Ao longo das décadas, o conceito de quilombo foi palco de muitas disputas, essas disputas trazem em si diversos interesses políticos e têm na academia e no âmbito jurídico seus principais alicerces. Se de um lado temos a visão mais clássica e já antiquada, que enquadra os quilombos estritamente como terras de escravos fugidos, de outro lado temos uma visão mais plural, uma visão que define quilombos como territórios negros gerados por diversas circunstâncias, e é esse o caso do Bracuí, um território abandonado por seus donos e doado para aqueles que nele moravam.
A primeira definição citada no parágrafo acima traz consigo os interesses de uma burocracia cuja vontade de ceder terras que contrapõem a lógica individualista do mercado, por se tratarem de terras coletivas e que saem da rota da especulação imobiliária pela proibição se sua compartimentação e venda, traz consigo também um rigor conceitual pouco aplicável a realidade da formação da sociedade negra brasileira e uma idealização na abordagem daquilo que seria considerado resistência, restringindo muito o papel das populações negras brasileiras e pouco mostrando as diversas formas de luta, de organização e de agência histórica por elas exercidas ao longo do tempo.
As visões mais plurais buscam alargar a definição para mostrar que culturas negras “menos colonizadas” e que espaços de resistência sempre existiram em diversos moldes e que comunidades tradicionais vão muito além do que se imagina o senso comum, que povos quilombolas não pararam no tempo e que muitas vezes estão integrados nas comunidades que existem ao seu redor. A partir dessas visões, muito mais comunidades passam a se reconhecer como quilombolas, tendo seus processos de formação relacionados a uma visão mais ampla do que foi a colonização e do que foi a escravidão, estendendo tais fenômenos históricos a um passado muito mais recente, que consegue chegar até o período final do século XX.
Mesmo tendo acontecido a sua formação de modos completamente diferentes, o distanciamento entre o Quilombo do Bracuí e o centro o interliga com outros bairros de periferia, tanto do Rio de Janeiro, quanto de São Paulo. Se no século XX as periferias foram se formando pelo proposital distanciamento de comunidades negras dos centros das cidades, em um projeto higienista, o quilombo do Bracuí nasceu sendo periférico, sua localização distante da cidade é o que fez com que a fazenda de tráfico ilegal pudesse funcionar o tempo que funcionou. Mesmo assim, podemos perceber muitas semelhanças entre esse território e outros territórios periféricos, semelhanças essas que fazem com que as circunstâncias formadoras dessas comunidades sejam pouco importantes.
A mistura do brega com o funk, a coexistência entre bares e paredões de carros com altíssimas caixas de som mostra um cenário muito parecido com qualquer periferia do Brasil. A expansão das cidades faz também com que o Quilombo do Bracuí, ainda em processo de titulação, seja acometido por uma lógica perversa de descaracterização de sua comunidade, o encarecimento do centros urbanos faz com que cada dia mais pessoas migrem para locais mais afastados, seja por motivos financeiros, seja por procurarem um estilo de vida mais pacífico e uma qualidade de vida maior.
Sendo localizado em uma região muito propícia para hotéis e resorts por sua proximidade com a linda baía de Angra dos Reis e com um rio, cachoeira e pequenas quedas d’água, a especulação imobiliária avança cada dia mais para dentro do quilombo. Junto com a especulação, há uma descaracterização da paisagem, fazendo com que numa mesma rua existam casas gigantes com portões intimidadores, fruto dessa venda de lotes cada vez mais frequente e as casas com quintal de mato, com portões baixos, que são características de uma vida mais comunitária e de uma populações mais integrada, essas casas são a figura mais clara do elemento externo adentrando a comunidade. Há também uma maior introdução do elemento branco nessa comunidade, digo maior introdução porque, na sua formação, o Bracuí possuía uma parte significante de população branca, já que parte dos pescadores e comerciantes da região não eram negros. Essa maior introdução de uma população branca e vinda de outras partes da cidade, do estado, do país, portadora de outras trajetórias, pode acabar descaracterizando o Bracuí enquanto comunidade quilombola, pois, conforme essas outras pessoas vão entrando, seus habitantes, que venderam os lotes, vão saindo.
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Há algum tempo entrei em contato com alguns textos, algumas narrativas, que causaram em mim um impacto muito grande, me fizeram perceber que a minha existência não é acidental, que eu sou fruto de diversos processos históricos e não nasci e cresci na Casa Verde por acaso. Me entender como parte ativa de uma história, que tenho um compromisso com aqueles que vieram antes de mim, conseguir ligar a minha existência a períodos mais remotos da história da minha cidade, do país em que eu estou, me fez me sentir menos solta no mundo, fez com que eu entendesse demais muitas coisas, a história de muitas das pessoas que me rodeiam e que me rodearam ao longo dos meus recém-completos dezenove anos. Me descobrir fruto de tantas histórias fez com que eu me sentisse mais parte de muitas coisas, e esse texto foi produzido nesse momento de me entender como integrante de algo maior do que eu, o texto não é sobre mim, mas é TAMBÉM sobre mim. Enfim, vou deixar aqui embaixo textos que se relacionam ao que estou falando.
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