segunda-feira, 4 de julho de 2016

Lendo Casa-grande & Senzala: o prefácio da primeira edição

            É traçado um paralelo interessante entre o Norte do Brasil e o Sul dos EUA: o autor segue o conceito de “lavoura parasita da natureza” para falar do latifúndio escravocrata, achei o conceito interessante pois contempla o fato de que, nesse tipo de propriedade, não haviam ações que cuidavam da conservação da terra, sendo a agricultura mais uma forma de degradar a natureza, quase que uma forma não renovável de obtenção de energia.
            Ao analisar a implantação da cana como atividade econômica majoritária da colônia, o autor pontua que a característica democrática do comércio no Brasil foi alterada, pois o comércio de pau-brasil e de couro foram “mortos”, instaurando uma classe agricultora, da qual faziam parte aqueles que tinham o capital para investir em tais empreendimentos e não mais os aventureiros anteriores. O espaço que acabou mantendo essa característica da livre competição foi o sertão.
            Há, no prefácio, um panorama da arquitetura colonial que analisa dois aspectos: a arquitetura religiosa e a arquitetura da casa-grande. Esse panorama mostra quais relações sociais são expressas nas construções do período, relacionando a forma da casa-grande com a estabilidade que os senhores procuravam passar e colocando-a como fruto da estrutura escravocrata e latifundiária (já que tanto na economia cafeeira quanto na economia açucareira o modelo de casa era quase o mesmo).
            O autor mostra então quais são os empecilhos do seu estudo e quais são os possíveis lugares para encontro de fonte para aqueles que desejam seguir os seus estudos, para isso, há um contraponto entre a lógica protestante e a lógica católica e como a prática de confissões do catolicismo, quando comparada com a escrita de diários dos protestantes, acaba sendo um pouco pior para a historiografia, pois faz com que o acesso do historiador à vida privada seja viável apenas por meio dos documentos gerados na Inquisição.
            Uma outra tese, que me agrada muito, também abordada pelo autor é a da continuidade do latifúndio e das condições escravas de trabalho: “Aliás, a monocultura latifundiária, mesmo depois de abolida a escravidão, achou jeito de subsistir em alguns pontos do país, ainda mais absorvente e esterilizante do que no antigo regime; e ainda mais feudal nos abusos. Criando um proletariado de condições menos favoráveis de vida do que a massa escrava. Roy Nash ficou surpreendido com o fato de haver terras no Brasil, nas mãos de um homem só, maiores que Portugal inteiro: informaram-lhe que no Amazonas os Costa Ferreira eram donos de uma propriedade de área mais extensa que a Inglaterra, a Escócia e a Irlanda reunidas.”
Algo importante é a discordância de abordagem que levou o autor a realizar seus estudos. A teoria que estava em voga na época era o discurso médico da degeneração, causada, no Brasil, pela miscigenação, Freyre discorda dessas teorias e acredita que deve-se analisar as coisas por um viés mais social, vendo quais são as condições geradora de algumas realidades.
            Ao tentar colocar a miscigenação como algo positivo, Freyre comete algumas barbaridades, na minha opinião:
“A escassez de mulheres brancas criou zonas de confraternização entre vencedores e vencidos, entre senhores e escravos. Sem deixarem de ser relações – as dos brancos com as mulheres de cor – de “superiores” com “inferiores e, no maior número de casos, de senhores desabusados e sádicos com escravas passivas, adoçaram-se, entretanto, com a necessidade experimentada por muitos colonos de constituírem família dentro dessas circunstâncias e sobre essa base. A miscigenação que largamente se praticou aqui corrigiu a distância social que de outro modo se teria conservado enorme entre a casa-grande e a mata tropical; entre a casa-grande e a senzala. O que a monocultura latifundiária realizou no sentido de aristocratização, extremando a sociedade brasileira em senhores e escravos, com uma rala e insignificante lambujem de gente livre sanduichada entre os extremos antagônicos, foi em grande parte contrariado pelos efeitos sociais da miscigenação. A índia e a negra-mina a princípio, depois a mulata, a cabrocha, a quadradona, a oitavona, tornando-se caseiras, concubinas e até esposas legítimas dos senhores brancos, agiram poderosamente no sentido de democratização social no Brasil. Entre os filhos mestiços, legítimos e mesmo ilegítimos, havidos delas pelos senhores brancos, subdividiu-se parte considerável das grandes propriedades, quebrando-se assim a força das sesmarias feudais e dos latifúndios do tamanho de reinos.”

É colocada aqui o que parece ser a tese central do livro: a miscigenação fez com que no Brasil existisse uma maior democracia, como se a miscigenação tivesse reduzido as desigualdades do país, inclusive as desigualdades raciais. Ao tentar colocar como positiva a miscigenação na formação do país, e ao renegar as teorias de degeneração, ele relativiza o estupro sofrido por diversas mulheres escravizadas, colocando as relações sexuais como redutoras das distâncias entre a casa-grande e a senzala, quando elas eram, na verdade, uma ferramenta de coerção, é um pouco complexo colocar tal fato como “zona de confraternização”.

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