sábado, 15 de novembro de 2014

Sobre os espelhos nos quais não me encontro

     E aí você olha e vê alguém, alguém que você não conhece, alguém que é um completo mistério pra você, porque é impossível que você seja aquilo que tá sendo refletido.
     É como se nada dali fosse seu, aquele olho, aqueles traços, aquele corpo, o seu tamanho, nada. Porque, no fim, como se identificar com a sua própria imagem se você nem sabe quem você é, o que você quer? Como se identificar com a própria imagem se tudo o que você sabe sobre você é que você é uma irresponsável, uma inútil, alguém que não consegue se comprometer com nada, que não termina aquilo que começa, que não começa aquilo que precisa?
     Fica difícil mudar quando você já é tudo aquilo que você menos queria ser, não dá nem pra saber por onde começar.
     Você corta o cabelo, muda a cor, se maquia, muda a unha e, mesmo assim, aquilo refletido continua não sendo você. A mudança que o espelho pede não é externa. A mudança que o espelho pede é muito mais complexa.
      E você não se sente capaz de realizar essa mudança, por isso você só para, trava e se afunda casa dia mais na sua amargura.

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