quarta-feira, 24 de dezembro de 2014

Resenha: Invenção e Memória - Lygia Fagundes Telles

   
     Assisti ao filme As Meninas e gostei muito da história, acabei ficando com vontade de ler a obra da autora e Invenção e Memória veio parar na minha mão.
     Descobri que o volume faz parte de uma espécie de trilogia, formada por essa e outras duas obras também constituídas de contos e com algum teor autobiográfico.
     Confesso que, no começo, não simpatizei muito com a obra, achei meio sem noção o modo como se estruturavam os contos: tudo começava com uma cena cotidiana, aí a história era interrompida por alguma reflexão da autora e então concluída ou com algum elemento sobrenatural, ou com alguma coisa relacionada à moral. O que mais me incomodou foi quando a história se concluía com aspectos sobrenaturais.
     Esse incômodo se acabou quase que por completo quando vi que a proposta do livro era mesmo essa de brincar com a mistura entre invenção e memória.
     A coletânea é formada por 15 contos e, na minha opinião, tem altos~e baixos. Não consegui gostar de Cinema Gato Preto, O Menino e o Velho e Potyra conseguiu me tirar do sério.
     Que se Chama Solidão trata com sensibilidade o tema do aborto, Suicídio na Granja o tema da saudade. Se és Capaz e A Chave na Porta falam de maneiras opostas sobre a maturidade, entre outros. Mas os meus favoritos são, sem dúvidas, Rua Sabará, 400, que fala sobre Dom Casmurro de uma maneira muito bonita e História de Passarinho, que fala sobre a infelicidade da vida. Um dia eu volto aqui pra fazer uma resenha especificamente sobre alguns contos, eu acho.
      Um livro que oferece uma leitura gostosa e que vale a pena.

terça-feira, 23 de dezembro de 2014

Resenha: A Redoma de Vidro

A Redoma de Vidro é o único romance escrito por Sylvia Plath, poeta que se suicidou em 1963, aos 30 anos.
A obra, autobiográfica, retrata o início da vida adulta de uma menina pobre que cresceu em uma cidade pequena e sempre foi a melhor aluna de sua classe e acabou ganhando uma bolsa de estudos para uma ótima universidade.
O enredo se inicia quando a jovem (é difícil chamar ela de Esther, pois durante a leitura eu só conseguia pensar nela como Sylvia) ganha um estágio de 30 dias em uma grande revista adolescente em Nova Iorque, com estadia, jantares e diversas roupas e maquiagens pagos.
   O romance é narrado em primeira pessoa e podemos ver, pouco a pouco, a insatisfação e o desânimo crescentes da menina, vemos também suas constantes reflexões a respeito da vida e sua vivacidade sendo sugada pela sua mente, que basicamente entra em surto, sofre um colapso. Essa bolsa realmente existiu na vida de Sylvia, e na minha opinião, a gota d'água que dispara o colapso de Esther é aquilo que acontece no final do estágio e a faz jogar todas as suas roupas do terraço do hotel, que eu não posso contar porque seria spoiler, mas se alguém ler isso aqui, pode me contar se também acha que o motivo foi esse.
    A jovem está passando pelos dilemas da entrada na vida adulta: o que fazer no futuro, como construir a própria carreira, o que fazer com seus relacionamentos, como lidar com a própria sexualidade, com a mãe e com a sociedade de uma maneira geral.
    O estado de apatia de Esther e sua dificuldade em se sentir bem com a sua própria vida me causaram uma grande identificação, estou passando pelas mesmas coisas que ela, por um turbilhão emocional gerado por uma perda e por um medicamento com o qual ainda estou me adaptando e isso me fez ficar mais atenta ao meu estado emocional e me planejar para pedir ajuda antes que meu estado esteja similar ao dela.
     O resto do enredo fica pra você que embarcar nessa obra, e fica aqui o conselho de que se deve escolher bem o momento da sua vida e o estado emocional em que você se encontra antes de ler esse livro, porque eu fiquei perturbada por uns dias e essa história ainda tá mexendo muito comigo, principalmente quando relacionada a como a vida da autora acabou. 
 Vou deixar aqui embaixo alguns trechos que gostei:

"[...] me ocorreu que era estranho que nunca tivesse me dado conta de que eu só tinha sido completamente feliz até os meus nove anos de idade. 
   Depois disso [...] eu nunca tinha sido feliz novamente."- pág. 86

"Então me perguntei se, assim que ele começasse a gostar de mim, ele não se transformaria num sujeito comum aos meus olhos, e se quando começasse a me amar eu não acharia defeito atrás de defeito nele [...]"

"Estava ficando cada vez mais difícil decidir fazer as coisas naqueles últimos dias. E quando eu finalmente decidia fazer algo, como arrumar as minhas malas, eu só conseguia arrancar minhas roupas caras e encardidas das cômodas e dos armários, espalhá-las sobre a cama, perplexa."

"Para a pessoa dentro da redoma de vidro, vazia e imóvel como um bebê morto, o mundo inteiro é um sonho ruim."

PS: Li o livro na edição da Editora Globo e gostei muito dela, capa bonita, espaçamento bem grande, fonte em tamanho confortável, papel amarelado, só um erro da parte traseira do livro passou despercebido pela editora.

PS²: Em uma das minhas piores crises emocionais esse livro estava dentro da minha bolsa, tomei chuva com ele e acabei danificando um pouquinho as bordas, triste né?

terça-feira, 16 de dezembro de 2014

Resenha: Valente - para sempre

Valente é um filme teen em forma de quadrinho, é sobre o desencontro de sentimentos, sobre a dor que isso pode causar e sobre como algumas coisas nunca morrem.
      "Valente é sobre as garotas que acontecem na vida de um cara antes que A garota da vida dele aconteça." É isso que nos é dito na introdução, mas não sei se concordo... Valente é sobre aquele amor infantil, onde você não conhece a outra pessoa e sim a idealização que fez dela.
       Todos nós somos Valente, somos Dama, somos Princesa, somos Bu. Quem nunca aconselhou um amigo, ou descobriu que alguém avulso estava interessado, ou desenvolveu um amor platônico por alguém, né?
       Valente é sobre a importância de se tomar atitudes e de sermos honestos com as outras pessoas em relação aos nossos sentimentos, para não perdermos oportunidades preciosas. Valente gostou de Dama e Dama gostou de Valente, mas os dois sentimentos se desencontraram, pois não foram sentidos ao mesmo tempo.
       A presença de Dama sempre vai balançar Valente, e todos nós temos pelo menos uma Dama na vida. Certos sentimentos nunca morrem, eles apenas adormecem e são acordados em algumas situações.
       Um belo quadrinho,  om um traço muito bonito e uma história fofinha. Vale a pena ler.          

segunda-feira, 15 de dezembro de 2014

Sobre a necessidade que tenho de fazer listas

      Tenho problemas em seguir planos, em cumprir metas e prazos. Nunca termino aquilo que começo, existe uma força que me bloqueia e me faz desistir das coisas pelo caminho, sem se importar com a distância que falta pro final, por mais curta que ela seja.
      Me irrito com isso e sempre tento vencer essa força, mas, quando vejo, ela já se apossou de mim e destruiu qualquer crença ou força de vontade.
      Aí eu faço as listas, infinitas listas: de lugares pra ir, coisas pra pesquisar, livros pra ler, filmes e séries pra assistir, músicas pra conhecer, compromissos, tarefas...
      E elas ficam lá me encarando, como um lembrete constante da minha incompetência.

quinta-feira, 11 de dezembro de 2014

Resenha: E agora, aonde vamos?



       Esse é o segundo filme dirigido pela libanesa Nadine Labaki, que teve sua estreia como diretora com o filme “Caramelo”, que ainda pretendo assistir.
      A protagonista do filme é a própria Nadine, que vive um romance - que não é o foco da história, devo afirmar - com um dos moços da aldeia.
     A história se passa em uma pequena aldeia do Líbano, rodeada por minas terrestres e ligada à outras comunidades apenas por uma velha ponte. Nessa aldeia convivem muçulmanos e cristãos, e é essa convivência o foco do roteiro.
     A questão religiosa é um dos principais motivos dos atuais conflitos no Oriente Médio, a disputa de territórios e a junção entre política e religião fazem com que a tensão na área seja constante.
     Dentro da aldeia se vive um período de convivência harmoniosa após um conflito com perdas em ambos os lados. Ao ouvirem que conflitos armados estão se intensificando nas outras regiões, as mulheres da aldeia se unem para adiar ao máximo a chegada dessas informações nos ouvidos dos  homens da aldeia, pois têm medo de um novo conflito tomar conta da área.
      É uma bela obra sobre o tema da guerra, é uma bela obra sobre a força feminina - as mulheres e seus inúmeros esforços para evitar o surgimento de um novo conflito são o plano mais importante da história. É um filme engraçado e trabalha de uma maneira encantadora o tema da perda e do luto.
       Assistir a esse filme é uma experiência que faz rir, faz chorar e da qual sempre se tira um novo ensinamento. Fora isso, ainda há o conhecimento de uma outra cultura e o conhecimento das músicas dessa outra cultura, que, por sinal, tornam a trilha sonora do filme maravilhosa.

sábado, 15 de novembro de 2014

Sobre os espelhos nos quais não me encontro

     E aí você olha e vê alguém, alguém que você não conhece, alguém que é um completo mistério pra você, porque é impossível que você seja aquilo que tá sendo refletido.
     É como se nada dali fosse seu, aquele olho, aqueles traços, aquele corpo, o seu tamanho, nada. Porque, no fim, como se identificar com a sua própria imagem se você nem sabe quem você é, o que você quer? Como se identificar com a própria imagem se tudo o que você sabe sobre você é que você é uma irresponsável, uma inútil, alguém que não consegue se comprometer com nada, que não termina aquilo que começa, que não começa aquilo que precisa?
     Fica difícil mudar quando você já é tudo aquilo que você menos queria ser, não dá nem pra saber por onde começar.
     Você corta o cabelo, muda a cor, se maquia, muda a unha e, mesmo assim, aquilo refletido continua não sendo você. A mudança que o espelho pede não é externa. A mudança que o espelho pede é muito mais complexa.
      E você não se sente capaz de realizar essa mudança, por isso você só para, trava e se afunda casa dia mais na sua amargura.

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

    Aquele sentimentos que bate quando chega o fim do ano e você tem a certeza de que não estudou nada. Foram 12 anos de escola, pra você começar a descambar no décimo e virar aquele pior tipo de aluno possível no último ano.
   Quando você percebe que o ano mais importante de todos foi o único em que você não estudou nada, o desespero é inevitável. Esse foi um ano passado em branco, eu não aprendi nada, eu virei turista na sala de aula (sempre faltava e, quando estava na sala, estava dormindo).
    E o pior de tudo é que, se for parar pra pensar, não é como se eu tivesse abandonado os estudos pra curtir a vida adoidado, que aí uma coisa meio que compensaria a outra. Não, eu nem saí tanto assim, eu nem bebi tanto assim, eu nem fumei tanto assim, eu só entrei num estado de apatia que tá me custando a passar até agora, mesmo com o futuro batendo aqui na porta.
    Em algum lugar lá atrás eu perdi a minha capacidade de concentração, de aprendizagem, e minha fé numa mudança de mundo e numa vida completa.
    Uma semana pro enem.
    Um mês pra FUVEST.
    Eu estou completamente desesperada e realmente não sei se vou passar.
    Isso me deixa triste, porque se a eu de 2011 visse o que eu me tornei, ela não gostaria.

domingo, 26 de outubro de 2014

Resenha: Cidade de Deus

  
       Cidade de Deus é um romance de Paulo Lins, publicado e, 1997, que se baseia em fatos reais (o processo de pesquisa e coleta de materiais durou oito anos - de 1986 a 1993) e que narra a história do conjunto habitacional Cidade de Deus, mostrando as mudanças sofridas sofridas entre 1960 e 1990 - a passagem de uma criminalidade baseada em furtos e assaltos para o crescimento do tráfico de drogas e o surgimento do Comando Vermelho.
       Quero deixar bem claro, já nessas primeiras linhas, que essa é uma história sobre homens, contada por um homem para outros homens. Não existe uma personagem feminina realmente importante, talvez apenas Ana Rubro Negra, que, mesmo assim, não tem tanta relevância na história. Mas eu gostei do livro mesmo assim.
        O estilo do autor passeia entre a escrita poética e uma narração extremamente gráfica. O jeito de escrever de Paulo Lins prende o leitor e, mesmo sendo de fácil entendimento, apresenta uma grande riqueza de vocabulário e de recursos.
   

  A história é dividida em três partes: A história de Inferninho, A história de Pardalzinho e A história de Zé Miúdo. Esses três personagens são os fios condutores da história, mas a grande protagonista da obra é a própria Cidade de Deus.
      Esse é o tipo de leitura que causa desconforto, por mostrar de um modo muito realista a violência, a crueldade humana e a desigualdade social em sua face mais cruel. Apesar de todo o desconforto e de toda a carga trazida pelo conteúdo dessa história, a narrativa também nos mostra o lado mais leve da vida das personagens, um lado boêmio e despreocupado.
   O que muito me agradou foi a construção das personagens, que se dá de maneira complexa, conhecemos os sofrimentos, os complexos e os sentimentos de todos aqueles a quem somos apresentados e conseguimos nos afeiçoar e entender todos eles, por mais bárbaros que sejam os crimes que venham a cometer.

       São muitos os personagens mostrados ao longo da história, cada um com uma trajetória de vida muito específica e não existe uma única linha conduzindo a narrativa.
        A adaptação da obra para o cinema merece palmas (e sou suspeita para falar, porque é um dos meus filmes favoritos, e foi esse o fato que me levou a ler o livro), o personagem Busca-pé ter servido como amarração para o roteiro foi uma ótima solução.
        A inovação na produção, na escalação do elenco, tornam o universo dessa obra um dos mais fascinantes da cultura pop nacional. Cidade de Deus foi um marco para o cinema brasileiro, depois dele diversos filmes sobre a criminalidade e o tráfico surgiram e estes se tornaram os temas mais abordados pelo nosso cinema,
        Fica a certeza de que a leitura valeu muito a pena, e de que releituras ainda existirão (e o filme? bem, só nesse ano eu já assisti pelo menos umas cinco vezes.).

segunda-feira, 21 de julho de 2014

É bom sentir tudo o que eu sinto por você, essa sensação de ver beleza em tudo o que você faz (mesmo quando estou com raiva ou quando, por algum motivo, quero te enxergar como um bobo qualquer).

Me sinto encantada por cada traço: o olho, pequeno, puxado, meigo; a sobrancelha, grossa e reta; o nariz, arrebitadinho; a boca, pequena, delicada, que forma um biquinho; a barba que, junto aos cabelos, pretos, grandes, lisos, emoldura o rosto de menino; a pele, alaranjada e quente.
Cada vez que ouço a sua voz, rouca, gostosa, arrastada, aconchegante, tenho diferentes emoções e me deleito ao ouvir seu sotaque, ao sentir cada palavra entrando em meus ouvidos. Eu passaria horas ouvindo suas histórias, seus desabafos.
Queria poder percorrer seu rosto com meus dedos, minha boca, poder sentir cada linha da sua face, e te abraçar, me entrelaçar, me embaralhar em você. Queria poder estar tão perto, tão colada, que os ouvidos, além de ouvir suas palavras, sentiriam o ar que sai da sua boca enquanto você fala, e que os meus pelos todos se arrepiassem. Queria que cada piada, cada brincadeira, fosse feita aqui, do meu lado, e que tocasse pra mim nas noites frias.

Mas queria, acima de tudo, que não existissem outras, quero ser a única. Quero que seus olhos brilhem e que seu coração acelere a cada aproximação minha, assim como o meu já faz em qualquer momento em que penso, lembro, ouço ou falo de você.

domingo, 2 de fevereiro de 2014

Queria esse sentir
esse ligar-se 
essa entrega
                             ADMIRAR
                                        RIR
                                                  O TOQUE
                                                             O TEMPO
                                                         O TATO
                                   O ABRAÇO
                            O FRIO
                                O CALOR
                                      O COLO
                                        O CUIDADO
     Queria isso,
          que eu não tenho
                                  Isso que é
                                        BONITO
                                                       que eu GUARDO
                                                                        TRANCO
                                                                                 CALO
                              que quando abro
                                        MA.CHU.CA
                                                       QUEIMA
                                          SAI LÍQUIDO
                                A.MAR.GO