sob a pressão das circunstâncias americanas – à custa do trabalho escravo: tocada, portanto, daquela perversão de instinto econômico que cedo desviou o português da atividade de produzir valores para a de explorá-los.
Semelhante deslocamento, embora imperfeitamente realizado, importou em uma nova fase e em um novo tipo de colonização: a “colônia de plantação”, caracterizada pela base agrícola e pela permanência do colono na terra, em vez do seu fortuito contato com o meio e com a gente nativa. No Brasil iniciaram os portugueses a colonização em larga escala dos trópicos por uma técnica econômica e por uma política social inteiramente novas: apenas esboçadas nas ilhas subtropicais do Atlântico. A primeira: a utilização e o desenvolvimento de riqueza vegetal pelo capital e pelo esforço do particular; a agricultura; a sesmaria; a grande lavoura escravocrata. A segunda: o aproveitamento da gente nativa, principalmente da mulher, não só como instrumento de trabalho mas como elemento de formação da família. Semelhante política foi bem diversa da de extermínio ou segregação seguida por largo tempo no México e no Peru pelos espanhóis, exploradores de minas, e sempre e desbragadamente na América do Norte pelos ingleses.
A sociedade colonial no Brasil, principalmente em Pernambuco e no Recôncavo da Bahia, desenvolveu-se patriarcal e aristocraticamente à sombra das grandes plantações de açúcar, não em grupos a esmo e instáveis; em casas-grandes de taipa ou de pedra e cal, não em palhoças de aventureiros. Observa Oliveira Martins que a população colonial no Brasil, “especialmente ao norte, constituiu-se aristocraticamente, isto é, as casas de Portugal enviaram ramos para o ultramar; desde todo o princípio a colônia apresentou um aspecto diverso das turbulentas imigrações dos castelhanos na América Central e Ocidental.”

A questão sexual
O autor coloca a capacidade de se misturar com outras raças por meio do sexo como uma das maneiras de driblar a sua falta de capital humano, uma capacidade gerada por essa pré-disposição ao hibridismo, citando que a preferência sexual do português é a mulher moura, ou de pele mais escura, tendo encontrado nas índias a materialização de um fetiche prévio “tara étnica inicial” e tendo, através das primeiras relações, sifilizado a população nativa.
Sobre a mistura sexual e as relações existentes nesses relacionamentos, temos esse trecho, localizado na página 113:
“O intercurso sexual entre o conquistador europeu e a mulher índia não foi apenas perturbado pela sífilis e por doenças européias de fácil contágio venéreo: verificou-se – o que depois se tornaria extensivo às relações dos senhores com as escravas negras – em circunstâncias desfavoráveis à mulher. Uma espécie de sadismo do branco e de masoquismo da índia ou da negra terá predominado nas relações sexuais como nas sociais do europeu com as mulheres das raças submetidas ao seu domínio. O furor femeeiro do português se terá exercido sobre vítimas nem sempre confraternizantes no gozo; ainda que se saiba de caos de pura confraternização do sadismo do conquistador branco com o masoquismo da mulher indígena ou da negra. Isso quanto ao sadismo de homem para mulher – não raro precedido pelo de senhor para moleque. Através da submissão do moleque, seu companheiro de brinquedos e expressivamente chamado leva-pancadas, iniciou-se muitas vezes o menino branco no amor físico.
Quase que do moleque leva-pancadas se pode dizer que desempenhou entre as grandes famílias escravocratas do Brasil as mesmas funções de paciente do senhor moço que na organização patrícia do Império Romano o escravo púbere escolhido para companheiro do menino aristocrata: espécie de vitime, ao mesmo tempo que camarada de brinquedos,, em que se exerciam os “premiers élans génésiques” do filho-família.”
Então ao mesmo tempo em que fala de uma estrutura desfavorável à mulher, Freyre coloca que alguns desses momento foram de pura confraternização entre aquele que gosta de maltratar e aquele que gosta de ser maltratado, veja bem, não estamos falando de pessoas com poderes equivalentes, muito pelo contrário, estamos falando de casos em que aquele que é o sádico é quem é sinônimo de poder e aquele que é o “masoquista” é aquilo que é sinônimo ABSOLUTO de submissão. E aí é também apontada a construção social para o mantimento do racismo enquanto, para além de um sistema de exploração, um sistema moral e de ódio que garantia a própria existência dessa exploração – essa parte dá pra relacionar com aquela cena de Memórias Póstumas, em que o Brás brinca de cavalinho com o menino escravo e bate nele com chicotada, a construção do sadismo desde a infância, um modo de incutir tais valores na mente daqueles que serão a próxima geração da classe senhorial.
Na página 115 o autor faz uma análise mais geral da sociedade escravocrata e pós-escravismo:
“Na verdade, o equilíbrio continua a ser entre as realidades tradicionais e profundas: sadistas e masoquistas, senhores e escravos, doutores e analfabetos, indivíduos de cultura predominantemente europeia e outros de cultura principalmente africana e ameríndia. E não sem certas vantagens, as de uma dualidade não de todo prejudicial à nossa cultura em formação, enriquecida de um lado pela espontaneidade, pelo frescor de imaginação e emoção do grande número e, de outro lado, pelo contato, através das elites, com a ciência, com a técnica e com o pensamento adiantado da Europa. Talvez em parte alguma se esteja verificando com igual liberalidade o encontro, a intercomunicação e até a fusão harmoniosa de tradições diversas, ou antes, antagônicas, de cultura, como no Brasil. É verdade que o vácuo entre os dois extremos ainda é enorme; e deficiente a muitos respeitos a intercomunicação entre duas tradições de cultura. Mas não se pode acusar de rígido nem de falta de mobilidade vertical – como diria Sorokin – o regime brasileiro, em vários sentidos sociais um dos mais democráticos, flexíveis e plásticos.”
Ao mesmo tempo em que fala de equilíbrio, algumas páginas antes no capítulo:
“Com relação ao Brasil, que o diga o ditado: “Branca para casar, mulata para f..., negra para trabalhar”; ditado em que se sente ao lado do convencionalismo social da superioridade da mulher branca e da inferioridade da preta, a preferência sexual pela mulata.”
 Como se coloca a palavra “equilíbrio” para narrar uma realidade camuflada por essa miscigenação? Não sinto a miscigenação como um diminuidor de desigualdades e sim como um camuflador de estruturas de exploração onde o sexo é usado como dominação e como forma de embranquecimento de gerações.


Fora isso, senti que, apesar de focar no social, muitos dos estudos apresentados e endossados tem uma grande carga de abordagem biológica. Concluindo, sinto que a obra traz um panorama muito bom do pensamento científico da época, nas notas de rodapé é bem presente o debate historiográfico em torno das questões abordadas.

segunda-feira, 4 de julho de 2016

Lendo Casa-grande & Senzala: o prefácio da primeira edição

            É traçado um paralelo interessante entre o Norte do Brasil e o Sul dos EUA: o autor segue o conceito de “lavoura parasita da natureza” para falar do latifúndio escravocrata, achei o conceito interessante pois contempla o fato de que, nesse tipo de propriedade, não haviam ações que cuidavam da conservação da terra, sendo a agricultura mais uma forma de degradar a natureza, quase que uma forma não renovável de obtenção de energia.
            Ao analisar a implantação da cana como atividade econômica majoritária da colônia, o autor pontua que a característica democrática do comércio no Brasil foi alterada, pois o comércio de pau-brasil e de couro foram “mortos”, instaurando uma classe agricultora, da qual faziam parte aqueles que tinham o capital para investir em tais empreendimentos e não mais os aventureiros anteriores. O espaço que acabou mantendo essa característica da livre competição foi o sertão.
            Há, no prefácio, um panorama da arquitetura colonial que analisa dois aspectos: a arquitetura religiosa e a arquitetura da casa-grande. Esse panorama mostra quais relações sociais são expressas nas construções do período, relacionando a forma da casa-grande com a estabilidade que os senhores procuravam passar e colocando-a como fruto da estrutura escravocrata e latifundiária (já que tanto na economia cafeeira quanto na economia açucareira o modelo de casa era quase o mesmo).
            O autor mostra então quais são os empecilhos do seu estudo e quais são os possíveis lugares para encontro de fonte para aqueles que desejam seguir os seus estudos, para isso, há um contraponto entre a lógica protestante e a lógica católica e como a prática de confissões do catolicismo, quando comparada com a escrita de diários dos protestantes, acaba sendo um pouco pior para a historiografia, pois faz com que o acesso do historiador à vida privada seja viável apenas por meio dos documentos gerados na Inquisição.
            Uma outra tese, que me agrada muito, também abordada pelo autor é a da continuidade do latifúndio e das condições escravas de trabalho: “Aliás, a monocultura latifundiária, mesmo depois de abolida a escravidão, achou jeito de subsistir em alguns pontos do país, ainda mais absorvente e esterilizante do que no antigo regime; e ainda mais feudal nos abusos. Criando um proletariado de condições menos favoráveis de vida do que a massa escrava. Roy Nash ficou surpreendido com o fato de haver terras no Brasil, nas mãos de um homem só, maiores que Portugal inteiro: informaram-lhe que no Amazonas os Costa Ferreira eram donos de uma propriedade de área mais extensa que a Inglaterra, a Escócia e a Irlanda reunidas.”
Algo importante é a discordância de abordagem que levou o autor a realizar seus estudos. A teoria que estava em voga na época era o discurso médico da degeneração, causada, no Brasil, pela miscigenação, Freyre discorda dessas teorias e acredita que deve-se analisar as coisas por um viés mais social, vendo quais são as condições geradora de algumas realidades.
            Ao tentar colocar a miscigenação como algo positivo, Freyre comete algumas barbaridades, na minha opinião:
“A escassez de mulheres brancas criou zonas de confraternização entre vencedores e vencidos, entre senhores e escravos. Sem deixarem de ser relações – as dos brancos com as mulheres de cor – de “superiores” com “inferiores e, no maior número de casos, de senhores desabusados e sádicos com escravas passivas, adoçaram-se, entretanto, com a necessidade experimentada por muitos colonos de constituírem família dentro dessas circunstâncias e sobre essa base. A miscigenação que largamente se praticou aqui corrigiu a distância social que de outro modo se teria conservado enorme entre a casa-grande e a mata tropical; entre a casa-grande e a senzala. O que a monocultura latifundiária realizou no sentido de aristocratização, extremando a sociedade brasileira em senhores e escravos, com uma rala e insignificante lambujem de gente livre sanduichada entre os extremos antagônicos, foi em grande parte contrariado pelos efeitos sociais da miscigenação. A índia e a negra-mina a princípio, depois a mulata, a cabrocha, a quadradona, a oitavona, tornando-se caseiras, concubinas e até esposas legítimas dos senhores brancos, agiram poderosamente no sentido de democratização social no Brasil. Entre os filhos mestiços, legítimos e mesmo ilegítimos, havidos delas pelos senhores brancos, subdividiu-se parte considerável das grandes propriedades, quebrando-se assim a força das sesmarias feudais e dos latifúndios do tamanho de reinos.”

É colocada aqui o que parece ser a tese central do livro: a miscigenação fez com que no Brasil existisse uma maior democracia, como se a miscigenação tivesse reduzido as desigualdades do país, inclusive as desigualdades raciais. Ao tentar colocar como positiva a miscigenação na formação do país, e ao renegar as teorias de degeneração, ele relativiza o estupro sofrido por diversas mulheres escravizadas, colocando as relações sexuais como redutoras das distâncias entre a casa-grande e a senzala, quando elas eram, na verdade, uma ferramenta de coerção, é um pouco complexo colocar tal fato como “zona de confraternização”.