o acordar é lento
acontece repetidamente
se prolonga ao máximo
porque não faz sentido
não se quer completar
o torpor conforta mais
do que o clarão da realidade
quinta-feira, 29 de dezembro de 2016
quarta-feira, 28 de dezembro de 2016
foi
foi-se tão rápido quanto veio
deixou pra trás memórias
que se esvaem com a mesma rapidez
da sua fulgás passagem
memórias tão breves, tão tolas
que me sinto estúpida tentando, em vão
segurá-las entre meus dedos
tentando, em vão
(res)significar seus gestos
já não enxergo direito seu rosto
não reconstituo sua voz ou seu cheiro
lembro bem do seu toque
dos círculos de seus dedos sobre a minha pele
do gosto da saliva e do som da respiração
do rosnado e do gemido rouco
da risada e do conforto
espero de verdade que retorne
mas se não retornar
foi o que foi
ficarei feliz se ao menos
retornar em novas faces, novas vidas
terça-feira, 15 de novembro de 2016
“Conhecimento de África, conhecimento de Africanos: Duas perspectivas sobre os Estudos Africanos” – Paulin J. Hountondji
Hountondji, ao longo do texto, diz que os estudos sobre a
África são iniciados e controlados pelo ocidente e que seu motor faz parte de
um projeto político de acumulação do conhecimento, no qual a pesquisa e
conhecimento africanos são ou extraviados ou tem desde a sua produção um sentido
exteriorizado.
O autor demonstra que o leque de ciências denominadas estudos africanos são geralmente sobre
África e não de África e propõe uma visão abrangente e interdisciplinar
desse leque, para que o nome estudos
africanos tenha sentido em sua existência, por isso nos diz que essas
disciplinas se interrelacionam e são interdependentes, que se solidarizam entre
si.
O autor fala de seu local de filósofo e demonstra qual
crítica teceu a respeito dos estudos de filosofia africanos ao longo dos anos,
mostrando que o que se produzia não era filosofia e sim etnofilosofia, uma
reconstituição da mundivisão antepassada e dos pressupostos coletivos de
comunidades. O autor coloca esse fato como motivado pela visão historicamente
consolidada de que apenas alguém de fora poderia realizar a análise completa,
sistemática, daquilo que foi produzido de maneira não “autoconsciente” pelos
africanos. O autor busca, por meio dessa crítica, questionar a necessidade de
um distanciamento entre pesquisador e objeto, necessidade esta que se encontra
na base do pensamento científico ocidental, além de buscar situar o termo filosofia africana como sendo
simplesmente a filosofia produzida por africanos e não uma visão de mundo
compartilhada por todos os africanos, colocando o pensamento e cultura
africanas como pensamentos vivos, capazes de se transformar.
Para Hountondji, a ideia da produção massiva da descrição
de mundivisão tem a ver com as ideias colonialistas, de um conhecimento
produzido para facilitar a dominação de um povo, e é daí que surge a
necessidade da construção de um tipo comum, da construção da unanimidade, por
isso realiza críticas incisivas a esse tipo de produção.
É por pensar na filosofia africana
enquanto organismo vivo que o autor estabelece uma distinção entre africanos e
africanistas, a distinção estabelecida tornou possível observar quais eram as
tensões, contradições internas e debates que existem nesse campo, mostrando que
não existe, em África, uma unanimidade dos pensamentos e colocando em choque
uma ideia de etnofilosofia.
A ideia de uma não unanimidade do
pensamento africano era vista como perigosa e é por isso que o autor define
essa não unanimidade como pluralismo,
contrapondo a ilusão unânime que se
busca fomentar ao estudar África, o autor coloca esse pluralismo como fator de
progresso para a produção de conhecimento africana.
A proposta do autor é que se construa na África uma
tradição de pensamento similar à Alemã, proposta por Humboldt, que se pauta em
um debate interno, endógino, que cresce dentro de si por meio do diálogo entre
pares, é dessa forma que propõe uma investigação científica autônoma, definida
não pelo ocidente e nem para o ocidente, mas pelas necessidades e vontades
africanas. Essa tradição de conhecimento se daria em torno de dois pilares: a
apropriação do conhecimento disponível e a reapropriação do próprio
conhecimento, focando na produção e transformação do conhecimento africano.
O autor, ao propor a criação de uma
agenda africana, motivada pelos interesses, vontades e necessidades africanos,
cujos debates são realizados de maneira endógina e cujo conteúdo vindo do
ocidente é apropriado a partir da
bagagem africana, quebra com uma lógica do reconhecimento, o que interessa não
é se mostrar legítimo e capaz para o outro e sim usar sua capacidade para si
mesmo, não é construir um panorama para que o outro estude e sim produzir,
revisar para si o conhecimento que já foi produzido, é nesse sentido que
Hountondji retoma ideias panafricanas e trabalha a africanidade de uma maneira
não essencialista ou reducionista.
quarta-feira, 5 de outubro de 2016
Exclusão
Artistas
Mesmo os mais medíocres
Produtores de pastiches
Genéricos em sua alma
Continuam artistas
E artistas sendo
Gozam da genialidade que
Só aos artistas cabe
Das visões que
Só aos artistas pertencem
Eu, por não ser artista
Preciso me tornar mil vezes mais genial
Para fazer ser vista a arte da minha concretude
Mesmo os mais medíocres
Produtores de pastiches
Genéricos em sua alma
Continuam artistas
E artistas sendo
Gozam da genialidade que
Só aos artistas cabe
Das visões que
Só aos artistas pertencem
Eu, por não ser artista
Preciso me tornar mil vezes mais genial
Para fazer ser vista a arte da minha concretude
quinta-feira, 22 de setembro de 2016
Lendo Casa-Grande & Senzala: o quarto capítulo
O escravo negro na vida sexual e de família do brasileiro
Logo no começo do capítulo, na página 367, podemos
perceber que o texto é feito de e para brancos (eu arrisco dizer que mais do
que brancos, para a parcela específica da branquitude que fez parte da classe
senhorial): “Na ternura, na mímica excessiva, no catolicismo em que se deliciam
nossos sentidos, na música, no andar, na fala, no canto de ninar menino
pequeno, em tudo que é epressão sincera de vida, trazemos quase todos a marca
da influência negra. Da escrava que nos embalou. Que nos deu de mamar. Que nos
deu de comer, ela própria amolengando na mão o bolão de comida. Da negra velha
que nos contou as primeiras histórias de bicho e de mal-assombrado. Da mulata
que nos tirou o primeiro bicho-de-pé de uma coceira tão boa. Da que nos iniciou
no amor físico e nos transmitiu, ao ranger da cama-de-vento, a primeira
sensação completa de homem. Do moleque que foi o nosso primeiro companheiro de
brinquedo.”
O primeiro ponto defendido é o de que todos no Brasil tem
um pouco de índio e de negro dentro de si, seja cultural ou biologicamente
(tudo como reforço da harmonia defendida ao longo de todo o texto).
O autor coloca o desejo do homem branco pela mulher negra
no território brasileiro como estimulado pela cultura de amas-de-leite, nesse
ponto eu senti uma análise muito biológica para um fenômeno social que muito
tem a ver com estruturas de poder e de exploração.
Outro ponto defendido é o de que o negro é superior ao
índio, contrariando a visão que estava em voga na época, alguns aspectos da
cultura negra são também colocado como superiores aos portugueses, sempre
recorrendo a estereótipos como o do negro feliz e enérgico, procurando usar as
diferenças biológicas para falar de uma superioridade física – estereótipos e
uma suposta superioridade que serviram como justificativa para a escravidão
negra e para a exploração da população negra de forma geral, para além da
escravidão.
Podemos perceber, durante o texto, como o discurso da
pscicologia era atrelado a um discurso de formulação de tipos nacionais e
raciais – abordagem chamada de “tipo ideal”, ou “tipos psicológicos.
Muito se fala, durante o capítulo, sobre a questão da
alimentação, sobre como o português em seu projeto de colonização esteve aberto
às mudanças, aberto à novas tecnologias, dentre elas as tecnologias
alimentícias, o que acabou fazendo com que uma boa parte da alimentação
africana fosse transplantada para o Brasil. O que Freyre faz, ao nos entregar
essas informações, foi pensar no impacto dessa transplantação na vida daqueles
que foram traficados para o país, se você é transferido para um novo
território, os impactos desse novo estilo de vida se amenizam se a sua
alimentação não é tão modificada.
Como nos outros capítulos, é grande a amostragem de um
panorama científico da época, acho que é esse o aspecto mais rico desse livro,
a sua grande pesquisa bibliográfica e a capacidade de reunir conhecimentos de
diversas áreas em uma mesma pesquisa, se fala de frenologia, de biologia, de
psicologia e psiquiatria, dos grandes debates dentro da medicina, da
sociologia, e dentro desse discurso nos são mostradas algumas teses sobre a
melanina. Recentemente descobri que as teses sobre a melanina não são somente
as vindas desse núcleo acadêmico racista, há conteúdos sobre o assunto dentro
do panafricanismo, e é urgente na minha vida a necessidade de estudar esse
movimento social, filosófico, histórico...
O trecho abaixo, localizado na página 378, nos mostra
muito desse pensamento racista que tinha de ser desmentido, temos um parágrafo
inteiro explicando o porquê de não ser o negro o tipo humano mais próximo ao do
macaco, se faz isso aproximando a raça branca do mesmo animal, e o mais
engraçado é pensar que as ofensas destinadas às populações negras não evoluíram
até o dia de hoje.
“Nem merece contradita séria a superstição de ser o
negro, pelos seus característicos somáticos, o tipo de raça mais próximo da
incerta forma ancestral do homem cuja anatomia se supõe semelhante à do
chimpanzé. Superstição em que se baseia muito do julgamento desfavorável que se
faz da capacidade mental do negro. Mas os lábios dos macacos são finos como na
raça branca e não como na preta – lembra a propósito o professor Boas. Entre as
raças humanas são os europeus e os australianos os mais peludos de corpo e não
os negros. De modo que a aproximação quase se reduziria às ventas mais chatas e
escancaradas no negro do que no branco.”
O texto mostra também a tendência das ciências em se
aprofundarem mais no estudo das áreas de cultura africanas, essa abordagem
significa um avanço, uma diminuição da aplicação de uma lente macroscópica
demais para se passar a observar as minúcias nas relações dentro do território
africano, porém, ao mesmo tempo em que vem desmistificar a homogeneidade com
que analisavam o papel do negro, vem, por meio do uso do arcabouço teórico da
época e tendo como referencial, como norte, as civilizações europeias,
classificar e hierarquizar as civilizações existentes dentro da África, sempre
relegando certos traços, tonalidades, tecnologias, valores morais etc. como
inferiores ao europeu.
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Uma
perspectiva transatlântica
“Aliás é curioso notar que até fins
do século XIX deu-se o repatriamento de haúças e nagôs libertos da Bahia para a
África; que geges libertos repatriados fundaram em Ardra uma cidade com o nome
de Porto Seguro. Tão íntimas chegaram a ser as relações da Bahia com cidades
africanas que chefes de casas comerciais de Salvador receberam distinções
honoríficas do governo de Daomé.” (página 395)
Durante a escola, apesar de se falar
sobre a escravidão, pouco se fala sobre as relações entre África e Brasil,
sobre qual era a relação dos traficados com sua terra natal, sobre quais eram
as trajetórias dos negros dentro desse período. Pensar nesses repatriados é
pensar, e isso é estimulado por Freyre, no negro além do escravo, nas vidas
negras para além da escravidão, por mais indissociável que seja, ao se falar da
introdução dos negros no Brasil. Pensar nas trajetórias que negros se
esforçaram para trilhar é entender que os escravizados não eram passivos, que
eram seres completos em uma condição de subordinados, nesse sentido o ensino
básico peca profundamente.
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Outra
face da miscigenação
“Roquette-Pinto foi encontrar
evidências, entre populações do Brasil Central, da ação europeizante de negros
quilombos. Escravo fugidos que propagariam entre os indígenas, antes de
qualquer missionário branco, a língua portuguesa e a religião católica.
Aquilombados na serra dos Pareci, os negros fugidos cruzaram com mulheres
roubadas aos indígenas.. Uma bandeira que os foi dispersar no século XVIII
encontrou ex-escravos dirigindo populações aquilombadas de cafuzos. Encontrou
grandes plantações. Criação de galinhas. Cultura de algodão. Fabrico de panos
grossos. E todos os caborés de maior idade verificaram os bandeirantes que
“sabiam alguma doutrina cristã que aprenderam com os negros [...] todos falavam
português com a mesma inteligência dos pretos, de quem aprenderam.””
O trecho acima me fez pensar em como
a academia estuda a relação entre as raças – e com raças quero dizer dos indígenas
e dos negros, pois acredito que a definição de raça se consolidou na definição
de quem é o ser e quem é o outro, uma alteridade – e o branco – branco esse que
representa o todo, o padrão, mas pouco se fala na relação dessas raças entre
si. Acredito que isso se dá, pensando que nossas vivências, nossas histórias,
são as principais forças que nos levam a estudar algum assunto, pelo fato de
que os ambientes de pesquisa são dominados pela branquitude, branquitude esta
que, mesmo quando se debruçando para entender o outro, está na verdade
estudando sobre si mesma. Pensar nesse aspecto não europeu da miscigenação,
nessas relações não pautadas diretamente no elemento branco, embora geradas por
esse elemento, é algo que pouco se faz (ou que pouco se divulga) e que pouco se
estimula. Se a vivência de africanos foi, no território brasileiro, unida pela
experiência da escravidão, como se uniram as vivências de africanos e indígenas
sob a ordem colonial, a estrutura escravocrata de uma sociedade dominada por
europeus que condenaram como propriedade ou obstáculo tudo aquilo que deles se distinguia?
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A
consolidação de um padrão estético e moral
Um dos fenômenos gerados pela escravidão foi o de uma
sociedade dividida pela cor, de uma maneira nunca antes vista no mundo, a
profunda divisão, embora tenha se dado por motivos econômicos, passou a ter
sérios embasamentos ideológicos, e dentro desses embasamentos se encontra a
criação de um restrito padrão moral e estético, que perpassa todas as esferas
da vida social.
Uma das teorias embasadoras do capítulo é a de que o
Brasil recebeu o melhor estoque africano, um estoque muito superior ao dos
norte-americanos, essa tese é baseada nos índices de desenvolvimento das
sociedades africanas que foram traficadas para cá e também no fenótipo – quanto
menos negróide, mais superior – por isso a grande valorização dos negros de
cultura maometana, de traços mais próximos aos traços árabes, de cabelos menos
crespos, de peles mais claras. Essa tese, no entanto, vem para desconstruir a
ideia de que houve um exclusivismo banto na escravidão brasileira, algo que
pode ser contestado apenas observando como o catolicismo foi influenciado pela
cultura maometana em sua ritualística nos locais com grande porcentagem de
população negra.
“Os característicos físicos dos
negros importados para o Brasil, é interessante segui-los através da linguagem
pitoresca do povo, nos anúncios de compra e venda de escravos para o serviço
doméstico ou agrícola. Nesse sentido a coleção do Diário de Pernambuco – o
diário mais antigo da América chamada Latina, fundado em 1825 – apresenta-se
com particular interesse para o estudante de antropologia. Vê-se através dos
velhos anúncios de 1825, 1830, 35, 40, 50, a definida preferência pelos negros
e negras altas e de formas atraentes – “bonitas de cara e de corpo” e “com
todos os dentes da frente”. O que mostra ter havido seleção eugênica e estética
de pagens, mucamas e molecas para o serviço doméstico – as negras mais em
contato com os brancos das casas-grandes; as mães dos mulatinhos criados em
casa – muitos deles futuros doutores, bacharéis e até padres.” Nesse trecho, da página 396, podemos
observar como a cultura escravocrata se preocupou em realizar uma seleção
estética dos seus serviços, podemos observar também como esse padrão estético
estabelecido pela classe dominante serviu para causar especificidades e
desigualdades nas explorações sofridas pelo povo negro. Sendo o serviço doméstico
o serviço menos penoso dentro da ordem escravocrata – por menos penoso quero
dizer aquele cuja expectativa de vida era mais alta – a seleção daqueles que
viveriam nesse contexto era baseada nos critérios definidos por esse padrão. Essa
seleção servia como forma de estabelecer divisões entre os negros e de garantir
uma manutenção não só estética, mas também moral, já que os negros selecionados
para conviver dentro do espaço doméstico eram aqueles mais distantes de
religiões de origem africana, ou aqueles que eram de cultura mais maometana do
que de outras áreas de cultura do continente africano.
Também no campo da linguagem se deu
uma seleção do correto e do errado. Ao mesmo tempo em que a língua portuguesa
foi uma ferramenta de coerção e controle das populações africanas, ela absorveu
muitas palavras, expressões e a forma falada de algumas línguas africanas. A
forma que se criou de frear essa influência foi definindo toda essa linguagem
como incorreta e fruto de burrice, ignorância de mau gosto, falta de
refinamento, como pode-se observar no trecho abaixo, retirado da página 415.
Acredito que o mesmo fenômeno ainda se manifesta na sociedade atual, quando se
classifica como incorreta a linguagem falada nas periferias.
“Embora tenha fracassado o esforço
dos jesuítas, contribuiu entretanto para a disparidade, a que já aludimos,
entre a língua escrita e a falada do Brasil: a escrita recusando-se, com
escrúpulos de donzelona, ao mais leve contato com a falada; com a do povo; com
a de uso corrente.”
Na área das artes, pensando no
conceito de arte com o qual temos contato como algo específico do ocidente, no
qual os artistas tem papel definido, o papel do gênio, da excelência, essa
formação de um circuito de pessoas que definem o que é boa arte e o que não é,
uma arte que saiu da esfera daquilo que serve para a socialização das pessoas e
hoje em dia serve como um fortalecimento de um individualismo, foi o
eurocentrismo que classificou tudo aquilo que tinha origem em outros pontos
como inferior, se convencionou a arte europeia como o verdadeiro conceito de
arte e o que vem de fora como uma deturpação, um desvio desse conceito.
“Acima das convenções: em uma esfera mais pura, onde
realmente se confrontassem valores e qualidades. Por longo tempo, a grande e
forte beleza da arte de escultura, por exemplo, foi considerada pelos europeus
simples grotesquerie. E simplesmente por chocarem-se suas linhas, sua
expressão, seu exagero artístico de proporções e de relações, com a escultura
convencional da Europa Greco-romana. Esse estreito critério ameaçou de sufocar,
no Brasil, as primeiras expressões artísticas de espontaneidade e de força
criadora que, revelando-se principalmente nos mestiços, de mãe ou avó escrava,
trouxeram à tona valores e cânones antieuropeus. Quase por milagre restam-nos
hoje certas obras do Aleijadinho. Requintados no gosto europeu de arte ou na
ortodoxia católica, várias vezes pediram a destruição de “figuras que mais
pareciam fetiches”.” (pág. 379)
No campo da religião, certas coisas
me chamaram a atenção: na América Portuguesa ocorreram mais esforços para a
catolicização negra, a catequese funcionou como uma ação moralizante, de onde
derivaram cultos católicos negros muito expressivos, que são colocados como
permitidos e estimulados pela ala clerical da época, como uma forma de
apaziguar possíveis conflitos, pensar nesses cultos dentro de uma lógica onde
há ao mesmo tempo aculturação e resistência é algo que me interessa muito; se
por um lado se tenta trazer o negro para essas crenças e ritos católicos, por
outro lado, é citado um fenômeno interessante, os portugueses tentam jogar na
conta africana e indígena aqueles aspectos de sua própria religiosidade não
condizentes com o cristianismo:
“A frequência da feitiçaria e da
magia sexual entre nós é outro traço que passa por ser de origem exclusivamente
africana. Entretanto, o primeiro volume de documentos relativos às atividades
do Santo Ofício no Brasil registra vários casos de bruxas portuguesas. Suas
práticas podem ter recebido influência africana: em essência, porém, foram
expressões do satanismo europeu que ainda hoje se encontra entre nós, misturado
a feitiçaria africana ou indígena. Antônia Fernandes, de alcunha Nóbrega,
dizia-se aliada do Diabo: a consultas, quem respondia por ela era “certa cousa
que falava, guardada num vidro.” Magia medieval do mais puro sabor europeu.
Outra portuguesa, Isabel Rodrigues, ou Boca-Torta, fornecia pós miríficos e
ensinava orações fortes. A mais célebre de todas, Maria Gonçalvez, de alcunha
Arde-lhe-o-Rabo, ostentava as maiores intimidades com o Diabo. Enterrando e
desenterrando botijas, os bruxedos de Arde-lhe-o-Rabo ligavam-se quase todos a
problemas de impotência e esterilidade. A clientela dessas feiticeiras
coloniais parece que era quase exclusivamente de amorosos, infelizes ou
insaciáveis.” (pág. 406)
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Uma
ordem corruptora
O argumento que permeia todo
o capítulo é o de que a ordem escravocrata agia como corruptora dos seres
humanos nela inseridos das mais variadas formas, no campo moral, sexual, nas
relações familiares, nas relações travadas entre negros e brancos. O capítulo é
concluído com o seguinte trecho, localizado na página 462, o autor avança em
muitos sentidos, porém não nomeia claramente agentes dominadores.
“Na realidade, nem o branco nem o
negro agiram por si, muito menos como raça, ou sob a ação preponderante do
clima, nas relações do sexo e de classe que se desenvolveram entre senhores e
escravos no Brasil. Exprimiu-se nessas relações o espírito do sistema econômico
que nos dividiu, como um deus poderoso, em senhores e escravos. Dele se deriva
toda a exagerada tendência para o sadismo característica do brasileiro, nascido
e criado em casa-grande, principalmente em engenho; e a que insistentemente
temos aludido neste ensaio.”
Tratando dos campos em que a corrupção atua, destaquei
alguns trechos ilustrativos, o primeiro, localizado na página 452, trata da
ação das estruturas sociais na formação mental de uma criança, falando das
relações que se travam entre os dois lados dessa sociedade cindida desde a mais
tenra idade:
“O
menino do tempo da escravidão parece que descontava os sofrimentos da primeira
infância – doenças, castigos por mijar na cama, purgante uma vez por mês –
tornando-se dos cinco aos dez anos verdadeiro menino-diabo. Seus jogos e
brincadeiras acusam nele, como já observamos, tendências acremente sadistas. E
não era só o menino de engenho, que em geral brincava de bolear carro, de matar
passarinho e de judiar com moleque: também o das cidades.”
Na esfera sexual, destaco o trecho
localizado na página 404, trecho em que o autor desmistifica a tese
academicamente aceita na época, que ainda se expressa no nosso cotidiano e
influencia muito a vida das mulheres negras, a tese da negra fogosa. O autor
coloca a luxúria e promiscuidade como inerentes a uma ordem escravocrata, alegando
que isso não é fruto da introdução do negro, que seria lascivo e teria mais
apetite sexual do que os brancos, no território e sim fruto de uma ordem social
que estimula a procriação feminina e o domínio sexual do homem branco sobre o
maior número possível de mulheres, o qual ocorre principalmente sobre as
mulheres negras, pois são as mais estruturalmente oprimidas dentro dessa
sociedade. Para comprovar essa ordem corruptora o autor utiliza duas
ferramentas: a comparação e a contraposição. Como semelhante a esse fenômeno no
Brasil, o autor usa dados sobre o modo como se dão as relações sexuais no sul
dos EUA, local também sob a ordem escravocrata e como contraposição usa o
sertão, local que sofre mais indiretamente as influências do escravismo. Algo
que o autor não diz mas que se pode inferir a partir da leitura é que a questão
não é sexo, é poder.
“[...] na divisão da sociedade em
senhores todo poderosos e em escravos passivos é que se devem procurar as
causas principais do abuso de negros por brancos, através de formas sadistas de
amor que tanto se acentuaram entre nós; e em geral atribuídas à luxúria
africana.” (pág. 404)
Na página 421 há um trecho que trata
das relações entre mulheres brancas e mulheres negras, falando de um sadismo
acentuado proveniente das mulheres brancas, que mistura competição feminina e
algo similar à síndrome do pequeno poder, é importante pensar nessas relações
ao se pensar como organizar o movimento de mulheres na atualidade:
“Quanto à maior crueldade das senhoras que dos senhores
no tratamento dos escravos é fato geralmente observado nas sociedades
escravocratas. Confirmam-no os nossos cronistas. Os viajantes, o folclore, a
tradição oral. Não são dois nem três, porém muitos os casos de crueldade de
senhoras de engenho contra escravos inermes. Sinhá-moças que mandavam arrancar
os olhos de mucamas bonitas e trazê-los à presença do marido, à hora da
sobremesa, dentro da compoteira de doce e boiando em sangue ainda fresco.
Baronesas já de idade que por ciúme ou despeito mandavam vender mulatinhas de
quinze anos a velhos libertinos. Outras que espatifavam a salto de botina
dentaduras de escravas; ou mandavam-lhes cortar os peitos, arrancar as unhas,
queimar a cara ou as orelhas. Toda uma série de judiarias.
O motivo, quase sempre, o ciúme do
marido. O rancor sexual. A rivalidade de mulher com mulher.”
O autor fala sobre um sadismo
BRASILEIRO, o que me faz pensar: quem o autor vê como brasileiro? Para quem o autor escreveu esse livro?
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Relações
de gênero na ordem escravocrata
Ao tratar da mulher negra o autor
fala do que leva os senhores a se relacionarem com ela, que é a visão da mulher
negra como propriedade (que também há, porém de forma mais sutil, em relação às
suas companheiras brancas, é outra lógica que vigora nessas relações) e um
sadismo que forma a moral da classe dominante dentre dessa estrutura.
A prostituição é colocada como papel
em que a mulher é colocada por seus senhores ou como única ocupação que essa
mulher consegue para livrá-la do papel de escrava, pois geraria um pecúlio
próprio.
Essas duas formas com que o homem branco se relaciona
sexualmente com as mulheres negras levariam a uma sifilização dessa população,
momento em que o autor desmistifica a lenda de que foi o africano que sifilizou
o Brasil, colocando o papel da mulher negra dentro desse panorama como sim um
fator que trabalhou para espalhar essa doença, mas que não tem responsabilidade
nesse fenômeno.
É ao tratar da sifilização que o autor introduz a questão
da cultura das amas-de-leite, afirmando que essa cultura foi responsável por
transmitir a sífilis para as crianças. Ao tratar da amamentação o autor levanta
diversas questões: a relação de afeto entre as amas e os nhonhôs, as razões que
levaram essa cultura a ser padrão no país. Na relação de afeto o autor em
nenhum momento fala de como esse carinho era em si um tipo de exploração e
também não fala de como o afeto é usado como apaziguador de conflitos. Para
falar da primazia que essa cultura adquiriu o autor muitas vezes trabalha com
justificativas biológicas, que não sei até que ponto são válidas, mas que mostram
muito sobre a realidade da mulher branca no território brasileiro.
Tratando-se da família patriarcal o autor fala da
discrepância de idade dos casamentos, pontuando como as meninas se casavam
ainda na adolescência e como começavam cedo a procriar, procriação essa que
acontecia todos os anos, acabando com a saúde das mulheres e tornando fato
padrão maridos viúvos de uma ou duas esposas.
quarta-feira, 7 de setembro de 2016
Quilombo e periferia: territórios negros e suas semelhanças. Reflexões sobre a minha experiência no quilombo do Bracuí
Ao longo das décadas, o conceito de quilombo foi palco de muitas disputas, essas disputas trazem em si diversos interesses políticos e têm na academia e no âmbito jurídico seus principais alicerces. Se de um lado temos a visão mais clássica e já antiquada, que enquadra os quilombos estritamente como terras de escravos fugidos, de outro lado temos uma visão mais plural, uma visão que define quilombos como territórios negros gerados por diversas circunstâncias, e é esse o caso do Bracuí, um território abandonado por seus donos e doado para aqueles que nele moravam.
A primeira definição citada no parágrafo acima traz consigo os interesses de uma burocracia cuja vontade de ceder terras que contrapõem a lógica individualista do mercado, por se tratarem de terras coletivas e que saem da rota da especulação imobiliária pela proibição se sua compartimentação e venda, traz consigo também um rigor conceitual pouco aplicável a realidade da formação da sociedade negra brasileira e uma idealização na abordagem daquilo que seria considerado resistência, restringindo muito o papel das populações negras brasileiras e pouco mostrando as diversas formas de luta, de organização e de agência histórica por elas exercidas ao longo do tempo.
As visões mais plurais buscam alargar a definição para mostrar que culturas negras “menos colonizadas” e que espaços de resistência sempre existiram em diversos moldes e que comunidades tradicionais vão muito além do que se imagina o senso comum, que povos quilombolas não pararam no tempo e que muitas vezes estão integrados nas comunidades que existem ao seu redor. A partir dessas visões, muito mais comunidades passam a se reconhecer como quilombolas, tendo seus processos de formação relacionados a uma visão mais ampla do que foi a colonização e do que foi a escravidão, estendendo tais fenômenos históricos a um passado muito mais recente, que consegue chegar até o período final do século XX.
Mesmo tendo acontecido a sua formação de modos completamente diferentes, o distanciamento entre o Quilombo do Bracuí e o centro o interliga com outros bairros de periferia, tanto do Rio de Janeiro, quanto de São Paulo. Se no século XX as periferias foram se formando pelo proposital distanciamento de comunidades negras dos centros das cidades, em um projeto higienista, o quilombo do Bracuí nasceu sendo periférico, sua localização distante da cidade é o que fez com que a fazenda de tráfico ilegal pudesse funcionar o tempo que funcionou. Mesmo assim, podemos perceber muitas semelhanças entre esse território e outros territórios periféricos, semelhanças essas que fazem com que as circunstâncias formadoras dessas comunidades sejam pouco importantes.
A mistura do brega com o funk, a coexistência entre bares e paredões de carros com altíssimas caixas de som mostra um cenário muito parecido com qualquer periferia do Brasil. A expansão das cidades faz também com que o Quilombo do Bracuí, ainda em processo de titulação, seja acometido por uma lógica perversa de descaracterização de sua comunidade, o encarecimento do centros urbanos faz com que cada dia mais pessoas migrem para locais mais afastados, seja por motivos financeiros, seja por procurarem um estilo de vida mais pacífico e uma qualidade de vida maior.
Sendo localizado em uma região muito propícia para hotéis e resorts por sua proximidade com a linda baía de Angra dos Reis e com um rio, cachoeira e pequenas quedas d’água, a especulação imobiliária avança cada dia mais para dentro do quilombo. Junto com a especulação, há uma descaracterização da paisagem, fazendo com que numa mesma rua existam casas gigantes com portões intimidadores, fruto dessa venda de lotes cada vez mais frequente e as casas com quintal de mato, com portões baixos, que são características de uma vida mais comunitária e de uma populações mais integrada, essas casas são a figura mais clara do elemento externo adentrando a comunidade. Há também uma maior introdução do elemento branco nessa comunidade, digo maior introdução porque, na sua formação, o Bracuí possuía uma parte significante de população branca, já que parte dos pescadores e comerciantes da região não eram negros. Essa maior introdução de uma população branca e vinda de outras partes da cidade, do estado, do país, portadora de outras trajetórias, pode acabar descaracterizando o Bracuí enquanto comunidade quilombola, pois, conforme essas outras pessoas vão entrando, seus habitantes, que venderam os lotes, vão saindo.
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Há algum tempo entrei em contato com alguns textos, algumas narrativas, que causaram em mim um impacto muito grande, me fizeram perceber que a minha existência não é acidental, que eu sou fruto de diversos processos históricos e não nasci e cresci na Casa Verde por acaso. Me entender como parte ativa de uma história, que tenho um compromisso com aqueles que vieram antes de mim, conseguir ligar a minha existência a períodos mais remotos da história da minha cidade, do país em que eu estou, me fez me sentir menos solta no mundo, fez com que eu entendesse demais muitas coisas, a história de muitas das pessoas que me rodeiam e que me rodearam ao longo dos meus recém-completos dezenove anos. Me descobrir fruto de tantas histórias fez com que eu me sentisse mais parte de muitas coisas, e esse texto foi produzido nesse momento de me entender como integrante de algo maior do que eu, o texto não é sobre mim, mas é TAMBÉM sobre mim. Enfim, vou deixar aqui embaixo textos que se relacionam ao que estou falando.
domingo, 4 de setembro de 2016
Lendo Casa-grande & Senzala: o terceiro capítulo
O
colonizador português: antecedentes e predisposições
Me saltou a vista o tom que o autor usa ao longo de todo
o capítulo quando descreve o colonizador português, um tom de grandeza e
admiração. O foco do texto é a formação híbrida da sociedade portuguesa,
alegando que a escravização dos mouros foi o que os preparou para a experiência
escravista na América, mostrando também que, por meio de sua mão-de-obra, a
tecnologia moura influenciou muito Portugal e que como conseqüência a cultura
moura influenciou e adentrou na vida brasileira..
O português é mostrado como o menos cruel dos
escravistas, pois, diferentemente dos outros, ele se deforma ao entrar em
contato com novas raças e, ao invés de se afastar, de sentir repulsa, ele
confraterniza com elas.
“Engana-se, ao
nosso ver, quem supõe ter o português se corrompido na colonização da África,
da Índia e do Brasil. Quando ele projetou por dois terços do mundo sua grande
sombra de escravocratas, já suas fontes de vida e saúde econômica se achavam
comprometidas. Seria ele o corruptor e não a vítima.”
Coloca a escravidão e o escravo negro como absolutamente
necessários para a sobrevivência da hegemonia portuguesa em um cenário mundial.
Muitas coisas da minha leitura se perderam porque demorei
para fichar e para desenvolver meus pensamentos, já me esqueci de quase todas
as teses defendidas no capítulo, sei que tinha algo sobre parasitismo judeu,
alguma coisa a respeito do conflito entre jesuítas e senhores de terras, sobre
como foi resolvido, enfim, o que me sobrou foram as análises da sexualidade
portuguesa e posteriormente da brasileira, na verdade nem isso, apenas achei
interessante como o autor analisa a religião católica no Brasil na página 326:
“Os grandes santos nacionais tornaram-se
aqueles a quem a imaginação do povo achou de atribuir milagrosa intervenção em
aproximar os sexos, em fecundar as mulheres, em proteger a maternidade: Santo
Antônio, São João, São Gonçalo do Amarante, São Pedro, o Menino Deus, Nossa
Senhora do Ó, da Boa Hora, da Conceição, do Bom Sucesso, do Bom Parto. Nem os
santos guerreiros como São Jorge, nem os protetores das populações contra a
peste como São Sebastião ou contra a fome como Santo Onofre – santos cuja
popularidade corresponde a experiência dolorosamente portuguesas – elevaram-se
nunca a importância ou ao prestígio de outros patronos do amor humano e da
fecundidade agrícola.”
Uma
religião voltada para a procriação tem muito a ver com um projeto colonizador
que depende do aumento da população de um território.
Lendo casa-grande e senzala: o segundo capítulo
Segundo capítulo: O indígena
na formação da família brasileira
Freyre caracteriza os índios do
território brasileiro como “crianças grandes”, em um discurso que os compara,
compara em termos de evolução, com os maias, incas e astecas, e coloca esse
como o fator de não se ter estabelecido no país uma política de extermínio,
preciso me aprofundar mais nessa questão indígena, pois o que sei sobre a
América Latina indica que no México os locais com resistência mais efetiva à
colonização foram onde as populações não eram tão hierarquizadas ou organizadas
em estruturas próximas de um reinado, enquanto os “grandes impérios” decaíram
mais facilmente. Ainda no mesmo discurso evolucionista, o autor coloca a
cultura indígena como inferior à africana.
Pelo intermédio da mulher indígena
se adotaram muitos costumes na vida brasileira: banho, higiene, comida, cuidado
com crianças, remédios. Coloca a sexualidade da mulher indígena como maior que
a do homem indígena e coloca esse fato como um dos grandes responsáveis pela
miscigenação, apontando a miscigenação como um processo quase que voluntário,
vindo de uma atração mútua entre homens portugueses e mulheres indígenas.
Fala das relações de parentesco mas
de um jeito superficial, preciso estudar isso, o máximo que já vi a respeito
foi um documentário sobre os estudos de Levi Strauss, porém o foco estava no
estruturalismo e na sua semelhança com as ciências lingüísticas, sobre a busca
de um átomo formador da língua (fonética) e de um átomo formador do parentesco
(aí se aprofundava um pouco no avunculado, mas sem nenhuma síntese).
Algumas páginas se dedicam ao papel
do vermelho na vida indígena e como esse papel penetrou na sociedade brasileira
de forma geral. Achei interessante, pois mostra como a cor tinha um papel de
proteção física (protegia a pele do sol e da picada de alguns bichos) e
proteção espiritual, protegendo a alma dos maus espíritos (o autor vai traçar
então um panorama do uso do vermelho em diferentes tribos e mostrar as
infiltrações desse uso nas famílias das casas-grandes).
Finalmente fala de imperialismo e destruição de cultura, citando
Pitt-Rivers, um importante teórico do campo da cultura material, que enxergava
as coisas por um viés evolucionista, o trecho, localizado na página 177, é o
seguinte:
“Considerando nesse ensaio o choque das duas culturas, a
europeia e a ameríndia, do ponto de vista da formação social da família
brasileira – em que predominaria a moral europeia e católica – não nos
esqueçamos, entretanto, de atentar no que foi para o indígena, e do ponto de
vista de sua cultura, o contato com o europeu. Contato dissolvente. Entre as
populações nativas da América, dominadas pelo colono ou pelo missionário, a
degradação moral foi completa, como sempre acontece ao juntar-se uma cultura,
já adiantada, com outra atrasada.
Sob a pressão moral e técnica da cultura adiantada,
esparrama-se a do povo atrasado. Perde o indígena a capacidade de
desenvolver-se autonomamente tanto quanto a de elevar-se de repente, por
imitação natural ou forçada, aos padrões que lhe propõe o imperialismo
colonizador. Mesmo que se salvem formas ou acessórios de cultura, perde-se o
que Pitt-Rivers considera o potencial, isto é, a capacidade construtora da
cultura, o seu elã, o seu ritmo.”
Pitt Rivers acreditava que a humanidade caminhava em
direção ao progresso e que culturas atrasadas, quando entravam em contato com
culturas adiantadas, adotavam os costumes da nova cultura. Ainda que a visão
apresentada seja ultrapassada, é o primeiro momento no texto em que sinto que o
autor não positiva o contato entre dominador e dominado, em que não tenta
procurar uma harmonia na forma em que se deram tais relações.
Na página 186 podemos encontrar
características das relações de gênero dentro do meio indígena:
“Entre os seus era a mulher índia o
principal valor econômico e técnico. Um pouco besta de carga e um pouco escrava
do homem. Mas superior a ele na capacidade de utilizar as coisas e de produzir
o necessário à vida e ao conforto comuns.
A poligamia não corresponde entre os
selvagens que a praticam – incluídos neste número os que povoavam o Brasil –
apenas ao desejo sexual, tão difícil de satisfazer no homem com a posse de uma
só mulher; corresponde também ao interesse econômico de cercar-se o caçador, o
pescador ou o guerreiro dos valores econômicos vivos, criadores, que as
mulheres representam.”
Não, não sei como analisar esse
trecho, então ele vai ficar aqui guardadinho pra algum momento no futuro. A
única coisa que consigo pensar é que poligamia nunca é sobre desejo sexual. Algumas
páginas são destinadas à homossexualidade/bissexualidade e sua importância na
dinâmica das tribos indígenas, a análise é completamente estranha, isso nos
momentos em que não é absurda, mas eu ainda não estudei o suficiente sobre o
assunto para conseguir criticar.
Uma parte que achei interessante foi
quando se comenta a facilidade dos povos indígenas em aceitar a tradição de
penitência católica, pois os rituais de iniciação e de cura indígenas também
eram baseados no flagelo, na purificação por meio da dor.
Em um trecho da página
213, o autor vai falar de alguns dos fenômenos sociais de insubordinação pelos
quais nosso país passou, caracterizando-os como um furor selvagem que muito
distava de um projeto político:
“Também são
freqüentes, entre nós, os relapsos no furor selvagem, ou primitivo, de
destruição, manifestando-se em assassinatos, saques, invasões de fazendas por
cangaceiros: raro aquele dos nosso movimentos políticos ou cívicos em que não
tenham ocorrido explosões desse furor recalcado ou comprimido em tempos
normais. Sílvio Romero chegou a criticar-nos pela ingenuidade com que “damos o
pomposo nome de revoluções liberais” a “assanhamentos desordeiros”. O caráter,
antes de choque de culturas desiquais, ou antagônicas, do que cívico ou
político, desses movimentos, parece não ter escapado ao arguto observador: “os
elementos selvagens ou bárbaros que repousam no fundo étnico de nossa
nacionalidade, vieram livremente à tona, alçaram o colo e prolongaam a anarquia
, a desordem espontânea”, escreve ele, referindo-se às balaiadas, sabinadas,
cabanadas, que têm agitado o Brasil. Poderia talvez estender-se a
caracterização aos mata-matamarinheiro, quebra-quilos, farrapos; quem sabe mesmo se atualizá-la,
aplicando-a a movimentos mais recentes, embora animados de um fervor ideológico
mais intenso do que aqueles? A revolução pernambucana de 1817 parece-nos
permanecer em nossa história política “a única digna desse nome”, da frase de
Oliveira Lima; é sem dúvida aquela que se revestiu menos do caráter de pura
desordem propícia ao saque, ou menos sofreu da deformação de fins políticos ou
ideológicos. Não que a consideremos exclusivamente política, sem raízes
econômicas; o que desejamos acentuar é que se processou de um modo diverso das
abriladas, com um programa e um estilo político definidos. Da vinagrada de
1836, no Pará, escreveu Sílvio Romero: “o elemento tapuio alçou o colo,
tripudiando sobre a vida e a propriedade alheia”.
Isto sem falarmos em movimentos francamente de revolta de
escravos, explosões ou de ódio de raça ou de classe social e economicamente
oprimida – a insurreição de negros em Minas, por exemplo. Ou como nos
terremotos de cultura: culturas oprimidas explodindo para não morrer sufocadas,
rompendo a crosta da dominante para respirar, como parece ter sido o movimento
de negros na Bahia m 1835. A cultura negra maometana contra a portuguesa
católica. Estes são movimentos à parte,
de um profundo sentido social, como à parte é o de Canudos – resultado da
diferenciação da cultura qe se operou entre o litoral e o sertão. Os relapsos
em furor selvagem observamo-los em movimentos de fins aparentemente políticos
ou cívicos, mas na verdade pretexto de regressão à cultura primitiva, recalcada
porém não destruída.”
O projeto jesuítico de colonização é mostrado de forma
pouco romantizada pelo autor, se coloca primeiramente como um projeto que se
preocupava com os indígenas mas que ao longo do tempo se tornou mais preocupado
com o mantimento de sua hegemonia dentro da igreja católica e com os lucros que
tirariam dessa hegemonia. As crianças eram usadas como instrumentos da
colonização, pois quando se ensina para crianças uma nova ordem moral, a
aceitação é maior, e assim eram as crianças o fator que policiava a moralidade
dentro do seio familiar, crianças essas que passaram a ser muito valorizadas
devido à alta taxa de mortalidade que lhes acometeu nesse período (período em
que se cunhou no território a visão de que crianças que morrem eram anjos
retomados pelos céus).
No trecho localizado na página 230 podemos encontrar um
reforço da tese de que o índio era preguiçoso, fraco e primitivo, enquanto o
africano era mais avançado, trabalhador e resistente, essa tese já não é mais
aceita dentro das ciências sociais, se trata de uma visão preconceituosa e de
um evolucionismo deveras simplificado. No entanto, achei interessante parar pra
pensar em como a sedentarização modificou o modo de vida indígena e em como se
amontoar muitos indígenas em assentamentos jesuítas acabou ajudando na
disseminação de epidemias.
“Se índios de tão
boa aparência de saúde fracassaram, uma vez incorporados ao sistema econômico
do colonizador é que foi para eles demasiado brusca a passagem do nomadismo à
sedentariedade; da atividade esporádica à contínua; é que neles se alterou
desastrosamente o metabolismo ao novo ritmo de vida econômica e de esforço
físico. Nem o tal inhame nem os tais frutos da terra bastariam agora à
alimentação do selvagem submetido ao trabalho escravo nas plantações de cana. O
resultado foi evidenciar-se o índio no labor agrícola o trabalhador banzeiro e
moleirão que teve de ser substituído pelo negro. Este, vindo de um estádio de
cultura superior ao do americano, corresponderia melhor às necessidades
brasileiras de intenso e contínuo esforço físico. Esforço agrícola, sedentário.
Mas era outro homem. Homem agrícola. Outro, seu regime de alimentação, que,
aliás, pouca alteração sofreria no Brasil, transplantadas para cá muitas das
plantas alimentares da África: o feijão, a banana, o quiabo, e transportados
das ilhas portuguesas do Atlântico para a colônia americana o boi, o carneiro,
a cabra, a cana-de-açúcar.”
Na página 231, podemos perceber claramente a visão do autor
de que o país é harmônico, de que a miscigenação gerou harmonia no país e de
que isso é muito positivo e deve ser comemorado, uma visão que tem muito
sentido quando vinda de um filho da casa-grande.
“A verdade é que
no Brasil, ao contrário do que se observa em outros países da América e da
África de recente colonização europeia, a cultura primitica – tanto a ameríndia
como a africana – não se vem isolando em bolões duros, secos, indigestos,
inassimiláveis; ao sistema social do europeu. Muito menos estratificando-se em
arcaísmos e curiosidades etnográficas. Faz-se sentir na presença viva, útil,
ativa, e não apenas pitoresca, de elementos com atuação criadora no desenvolvimento
nacional. Nem as relações sociais entre as duas raças, a conquistadora e a
indígena, aguçaram-se nunca na antiparia
ou no ódio cujo ranger, de tão adstringente, chega-nos aos ouvidos de todos os
países de colonização anglo-saxônica e protestante. Suavizou-as aqui o óleo
lúbrico da profunda miscigenação, quer a livre e danada, quer a regular e
cristã sob a benção dos padres e pelo incitamento da Igreja e do Estado.”
A última parte que me chamou a atenção foi a breve menção
do autor à couvade, termo que eu só entrei em contato anteriormente no prefácio
da Rose Marie Muraro para O Martelo das
Bruxas, que é inclusive um ótimo prefácio.
segunda-feira, 22 de agosto de 2016
Eu caminho pela cidade e é como se você estivesse impresso
em todos os cantos, esquinas.
Toda vez que passo por aquela rua me lembro da sensação de descer as escadinhas e ir, relutante, pra um bar desconhecido, aqueles últimos minutos da sua não existência, os últimos momentos em que contemplei um mundo que você não preenchia, em que não raciocinei com uma cabeça que sente saudades suas.
O ônibus passa por aquela praça em que estivemos tantas vezes e em cada canto eu vejo uma face sua: a cara de quem me avalia, sem me conhecer; a cara de quem não quer conversar, que me deixa insegura; a cara de quem me quer por perto sempre, de quem me admira; a cara de quem quer se afastar. Eu me vejo ali de tantas formas, me vejo tímida, com raiva, com medo, me vejo plena e realizada e também me vejo triste. E eu vejo a sua mão nas minhas costas, vejo o seu abraço, seu sorriso me surge com cada detalhe, eu enxergo seus dentes pequenos e separados, tão próximos do meu rosto, e me vem nas bochechas o calor do seu hálito de vinho barato, que se mistura com o cheiro do seu corpo e o cheiro da sua roupa lavada.
Eu vejo a gente descendo aquela rua e conversando sobre nada, e também vejo a gente naquela esquina, a esquina em que vou sempre, sentados na ponta da mesa, conversando até você me beijar, aquele beijo que a gente dá com vontade de rir, que tem gente em volta fazendo palhaçada. Eu vejo a gente conversando muito tempo depois, com vidas muito diferentes. Aí eu ando mais e te vejo naquele morro, que hoje não tem nada, mas já teve uma multidão da qual fazíamos parte.
E quando eu passo por aquela placa eu me vejo chorando enquanto te beijo, assim como me vejo te olhando alguns metros mais pra frente, te olhando enquanto você canta a música que eu sempre quis compartilhar com alguém.
Naquele largo eu vejo a gente sentado nas calçadas, eu me vejo tentando te entender e me vejo incomodada com você se fechando completamente.
E quando eu fecho o olho pra não te ver eu lembro de alguma coisa que esqueci de te contar, aí o impulso é de correr pra falar com você e, quando eu tento esquecer o impulso, tudo que eu consigo é te sentir rondando a minha cabeça.
No fim do dia eu estou na mesma catraca, esperando alguém que eu sei que não é você, mas o lugar faz meu corpo reagir como se você fosse chegar a qualquer momento.
Toda vez que passo por aquela rua me lembro da sensação de descer as escadinhas e ir, relutante, pra um bar desconhecido, aqueles últimos minutos da sua não existência, os últimos momentos em que contemplei um mundo que você não preenchia, em que não raciocinei com uma cabeça que sente saudades suas.
O ônibus passa por aquela praça em que estivemos tantas vezes e em cada canto eu vejo uma face sua: a cara de quem me avalia, sem me conhecer; a cara de quem não quer conversar, que me deixa insegura; a cara de quem me quer por perto sempre, de quem me admira; a cara de quem quer se afastar. Eu me vejo ali de tantas formas, me vejo tímida, com raiva, com medo, me vejo plena e realizada e também me vejo triste. E eu vejo a sua mão nas minhas costas, vejo o seu abraço, seu sorriso me surge com cada detalhe, eu enxergo seus dentes pequenos e separados, tão próximos do meu rosto, e me vem nas bochechas o calor do seu hálito de vinho barato, que se mistura com o cheiro do seu corpo e o cheiro da sua roupa lavada.
Eu vejo a gente descendo aquela rua e conversando sobre nada, e também vejo a gente naquela esquina, a esquina em que vou sempre, sentados na ponta da mesa, conversando até você me beijar, aquele beijo que a gente dá com vontade de rir, que tem gente em volta fazendo palhaçada. Eu vejo a gente conversando muito tempo depois, com vidas muito diferentes. Aí eu ando mais e te vejo naquele morro, que hoje não tem nada, mas já teve uma multidão da qual fazíamos parte.
E quando eu passo por aquela placa eu me vejo chorando enquanto te beijo, assim como me vejo te olhando alguns metros mais pra frente, te olhando enquanto você canta a música que eu sempre quis compartilhar com alguém.
Naquele largo eu vejo a gente sentado nas calçadas, eu me vejo tentando te entender e me vejo incomodada com você se fechando completamente.
E quando eu fecho o olho pra não te ver eu lembro de alguma coisa que esqueci de te contar, aí o impulso é de correr pra falar com você e, quando eu tento esquecer o impulso, tudo que eu consigo é te sentir rondando a minha cabeça.
No fim do dia eu estou na mesma catraca, esperando alguém que eu sei que não é você, mas o lugar faz meu corpo reagir como se você fosse chegar a qualquer momento.
terça-feira, 2 de agosto de 2016
vira-lata
um cachorro na rua
vira-lata de tudo, de corpo, de alma
vem um e dá pão, um leve afago
vem outro e dá carne, tapinha na cabeça
cachorro fecha o olho, arrebita o queixo
cachorro quer mais carinho
carinho não vem
chega um
vem cachorro, ele diz
cachorro segue, portão se abre
ali cachorro, pode deitar
cachorro ganha carinho, mas quer mais
cachorro fica no chão, mas quer colo, quer sofá
cachorro dorme, mas não dorme bem
medo de acordar na rua
medo de nunca o colo, nunca o sofá
vira-lata de tudo, de corpo, de alma
vem um e dá pão, um leve afago
vem outro e dá carne, tapinha na cabeça
cachorro fecha o olho, arrebita o queixo
cachorro quer mais carinho
carinho não vem
chega um
vem cachorro, ele diz
cachorro segue, portão se abre
ali cachorro, pode deitar
cachorro ganha carinho, mas quer mais
cachorro fica no chão, mas quer colo, quer sofá
cachorro dorme, mas não dorme bem
medo de acordar na rua
medo de nunca o colo, nunca o sofá
terça-feira, 19 de julho de 2016
esperando
todos os meus pensamentos têm ficado em segundo plano. nos últimos dias eu só consigo pensar nele, aí o coração acelera e me falta um pouco de ar.
agora, esperando, com tão pouca distância entre a gente, certas coisas não param de passar pela minha cabeça: como ele me enxerga? o que ele sente por mim? como vai ser encontrá-lo e matar as saudades? será que ele mudou muito? quanto vou sofrer com a nova despedida? quantas minas vou ter que ver ele pegando nos rolês? quando vou conseguir partir pra outras histórias? quando vão APARECER outras histórias?
porque, quando ele apareceu, meu coração já estava vazio tinha um tempo, e nada surgia na minha vida, então foi como um sopro de, sei lá, alegria, eu acho.
e fiquei pensando em como a vida era cruel em me apresentar alguém que nunca me pertenceria, quando eu sou exatamente o tipo de pessoa que precisa desse sentimento de posse.
e ele me deixa tão insegura que nesse momento eu estou nervosa e com medo de que ele me deixe esperando
(talvez esperando por ele pra sempre, isso é assustador demais, porque o que eu prevejo pra minha vida é exatamente isso: esperar por alguém que nunca chega.)
quarta-feira, 6 de julho de 2016
Lendo Casa-grande & senzala: o primeiro capítulo
Características gerais da colonização portuguesa do Brasil: formação de uma
sociedade agrária, escravocrata e híbrida
Vai ser feito um apanhado das características dessa
sociedade que tem uma formação de estrutura agrária, de técnica de exploração
econômica escravocrata e híbrida de índio, negro e português em sua composição.
A primeira tese apresentada é de que os portugueses
teriam uma predisposição para essa colonização híbrida, pois possuíam em sua
formação muito desse hibridismo e sempre foram uma nação sempre indecisa entre
Europa e África, caracterizando um “vago impreciso”, algo que não pertence a
nenhuma das duas realidades, atlântico e móvel por natureza e, assim,
realizadores de um domínio continental que tem valores e estruturas mais
flexíveis e adaptáveis.
A conseqüência foi a execução de um tipo de colonização
que, devido às suas predisposições, superou empecilhos como nenhuma outra, tendo
um caráter original e criador. É mostrado que a colonização da Argentina e dos
EUA, pelos espanhóis e ingleses, foi mais fácil, pois o clima desses
territórios em muito se assemelhavam ao clima europeu, coisa que não aconteceu
no Brasil.
O português colonizador foi o primeiro a realmente se
estabelecer em uma colônia, transportando seus cabedais para os trópicos, assim
como suas famílias, quando não eram essas formadas aqui mesmo – ou, o que autor
afirma ter sido comum, coexistiam duas famílias, a estrutura da colônia era
polígama, e eu vou falar sobre isso mais pra frente. Essa característica faz
com que a família se torne o fator colonizador do Brasil, a família se torna a
menor célula constituinte dessa sociedade.
É pontuado um aspecto da colonização que já tive contato
em outros textos: a tendência da colônia era a de se derramar – espalhar as
pessoas ao longo do território – e não de se adensar. Esse fato gera algumas
interpretações no debate historiográfico, alguns historiadores afirmam que foi
um modelo de colonização que gerou um despovoamento inicial na colônia, pois não
havia braços para tomarem todo aquele território, outros dizem que não, foi a
forma que se encontrou e dominar o espaço, senti que o autor fica no meio
termo, ele diz que primeiro se domina o território horizontalmente e depois em
sua profundidade e quantidade. Importante mencionar que a ferramenta de unidade
do projeto colonizador era a religião católica.
Retomando um pouco o conceito de lavoura parasita da
natureza vai se falar um pouco sobre os hábitos alimentares da colônia e é
mostrado que a dieta com a qual as pessoas viviam na época era tenebrosa: a
classe senhorial e os escravos viviam bem alimentados – no sentido de não
passavam fome e de tinham uma alimentação um pouco mais equilibrada que a dos
outros, mas não era uma boa alimentação – enquanto a população média, não
inserida na grande lavoura escravocrata, passava muita fome. A economia se
organizou ao redor da economia açucareira de tal forma que pouco se produziam
os itens básicos de sobrevivência, foi necessário regulamentar a produção de
alimentos para conseguir aliviar um pouco da escassez gerada pela monocultura –
e a situação persistiu até o século XVIII (aí se pontua também o costume que as
pessoas tinham de fazer jejuns religiosos, achei muito interessante). (e em São
Paulo essas questões eram mais equilibradas)
Um trecho, localizado na página 79, que achei que explica
bem essa questão da lavoura exploratória, que mais rouba do que gera, é esse
aqui:
“O colonizador português do Brasil foi o primeiro entre
os colonizadores modernos a deslocar a base da colonização tropical da pura
extração de riqueza mineral, vegetal ou animal – o ouro, a prata, a madeira, o
âmbar, o marfim – para a de criação local de riqueza. Ainda que riqueza – a
criada por eles sob a pressão das circunstâncias americanas – à custa do
trabalho escravo: tocada, portanto, daquela perversão de instinto econômico que
cedo desviou o português da atividade de produzir valores para a de
explorá-los.
Semelhante deslocamento, embora imperfeitamente
realizado, importou em uma nova fase e em um novo tipo de colonização: a
“colônia de plantação”, caracterizada pela base agrícola e pela permanência do
colono na terra, em vez do seu fortuito contato com o meio e com a gente nativa.
No Brasil iniciaram os portugueses a colonização em larga escala dos trópicos
por uma técnica econômica e por uma política social inteiramente novas: apenas
esboçadas nas ilhas subtropicais do Atlântico. A primeira: a utilização e o
desenvolvimento de riqueza vegetal pelo capital e pelo esforço do particular; a
agricultura; a sesmaria; a grande lavoura escravocrata. A segunda: o
aproveitamento da gente nativa, principalmente da mulher, não só como
instrumento de trabalho mas como elemento de formação da família. Semelhante
política foi bem diversa da de extermínio ou segregação seguida por largo tempo
no México e no Peru pelos espanhóis, exploradores de minas, e sempre e
desbragadamente na América do Norte pelos ingleses.
A sociedade colonial no Brasil, principalmente em
Pernambuco e no Recôncavo da Bahia, desenvolveu-se patriarcal e
aristocraticamente à sombra das grandes plantações de açúcar, não em grupos a
esmo e instáveis; em casas-grandes de taipa ou de pedra e cal, não em palhoças
de aventureiros. Observa Oliveira Martins que a população colonial no Brasil,
“especialmente ao norte, constituiu-se aristocraticamente, isto é, as casas de
Portugal enviaram ramos para o ultramar; desde todo o princípio a colônia
apresentou um aspecto diverso das turbulentas imigrações dos castelhanos na América
Central e Ocidental.”
A
questão sexual
O autor coloca a capacidade de se misturar com outras
raças por meio do sexo como uma das maneiras de driblar a sua falta de capital
humano, uma capacidade gerada por essa pré-disposição ao hibridismo, citando que
a preferência sexual do português é a mulher moura, ou de pele mais escura,
tendo encontrado nas índias a materialização de um fetiche prévio “tara étnica
inicial” e tendo, através das primeiras relações, sifilizado a população
nativa.
Sobre a mistura sexual e as relações existentes nesses
relacionamentos, temos esse trecho, localizado na página 113:
“O intercurso sexual entre o conquistador europeu e a
mulher índia não foi apenas perturbado pela sífilis e por doenças européias de
fácil contágio venéreo: verificou-se – o que depois se tornaria extensivo às
relações dos senhores com as escravas negras – em circunstâncias desfavoráveis
à mulher. Uma espécie de sadismo do branco e de masoquismo da índia ou da negra
terá predominado nas relações sexuais como nas sociais do europeu com as
mulheres das raças submetidas ao seu domínio. O furor femeeiro do português se
terá exercido sobre vítimas nem sempre confraternizantes no gozo; ainda que se saiba
de caos de pura confraternização do sadismo do conquistador branco com o
masoquismo da mulher indígena ou da negra. Isso quanto ao sadismo de homem para
mulher – não raro precedido pelo de senhor para moleque. Através da submissão
do moleque, seu companheiro de brinquedos e expressivamente chamado leva-pancadas, iniciou-se muitas vezes o
menino branco no amor físico.
Quase que do moleque leva-pancadas se pode dizer que
desempenhou entre as grandes famílias escravocratas do Brasil as mesmas funções
de paciente do senhor moço que na organização patrícia do Império Romano o
escravo púbere escolhido para companheiro do menino aristocrata: espécie de vitime,
ao mesmo tempo que camarada de brinquedos,, em que se exerciam os “premiers
élans génésiques” do filho-família.”
Então ao mesmo tempo em que fala de uma estrutura
desfavorável à mulher, Freyre coloca que alguns desses momento foram de pura
confraternização entre aquele que gosta de maltratar e aquele que gosta de ser
maltratado, veja bem, não estamos falando de pessoas com poderes equivalentes,
muito pelo contrário, estamos falando de casos em que aquele que é o sádico é
quem é sinônimo de poder e aquele que é o “masoquista” é aquilo que é sinônimo
ABSOLUTO de submissão. E aí é também apontada a construção social para o
mantimento do racismo enquanto, para além de um sistema de exploração, um
sistema moral e de ódio que garantia a própria existência dessa exploração –
essa parte dá pra relacionar com aquela cena de Memórias Póstumas, em que o
Brás brinca de cavalinho com o menino escravo e bate nele com chicotada, a
construção do sadismo desde a infância, um modo de incutir tais valores na
mente daqueles que serão a próxima geração da classe senhorial.
Na página 115 o autor faz uma análise mais geral da
sociedade escravocrata e pós-escravismo:
“Na verdade, o equilíbrio continua a ser entre as
realidades tradicionais e profundas: sadistas e masoquistas, senhores e escravos,
doutores e analfabetos, indivíduos de cultura predominantemente europeia e
outros de cultura principalmente africana e ameríndia. E não sem certas
vantagens, as de uma dualidade não de todo prejudicial à nossa cultura em
formação, enriquecida de um lado pela espontaneidade, pelo frescor de
imaginação e emoção do grande número e, de outro lado, pelo contato, através
das elites, com a ciência, com a técnica e com o pensamento adiantado da
Europa. Talvez em parte alguma se esteja verificando com igual liberalidade o
encontro, a intercomunicação e até a fusão harmoniosa de tradições diversas, ou
antes, antagônicas, de cultura, como no Brasil. É verdade que o vácuo entre os
dois extremos ainda é enorme; e deficiente a muitos respeitos a
intercomunicação entre duas tradições de cultura. Mas não se pode acusar de
rígido nem de falta de mobilidade vertical – como diria Sorokin – o regime
brasileiro, em vários sentidos sociais um dos mais democráticos, flexíveis e
plásticos.”
Ao mesmo tempo em que fala de equilíbrio, algumas páginas
antes no capítulo:
“Com relação ao Brasil, que o diga o ditado: “Branca para
casar, mulata para f..., negra para trabalhar”; ditado em que se sente ao lado
do convencionalismo social da superioridade da mulher branca e da inferioridade
da preta, a preferência sexual pela mulata.”
Como se coloca a
palavra “equilíbrio” para narrar uma realidade camuflada por essa miscigenação?
Não sinto a miscigenação como um diminuidor de desigualdades e sim como um
camuflador de estruturas de exploração onde o sexo é usado como dominação e
como forma de embranquecimento de gerações.
Fora isso, senti que, apesar de focar no social, muitos
dos estudos apresentados e endossados tem uma grande carga de abordagem
biológica. Concluindo, sinto que a obra traz um panorama muito bom do
pensamento científico da época, nas notas de rodapé é bem presente o debate
historiográfico em torno das questões abordadas.
segunda-feira, 4 de julho de 2016
Lendo Casa-grande & Senzala: o prefácio da primeira edição
É traçado um paralelo interessante
entre o Norte do Brasil e o Sul dos EUA: o autor segue o conceito de “lavoura
parasita da natureza” para falar do latifúndio escravocrata, achei o conceito
interessante pois contempla o fato de que, nesse tipo de propriedade, não
haviam ações que cuidavam da conservação da terra, sendo a agricultura mais uma
forma de degradar a natureza, quase que uma forma não renovável de obtenção de
energia.
Ao analisar a implantação da cana
como atividade econômica majoritária da colônia, o autor pontua que a
característica democrática do comércio no Brasil foi alterada, pois o comércio
de pau-brasil e de couro foram “mortos”, instaurando uma classe agricultora, da
qual faziam parte aqueles que tinham o capital para investir em tais
empreendimentos e não mais os aventureiros anteriores. O espaço que acabou
mantendo essa característica da livre competição foi o sertão.
Há, no prefácio, um panorama da
arquitetura colonial que analisa dois aspectos: a arquitetura religiosa e a
arquitetura da casa-grande. Esse panorama mostra quais relações sociais são
expressas nas construções do período, relacionando a forma da casa-grande com a
estabilidade que os senhores procuravam passar e colocando-a como fruto da
estrutura escravocrata e latifundiária (já que tanto na economia cafeeira
quanto na economia açucareira o modelo de casa era quase o mesmo).
O autor mostra então quais são os
empecilhos do seu estudo e quais são os possíveis lugares para encontro de
fonte para aqueles que desejam seguir os seus estudos, para isso, há um
contraponto entre a lógica protestante e a lógica católica e como a prática de
confissões do catolicismo, quando comparada com a escrita de diários dos
protestantes, acaba sendo um pouco pior para a historiografia, pois faz com que
o acesso do historiador à vida privada seja viável apenas por meio dos
documentos gerados na Inquisição.
Uma outra tese, que me agrada muito,
também abordada pelo autor é a da continuidade do latifúndio e das condições
escravas de trabalho: “Aliás, a monocultura latifundiária, mesmo depois de
abolida a escravidão, achou jeito de subsistir em alguns pontos do país, ainda
mais absorvente e esterilizante do que no antigo regime; e ainda mais feudal
nos abusos. Criando um proletariado de condições menos favoráveis de vida do
que a massa escrava. Roy Nash ficou surpreendido com o fato de haver terras no Brasil,
nas mãos de um homem só, maiores que Portugal inteiro: informaram-lhe que no Amazonas
os Costa Ferreira eram donos de uma propriedade de área mais extensa que a
Inglaterra, a Escócia e a Irlanda reunidas.”
Algo importante é a discordância de abordagem que levou o
autor a realizar seus estudos. A teoria que estava em voga na época era o
discurso médico da degeneração, causada, no Brasil, pela miscigenação, Freyre
discorda dessas teorias e acredita que deve-se analisar as coisas por um viés
mais social, vendo quais são as condições geradora de algumas realidades.
Ao tentar colocar a miscigenação
como algo positivo, Freyre comete algumas barbaridades, na minha opinião:
“A
escassez de mulheres brancas criou zonas de confraternização entre vencedores e
vencidos, entre senhores e escravos. Sem deixarem de ser relações – as dos
brancos com as mulheres de cor – de “superiores” com “inferiores e, no maior
número de casos, de senhores desabusados e sádicos com escravas passivas,
adoçaram-se, entretanto, com a necessidade experimentada por muitos colonos de
constituírem família dentro dessas circunstâncias e sobre essa base. A
miscigenação que largamente se praticou aqui corrigiu a distância social que de
outro modo se teria conservado enorme entre a casa-grande e a mata tropical;
entre a casa-grande e a senzala. O que a monocultura latifundiária realizou no
sentido de aristocratização, extremando a sociedade brasileira em senhores e
escravos, com uma rala e insignificante lambujem de gente livre sanduichada
entre os extremos antagônicos, foi em grande parte contrariado pelos efeitos
sociais da miscigenação. A índia e a negra-mina a princípio, depois a mulata, a
cabrocha, a quadradona, a oitavona, tornando-se caseiras, concubinas e até
esposas legítimas dos senhores brancos, agiram poderosamente no sentido de
democratização social no Brasil. Entre os filhos mestiços, legítimos e mesmo
ilegítimos, havidos delas pelos senhores brancos, subdividiu-se parte
considerável das grandes propriedades, quebrando-se assim a força das sesmarias
feudais e dos latifúndios do tamanho de reinos.”
É colocada aqui o que parece ser a tese central do livro:
a miscigenação fez com que no Brasil existisse uma maior democracia, como se a
miscigenação tivesse reduzido as desigualdades do país, inclusive as desigualdades
raciais. Ao tentar colocar como positiva a miscigenação na formação do país, e ao renegar as teorias de degeneração, ele relativiza o estupro sofrido por diversas
mulheres escravizadas, colocando as relações sexuais como redutoras das
distâncias entre a casa-grande e a senzala, quando elas eram, na verdade, uma
ferramenta de coerção, é um pouco complexo colocar tal fato como “zona de
confraternização”.
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