domingo, 4 de setembro de 2016

Lendo casa-grande e senzala: o segundo capítulo

Segundo capítulo: O indígena na formação da família brasileira
            Freyre caracteriza os índios do território brasileiro como “crianças grandes”, em um discurso que os compara, compara em termos de evolução, com os maias, incas e astecas, e coloca esse como o fator de não se ter estabelecido no país uma política de extermínio, preciso me aprofundar mais nessa questão indígena, pois o que sei sobre a América Latina indica que no México os locais com resistência mais efetiva à colonização foram onde as populações não eram tão hierarquizadas ou organizadas em estruturas próximas de um reinado, enquanto os “grandes impérios” decaíram mais facilmente. Ainda no mesmo discurso evolucionista, o autor coloca a cultura indígena como inferior à africana.
            Pelo intermédio da mulher indígena se adotaram muitos costumes na vida brasileira: banho, higiene, comida, cuidado com crianças, remédios. Coloca a sexualidade da mulher indígena como maior que a do homem indígena e coloca esse fato como um dos grandes responsáveis pela miscigenação, apontando a miscigenação como um processo quase que voluntário, vindo de uma atração mútua entre homens portugueses e mulheres indígenas.
            Fala das relações de parentesco mas de um jeito superficial, preciso estudar isso, o máximo que já vi a respeito foi um documentário sobre os estudos de Levi Strauss, porém o foco estava no estruturalismo e na sua semelhança com as ciências lingüísticas, sobre a busca de um átomo formador da língua (fonética) e de um átomo formador do parentesco (aí se aprofundava um pouco no avunculado, mas sem nenhuma síntese).
            Algumas páginas se dedicam ao papel do vermelho na vida indígena e como esse papel penetrou na sociedade brasileira de forma geral. Achei interessante, pois mostra como a cor tinha um papel de proteção física (protegia a pele do sol e da picada de alguns bichos) e proteção espiritual, protegendo a alma dos maus espíritos (o autor vai traçar então um panorama do uso do vermelho em diferentes tribos e mostrar as infiltrações desse uso nas famílias das casas-grandes).
Finalmente fala de imperialismo e destruição de cultura, citando Pitt-Rivers, um importante teórico do campo da cultura material, que enxergava as coisas por um viés evolucionista, o trecho, localizado na página 177, é o seguinte:
“Considerando nesse ensaio o choque das duas culturas, a europeia e a ameríndia, do ponto de vista da formação social da família brasileira – em que predominaria a moral europeia e católica – não nos esqueçamos, entretanto, de atentar no que foi para o indígena, e do ponto de vista de sua cultura, o contato com o europeu. Contato dissolvente. Entre as populações nativas da América, dominadas pelo colono ou pelo missionário, a degradação moral foi completa, como sempre acontece ao juntar-se uma cultura, já adiantada, com outra atrasada.
Sob a pressão moral e técnica da cultura adiantada, esparrama-se a do povo atrasado. Perde o indígena a capacidade de desenvolver-se autonomamente tanto quanto a de elevar-se de repente, por imitação natural ou forçada, aos padrões que lhe propõe o imperialismo colonizador. Mesmo que se salvem formas ou acessórios de cultura, perde-se o que Pitt-Rivers considera o potencial, isto é, a capacidade construtora da cultura, o seu elã, o seu ritmo.”
Pitt Rivers acreditava que a humanidade caminhava em direção ao progresso e que culturas atrasadas, quando entravam em contato com culturas adiantadas, adotavam os costumes da nova cultura. Ainda que a visão apresentada seja ultrapassada, é o primeiro momento no texto em que sinto que o autor não positiva o contato entre dominador e dominado, em que não tenta procurar uma harmonia na forma em que se deram tais relações.
            Na página 186 podemos encontrar características das relações de gênero dentro do meio indígena:
            “Entre os seus era a mulher índia o principal valor econômico e técnico. Um pouco besta de carga e um pouco escrava do homem. Mas superior a ele na capacidade de utilizar as coisas e de produzir o necessário à vida e ao conforto comuns.
            A poligamia não corresponde entre os selvagens que a praticam – incluídos neste número os que povoavam o Brasil – apenas ao desejo sexual, tão difícil de satisfazer no homem com a posse de uma só mulher; corresponde também ao interesse econômico de cercar-se o caçador, o pescador ou o guerreiro dos valores econômicos vivos, criadores, que as mulheres representam.”
            Não, não sei como analisar esse trecho, então ele vai ficar aqui guardadinho pra algum momento no futuro. A única coisa que consigo pensar é que poligamia nunca é sobre desejo sexual. Algumas páginas são destinadas à homossexualidade/bissexualidade e sua importância na dinâmica das tribos indígenas, a análise é completamente estranha, isso nos momentos em que não é absurda, mas eu ainda não estudei o suficiente sobre o assunto para conseguir criticar.
            Uma parte que achei interessante foi quando se comenta a facilidade dos povos indígenas em aceitar a tradição de penitência católica, pois os rituais de iniciação e de cura indígenas também eram baseados no flagelo, na purificação por meio da dor.           
                        Em um trecho da página 213, o autor vai falar de alguns dos fenômenos sociais de insubordinação pelos quais nosso país passou, caracterizando-os como um furor selvagem que muito distava de um projeto político:
 “Também são freqüentes, entre nós, os relapsos no furor selvagem, ou primitivo, de destruição, manifestando-se em assassinatos, saques, invasões de fazendas por cangaceiros: raro aquele dos nosso movimentos políticos ou cívicos em que não tenham ocorrido explosões desse furor recalcado ou comprimido em tempos normais. Sílvio Romero chegou a criticar-nos pela ingenuidade com que “damos o pomposo nome de revoluções liberais” a “assanhamentos desordeiros”. O caráter, antes de choque de culturas desiquais, ou antagônicas, do que cívico ou político, desses movimentos, parece não ter escapado ao arguto observador: “os elementos selvagens ou bárbaros que repousam no fundo étnico de nossa nacionalidade, vieram livremente à tona, alçaram o colo e prolongaam a anarquia , a desordem espontânea”, escreve ele, referindo-se às balaiadas, sabinadas, cabanadas, que têm agitado o Brasil. Poderia talvez estender-se a caracterização aos mata-matamarinheiro, quebra-quilos,  farrapos; quem sabe mesmo se atualizá-la, aplicando-a a movimentos mais recentes, embora animados de um fervor ideológico mais intenso do que aqueles? A revolução pernambucana de 1817 parece-nos permanecer em nossa história política “a única digna desse nome”, da frase de Oliveira Lima; é sem dúvida aquela que se revestiu menos do caráter de pura desordem propícia ao saque, ou menos sofreu da deformação de fins políticos ou ideológicos. Não que a consideremos exclusivamente política, sem raízes econômicas; o que desejamos acentuar é que se processou de um modo diverso das abriladas, com um programa e um estilo político definidos. Da vinagrada de 1836, no Pará, escreveu Sílvio Romero: “o elemento tapuio alçou o colo, tripudiando sobre a vida e a propriedade alheia”.
Isto sem falarmos em movimentos francamente de revolta de escravos, explosões ou de ódio de raça ou de classe social e economicamente oprimida – a insurreição de negros em Minas, por exemplo. Ou como nos terremotos de cultura: culturas oprimidas explodindo para não morrer sufocadas, rompendo a crosta da dominante para respirar, como parece ter sido o movimento de negros na Bahia m 1835. A cultura negra maometana contra a portuguesa católica. Estes são movimentos  à parte, de um profundo sentido social, como à parte é o de Canudos – resultado da diferenciação da cultura qe se operou entre o litoral e o sertão. Os relapsos em furor selvagem observamo-los em movimentos de fins aparentemente políticos ou cívicos, mas na verdade pretexto de regressão à cultura primitiva, recalcada porém não destruída.”
O projeto jesuítico de colonização é mostrado de forma pouco romantizada pelo autor, se coloca primeiramente como um projeto que se preocupava com os indígenas mas que ao longo do tempo se tornou mais preocupado com o mantimento de sua hegemonia dentro da igreja católica e com os lucros que tirariam dessa hegemonia. As crianças eram usadas como instrumentos da colonização, pois quando se ensina para crianças uma nova ordem moral, a aceitação é maior, e assim eram as crianças o fator que policiava a moralidade dentro do seio familiar, crianças essas que passaram a ser muito valorizadas devido à alta taxa de mortalidade que lhes acometeu nesse período (período em que se cunhou no território a visão de que crianças que morrem eram anjos retomados pelos céus).
No trecho localizado na página 230 podemos encontrar um reforço da tese de que o índio era preguiçoso, fraco e primitivo, enquanto o africano era mais avançado, trabalhador e resistente, essa tese já não é mais aceita dentro das ciências sociais, se trata de uma visão preconceituosa e de um evolucionismo deveras simplificado. No entanto, achei interessante parar pra pensar em como a sedentarização modificou o modo de vida indígena e em como se amontoar muitos indígenas em assentamentos jesuítas acabou ajudando na disseminação de epidemias.
 “Se índios de tão boa aparência de saúde fracassaram, uma vez incorporados ao sistema econômico do colonizador é que foi para eles demasiado brusca a passagem do nomadismo à sedentariedade; da atividade esporádica à contínua; é que neles se alterou desastrosamente o metabolismo ao novo ritmo de vida econômica e de esforço físico. Nem o tal inhame nem os tais frutos da terra bastariam agora à alimentação do selvagem submetido ao trabalho escravo nas plantações de cana. O resultado foi evidenciar-se o índio no labor agrícola o trabalhador banzeiro e moleirão que teve de ser substituído pelo negro. Este, vindo de um estádio de cultura superior ao do americano, corresponderia melhor às necessidades brasileiras de intenso e contínuo esforço físico. Esforço agrícola, sedentário. Mas era outro homem. Homem agrícola. Outro, seu regime de alimentação, que, aliás, pouca alteração sofreria no Brasil, transplantadas para cá muitas das plantas alimentares da África: o feijão, a banana, o quiabo, e transportados das ilhas portuguesas do Atlântico para a colônia americana o boi, o carneiro, a cabra, a cana-de-açúcar.”
Na página 231, podemos perceber claramente a visão do autor de que o país é harmônico, de que a miscigenação gerou harmonia no país e de que isso é muito positivo e deve ser comemorado, uma visão que tem muito sentido quando vinda de um filho da casa-grande.
 “A verdade é que no Brasil, ao contrário do que se observa em outros países da América e da África de recente colonização europeia, a cultura primitica – tanto a ameríndia como a africana – não se vem isolando em bolões duros, secos, indigestos, inassimiláveis; ao sistema social do europeu. Muito menos estratificando-se em arcaísmos e curiosidades etnográficas. Faz-se sentir na presença viva, útil, ativa, e não apenas pitoresca, de elementos com atuação criadora no desenvolvimento nacional. Nem as relações sociais entre as duas raças, a conquistadora e a indígena, aguçaram-se  nunca na antiparia ou no ódio cujo ranger, de tão adstringente, chega-nos aos ouvidos de todos os países de colonização anglo-saxônica e protestante. Suavizou-as aqui o óleo lúbrico da profunda miscigenação, quer a livre e danada, quer a regular e cristã sob a benção dos padres e pelo incitamento da Igreja e do Estado.”

A última parte que me chamou a atenção foi a breve menção do autor à couvade, termo que eu só entrei em contato anteriormente no prefácio da Rose Marie Muraro para O Martelo das Bruxas, que é inclusive um ótimo prefácio.

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