Antes de fazer a resenha desse livro, acho importante situar o meu lugar dentro da sociedade, como forma de esclarecer melhor qual o impacto desse livro sobre mim. Sou uma mulher negra de dezoito anos, filha miscigenada de pai negro (pai que também é filho da mesma mistura que eu) e mãe branca (mãe branca que teve três irmãos, todos negros), eu cresci vendo a desigualdade muito de perto.
Dos três irmãos da minha mãe, só um está vivo, as duas irmãs morreram jovens, uma de complicações do HIV e a outra de problemas cardíacos muito provavelmente desencadeados por uma vida sofrida. Em ambos os lados da família, o que se pode perceber na geração dos meus avós é o alcoolismo, minhas avós eram alcoólatras e deprimidas. Meus pais são acometidos também por alguns transtornos psiquiátricos, minha mãe tem depressão crônica e meu pai é alcoólatra e, o que eu acho provável, deprimido. Meu tio paterno, alcoólatra e deprimido, minhas tias todas tem algum nível de depressão. Meus irmãos todos tem algum problema de saúde mental, eu passo por momentos de tristeza que não consigo explicar e sinto que ainda não estou pronta pra procurar tratamento. Remédios psiquiátricos são algo comum na minha família há décadas, e minha mãe trabalha na área da saúde mental, tornando essa discussão ainda mais próxima da minha vida.
É importante dizer também que sou militante feminista e que reparo na enorme quantidade de mulheres (principalmente as negras) que foram enlouquecidas por esse mundo, percebo também que quanto mais entendo a crueldade das estruturas que nos envolvem, mais entro em espécies de colapsos mentais.
O livro Holocausto Brasileiro, da jornalista Daniela Arbex, fala da história do Colônia de Barbacena, hospital "psiquiátrico" que funcionou durante 80 anos no estado de Minas Gerais e que foi palco da vida e da morte de dezenas de milhares de pessoas, os relatos e questionamentos propostos no livro dizem muito a respeito da história do nosso país, da trajetória das ciências médicas ao longo do século XIX e das estruturas de exploração que embasam nossa sociedade.
Entendo os processos descritos no livro como irmãos da escravidão, pois a criação desse hospital psiquiátrico se dá quinze anos após a abolição e aqueles que são alvos das internações são todos aqueles que desafiam, questionam, atrapalham a ordem de alguma maneira. A primeira pergunta é, quem são essas pessoas? São os negros, alcoólatras, são as mulheres que não se submetem, as prostituídas, os vagabundos (aí entram novamente as pessoas negras desempregadas em um período pós-abolição), todos aqueles que são "indesejáveis".
As ciências sociais e a psiquiatria, ao longo do século XIX e durante a primeira metade do XX, tinham como discurso central as teorias sobre degeneração, que encaixavam um discurso médico e biológico nas análises dos fenômenos da sociedade: a explicação do crime por meio da frenologia, as doenças mentais, o crime, a pobreza como resultantes de uma degeneração das mentalidades. No Brasil esse discurso foi adaptado às teorias raciais: a razão da degeneração do país se encontrava na miscigenação tanto cultural quanto sexual. Essas teorias desencadearam um processo de higienização social, um dos alicerces dos princípios positivistas de "ordem e progresso", uma tentativa de transformar o Brasil em um país desenvolvido.
O Colônia fingia muito mal ser um local de tratamento e de cuidado: não haviam médicos, não haviam profissionais capacitados para estar ali, os pacientes não eram diagnosticados e também não tinham previsão de saída. O hospital era uma fábrica de mortes e, ao invés de tratar, acabava adoecendo as pessoas, que muitas vezes entravam lúcidas em suas dependências.
Entendo a grande massa de hospitais psiquiátricos como parte do encarceramento em massa da população jovem e negra, como meios de mascarar aquilo que a própria sociedade criou. Se criam hospitais, prisões, se coloca a polícia pra cometer assassinatos, todas formas de apagar socialmente as marcas deixadas pela escravidão e que continuam beneficiando setores da sociedade até hoje, por meio do racismo.
É nesse sentido que a luta antimanicomial deve estar aliada a luta abolicionista/minimalista penal, pois sendo dois braços de um mesmo processo histórico, devem se ajudar para que tais injustiças tenham fim. A abordagem do crime e da "loucura" tem que ser social, pois enquanto houver capitalismo, racismo e patriarcado haverá crime, pessoas enlouquecendo e pessoas se rebelando. Não podemos individualizar tais questões, não podemos colocar nas pessoas a culpa (como fazem os discursos biológicos), temos que ver formas de mudar as coisas.
*O texto tá muito confuso, infelizmente, queria que tivesse ficado miorzin mas #vamoquevamo
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