Segundo capítulo: O indígena
na formação da família brasileira
Freyre caracteriza os índios do
território brasileiro como “crianças grandes”, em um discurso que os compara,
compara em termos de evolução, com os maias, incas e astecas, e coloca esse
como o fator de não se ter estabelecido no país uma política de extermínio,
preciso me aprofundar mais nessa questão indígena, pois o que sei sobre a
América Latina indica que no México os locais com resistência mais efetiva à
colonização foram onde as populações não eram tão hierarquizadas ou organizadas
em estruturas próximas de um reinado, enquanto os “grandes impérios” decaíram
mais facilmente. Ainda no mesmo discurso evolucionista, o autor coloca a
cultura indígena como inferior à africana.
Pelo intermédio da mulher indígena
se adotaram muitos costumes na vida brasileira: banho, higiene, comida, cuidado
com crianças, remédios. Coloca a sexualidade da mulher indígena como maior que
a do homem indígena e coloca esse fato como um dos grandes responsáveis pela
miscigenação, apontando a miscigenação como um processo quase que voluntário,
vindo de uma atração mútua entre homens portugueses e mulheres indígenas.
Fala das relações de parentesco mas
de um jeito superficial, preciso estudar isso, o máximo que já vi a respeito
foi um documentário sobre os estudos de Levi Strauss, porém o foco estava no
estruturalismo e na sua semelhança com as ciências lingüísticas, sobre a busca
de um átomo formador da língua (fonética) e de um átomo formador do parentesco
(aí se aprofundava um pouco no avunculado, mas sem nenhuma síntese).
Algumas páginas se dedicam ao papel
do vermelho na vida indígena e como esse papel penetrou na sociedade brasileira
de forma geral. Achei interessante, pois mostra como a cor tinha um papel de
proteção física (protegia a pele do sol e da picada de alguns bichos) e
proteção espiritual, protegendo a alma dos maus espíritos (o autor vai traçar
então um panorama do uso do vermelho em diferentes tribos e mostrar as
infiltrações desse uso nas famílias das casas-grandes).
Finalmente fala de imperialismo e destruição de cultura, citando
Pitt-Rivers, um importante teórico do campo da cultura material, que enxergava
as coisas por um viés evolucionista, o trecho, localizado na página 177, é o
seguinte:
“Considerando nesse ensaio o choque das duas culturas, a
europeia e a ameríndia, do ponto de vista da formação social da família
brasileira – em que predominaria a moral europeia e católica – não nos
esqueçamos, entretanto, de atentar no que foi para o indígena, e do ponto de
vista de sua cultura, o contato com o europeu. Contato dissolvente. Entre as
populações nativas da América, dominadas pelo colono ou pelo missionário, a
degradação moral foi completa, como sempre acontece ao juntar-se uma cultura,
já adiantada, com outra atrasada.
Sob a pressão moral e técnica da cultura adiantada,
esparrama-se a do povo atrasado. Perde o indígena a capacidade de
desenvolver-se autonomamente tanto quanto a de elevar-se de repente, por
imitação natural ou forçada, aos padrões que lhe propõe o imperialismo
colonizador. Mesmo que se salvem formas ou acessórios de cultura, perde-se o
que Pitt-Rivers considera o potencial, isto é, a capacidade construtora da
cultura, o seu elã, o seu ritmo.”
Pitt Rivers acreditava que a humanidade caminhava em
direção ao progresso e que culturas atrasadas, quando entravam em contato com
culturas adiantadas, adotavam os costumes da nova cultura. Ainda que a visão
apresentada seja ultrapassada, é o primeiro momento no texto em que sinto que o
autor não positiva o contato entre dominador e dominado, em que não tenta
procurar uma harmonia na forma em que se deram tais relações.
Na página 186 podemos encontrar
características das relações de gênero dentro do meio indígena:
“Entre os seus era a mulher índia o
principal valor econômico e técnico. Um pouco besta de carga e um pouco escrava
do homem. Mas superior a ele na capacidade de utilizar as coisas e de produzir
o necessário à vida e ao conforto comuns.
A poligamia não corresponde entre os
selvagens que a praticam – incluídos neste número os que povoavam o Brasil –
apenas ao desejo sexual, tão difícil de satisfazer no homem com a posse de uma
só mulher; corresponde também ao interesse econômico de cercar-se o caçador, o
pescador ou o guerreiro dos valores econômicos vivos, criadores, que as
mulheres representam.”
Não, não sei como analisar esse
trecho, então ele vai ficar aqui guardadinho pra algum momento no futuro. A
única coisa que consigo pensar é que poligamia nunca é sobre desejo sexual. Algumas
páginas são destinadas à homossexualidade/bissexualidade e sua importância na
dinâmica das tribos indígenas, a análise é completamente estranha, isso nos
momentos em que não é absurda, mas eu ainda não estudei o suficiente sobre o
assunto para conseguir criticar.
Uma parte que achei interessante foi
quando se comenta a facilidade dos povos indígenas em aceitar a tradição de
penitência católica, pois os rituais de iniciação e de cura indígenas também
eram baseados no flagelo, na purificação por meio da dor.
Em um trecho da página
213, o autor vai falar de alguns dos fenômenos sociais de insubordinação pelos
quais nosso país passou, caracterizando-os como um furor selvagem que muito
distava de um projeto político:
“Também são
freqüentes, entre nós, os relapsos no furor selvagem, ou primitivo, de
destruição, manifestando-se em assassinatos, saques, invasões de fazendas por
cangaceiros: raro aquele dos nosso movimentos políticos ou cívicos em que não
tenham ocorrido explosões desse furor recalcado ou comprimido em tempos
normais. Sílvio Romero chegou a criticar-nos pela ingenuidade com que “damos o
pomposo nome de revoluções liberais” a “assanhamentos desordeiros”. O caráter,
antes de choque de culturas desiquais, ou antagônicas, do que cívico ou
político, desses movimentos, parece não ter escapado ao arguto observador: “os
elementos selvagens ou bárbaros que repousam no fundo étnico de nossa
nacionalidade, vieram livremente à tona, alçaram o colo e prolongaam a anarquia
, a desordem espontânea”, escreve ele, referindo-se às balaiadas, sabinadas,
cabanadas, que têm agitado o Brasil. Poderia talvez estender-se a
caracterização aos mata-matamarinheiro, quebra-quilos, farrapos; quem sabe mesmo se atualizá-la,
aplicando-a a movimentos mais recentes, embora animados de um fervor ideológico
mais intenso do que aqueles? A revolução pernambucana de 1817 parece-nos
permanecer em nossa história política “a única digna desse nome”, da frase de
Oliveira Lima; é sem dúvida aquela que se revestiu menos do caráter de pura
desordem propícia ao saque, ou menos sofreu da deformação de fins políticos ou
ideológicos. Não que a consideremos exclusivamente política, sem raízes
econômicas; o que desejamos acentuar é que se processou de um modo diverso das
abriladas, com um programa e um estilo político definidos. Da vinagrada de
1836, no Pará, escreveu Sílvio Romero: “o elemento tapuio alçou o colo,
tripudiando sobre a vida e a propriedade alheia”.
Isto sem falarmos em movimentos francamente de revolta de
escravos, explosões ou de ódio de raça ou de classe social e economicamente
oprimida – a insurreição de negros em Minas, por exemplo. Ou como nos
terremotos de cultura: culturas oprimidas explodindo para não morrer sufocadas,
rompendo a crosta da dominante para respirar, como parece ter sido o movimento
de negros na Bahia m 1835. A cultura negra maometana contra a portuguesa
católica. Estes são movimentos à parte,
de um profundo sentido social, como à parte é o de Canudos – resultado da
diferenciação da cultura qe se operou entre o litoral e o sertão. Os relapsos
em furor selvagem observamo-los em movimentos de fins aparentemente políticos
ou cívicos, mas na verdade pretexto de regressão à cultura primitiva, recalcada
porém não destruída.”
O projeto jesuítico de colonização é mostrado de forma
pouco romantizada pelo autor, se coloca primeiramente como um projeto que se
preocupava com os indígenas mas que ao longo do tempo se tornou mais preocupado
com o mantimento de sua hegemonia dentro da igreja católica e com os lucros que
tirariam dessa hegemonia. As crianças eram usadas como instrumentos da
colonização, pois quando se ensina para crianças uma nova ordem moral, a
aceitação é maior, e assim eram as crianças o fator que policiava a moralidade
dentro do seio familiar, crianças essas que passaram a ser muito valorizadas
devido à alta taxa de mortalidade que lhes acometeu nesse período (período em
que se cunhou no território a visão de que crianças que morrem eram anjos
retomados pelos céus).
No trecho localizado na página 230 podemos encontrar um
reforço da tese de que o índio era preguiçoso, fraco e primitivo, enquanto o
africano era mais avançado, trabalhador e resistente, essa tese já não é mais
aceita dentro das ciências sociais, se trata de uma visão preconceituosa e de
um evolucionismo deveras simplificado. No entanto, achei interessante parar pra
pensar em como a sedentarização modificou o modo de vida indígena e em como se
amontoar muitos indígenas em assentamentos jesuítas acabou ajudando na
disseminação de epidemias.
“Se índios de tão
boa aparência de saúde fracassaram, uma vez incorporados ao sistema econômico
do colonizador é que foi para eles demasiado brusca a passagem do nomadismo à
sedentariedade; da atividade esporádica à contínua; é que neles se alterou
desastrosamente o metabolismo ao novo ritmo de vida econômica e de esforço
físico. Nem o tal inhame nem os tais frutos da terra bastariam agora à
alimentação do selvagem submetido ao trabalho escravo nas plantações de cana. O
resultado foi evidenciar-se o índio no labor agrícola o trabalhador banzeiro e
moleirão que teve de ser substituído pelo negro. Este, vindo de um estádio de
cultura superior ao do americano, corresponderia melhor às necessidades
brasileiras de intenso e contínuo esforço físico. Esforço agrícola, sedentário.
Mas era outro homem. Homem agrícola. Outro, seu regime de alimentação, que,
aliás, pouca alteração sofreria no Brasil, transplantadas para cá muitas das
plantas alimentares da África: o feijão, a banana, o quiabo, e transportados
das ilhas portuguesas do Atlântico para a colônia americana o boi, o carneiro,
a cabra, a cana-de-açúcar.”
Na página 231, podemos perceber claramente a visão do autor
de que o país é harmônico, de que a miscigenação gerou harmonia no país e de
que isso é muito positivo e deve ser comemorado, uma visão que tem muito
sentido quando vinda de um filho da casa-grande.
“A verdade é que
no Brasil, ao contrário do que se observa em outros países da América e da
África de recente colonização europeia, a cultura primitica – tanto a ameríndia
como a africana – não se vem isolando em bolões duros, secos, indigestos,
inassimiláveis; ao sistema social do europeu. Muito menos estratificando-se em
arcaísmos e curiosidades etnográficas. Faz-se sentir na presença viva, útil,
ativa, e não apenas pitoresca, de elementos com atuação criadora no desenvolvimento
nacional. Nem as relações sociais entre as duas raças, a conquistadora e a
indígena, aguçaram-se nunca na antiparia
ou no ódio cujo ranger, de tão adstringente, chega-nos aos ouvidos de todos os
países de colonização anglo-saxônica e protestante. Suavizou-as aqui o óleo
lúbrico da profunda miscigenação, quer a livre e danada, quer a regular e
cristã sob a benção dos padres e pelo incitamento da Igreja e do Estado.”
A última parte que me chamou a atenção foi a breve menção
do autor à couvade, termo que eu só entrei em contato anteriormente no prefácio
da Rose Marie Muraro para O Martelo das
Bruxas, que é inclusive um ótimo prefácio.
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