É traçado um paralelo interessante
entre o Norte do Brasil e o Sul dos EUA: o autor segue o conceito de “lavoura
parasita da natureza” para falar do latifúndio escravocrata, achei o conceito
interessante pois contempla o fato de que, nesse tipo de propriedade, não
haviam ações que cuidavam da conservação da terra, sendo a agricultura mais uma
forma de degradar a natureza, quase que uma forma não renovável de obtenção de
energia.
Ao analisar a implantação da cana
como atividade econômica majoritária da colônia, o autor pontua que a
característica democrática do comércio no Brasil foi alterada, pois o comércio
de pau-brasil e de couro foram “mortos”, instaurando uma classe agricultora, da
qual faziam parte aqueles que tinham o capital para investir em tais
empreendimentos e não mais os aventureiros anteriores. O espaço que acabou
mantendo essa característica da livre competição foi o sertão.
Há, no prefácio, um panorama da
arquitetura colonial que analisa dois aspectos: a arquitetura religiosa e a
arquitetura da casa-grande. Esse panorama mostra quais relações sociais são
expressas nas construções do período, relacionando a forma da casa-grande com a
estabilidade que os senhores procuravam passar e colocando-a como fruto da
estrutura escravocrata e latifundiária (já que tanto na economia cafeeira
quanto na economia açucareira o modelo de casa era quase o mesmo).
O autor mostra então quais são os
empecilhos do seu estudo e quais são os possíveis lugares para encontro de
fonte para aqueles que desejam seguir os seus estudos, para isso, há um
contraponto entre a lógica protestante e a lógica católica e como a prática de
confissões do catolicismo, quando comparada com a escrita de diários dos
protestantes, acaba sendo um pouco pior para a historiografia, pois faz com que
o acesso do historiador à vida privada seja viável apenas por meio dos
documentos gerados na Inquisição.
Uma outra tese, que me agrada muito,
também abordada pelo autor é a da continuidade do latifúndio e das condições
escravas de trabalho: “Aliás, a monocultura latifundiária, mesmo depois de
abolida a escravidão, achou jeito de subsistir em alguns pontos do país, ainda
mais absorvente e esterilizante do que no antigo regime; e ainda mais feudal
nos abusos. Criando um proletariado de condições menos favoráveis de vida do
que a massa escrava. Roy Nash ficou surpreendido com o fato de haver terras no Brasil,
nas mãos de um homem só, maiores que Portugal inteiro: informaram-lhe que no Amazonas
os Costa Ferreira eram donos de uma propriedade de área mais extensa que a
Inglaterra, a Escócia e a Irlanda reunidas.”
Algo importante é a discordância de abordagem que levou o
autor a realizar seus estudos. A teoria que estava em voga na época era o
discurso médico da degeneração, causada, no Brasil, pela miscigenação, Freyre
discorda dessas teorias e acredita que deve-se analisar as coisas por um viés
mais social, vendo quais são as condições geradora de algumas realidades.
Ao tentar colocar a miscigenação
como algo positivo, Freyre comete algumas barbaridades, na minha opinião:
“A
escassez de mulheres brancas criou zonas de confraternização entre vencedores e
vencidos, entre senhores e escravos. Sem deixarem de ser relações – as dos
brancos com as mulheres de cor – de “superiores” com “inferiores e, no maior
número de casos, de senhores desabusados e sádicos com escravas passivas,
adoçaram-se, entretanto, com a necessidade experimentada por muitos colonos de
constituírem família dentro dessas circunstâncias e sobre essa base. A
miscigenação que largamente se praticou aqui corrigiu a distância social que de
outro modo se teria conservado enorme entre a casa-grande e a mata tropical;
entre a casa-grande e a senzala. O que a monocultura latifundiária realizou no
sentido de aristocratização, extremando a sociedade brasileira em senhores e
escravos, com uma rala e insignificante lambujem de gente livre sanduichada
entre os extremos antagônicos, foi em grande parte contrariado pelos efeitos
sociais da miscigenação. A índia e a negra-mina a princípio, depois a mulata, a
cabrocha, a quadradona, a oitavona, tornando-se caseiras, concubinas e até
esposas legítimas dos senhores brancos, agiram poderosamente no sentido de
democratização social no Brasil. Entre os filhos mestiços, legítimos e mesmo
ilegítimos, havidos delas pelos senhores brancos, subdividiu-se parte
considerável das grandes propriedades, quebrando-se assim a força das sesmarias
feudais e dos latifúndios do tamanho de reinos.”
É colocada aqui o que parece ser a tese central do livro:
a miscigenação fez com que no Brasil existisse uma maior democracia, como se a
miscigenação tivesse reduzido as desigualdades do país, inclusive as desigualdades
raciais. Ao tentar colocar como positiva a miscigenação na formação do país, e ao renegar as teorias de degeneração, ele relativiza o estupro sofrido por diversas
mulheres escravizadas, colocando as relações sexuais como redutoras das
distâncias entre a casa-grande e a senzala, quando elas eram, na verdade, uma
ferramenta de coerção, é um pouco complexo colocar tal fato como “zona de
confraternização”.
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