Hountondji, ao longo do texto, diz que os estudos sobre a
África são iniciados e controlados pelo ocidente e que seu motor faz parte de
um projeto político de acumulação do conhecimento, no qual a pesquisa e
conhecimento africanos são ou extraviados ou tem desde a sua produção um sentido
exteriorizado.
O autor demonstra que o leque de ciências denominadas estudos africanos são geralmente sobre
África e não de África e propõe uma visão abrangente e interdisciplinar
desse leque, para que o nome estudos
africanos tenha sentido em sua existência, por isso nos diz que essas
disciplinas se interrelacionam e são interdependentes, que se solidarizam entre
si.
O autor fala de seu local de filósofo e demonstra qual
crítica teceu a respeito dos estudos de filosofia africanos ao longo dos anos,
mostrando que o que se produzia não era filosofia e sim etnofilosofia, uma
reconstituição da mundivisão antepassada e dos pressupostos coletivos de
comunidades. O autor coloca esse fato como motivado pela visão historicamente
consolidada de que apenas alguém de fora poderia realizar a análise completa,
sistemática, daquilo que foi produzido de maneira não “autoconsciente” pelos
africanos. O autor busca, por meio dessa crítica, questionar a necessidade de
um distanciamento entre pesquisador e objeto, necessidade esta que se encontra
na base do pensamento científico ocidental, além de buscar situar o termo filosofia africana como sendo
simplesmente a filosofia produzida por africanos e não uma visão de mundo
compartilhada por todos os africanos, colocando o pensamento e cultura
africanas como pensamentos vivos, capazes de se transformar.
Para Hountondji, a ideia da produção massiva da descrição
de mundivisão tem a ver com as ideias colonialistas, de um conhecimento
produzido para facilitar a dominação de um povo, e é daí que surge a
necessidade da construção de um tipo comum, da construção da unanimidade, por
isso realiza críticas incisivas a esse tipo de produção.
É por pensar na filosofia africana
enquanto organismo vivo que o autor estabelece uma distinção entre africanos e
africanistas, a distinção estabelecida tornou possível observar quais eram as
tensões, contradições internas e debates que existem nesse campo, mostrando que
não existe, em África, uma unanimidade dos pensamentos e colocando em choque
uma ideia de etnofilosofia.
A ideia de uma não unanimidade do
pensamento africano era vista como perigosa e é por isso que o autor define
essa não unanimidade como pluralismo,
contrapondo a ilusão unânime que se
busca fomentar ao estudar África, o autor coloca esse pluralismo como fator de
progresso para a produção de conhecimento africana.
A proposta do autor é que se construa na África uma
tradição de pensamento similar à Alemã, proposta por Humboldt, que se pauta em
um debate interno, endógino, que cresce dentro de si por meio do diálogo entre
pares, é dessa forma que propõe uma investigação científica autônoma, definida
não pelo ocidente e nem para o ocidente, mas pelas necessidades e vontades
africanas. Essa tradição de conhecimento se daria em torno de dois pilares: a
apropriação do conhecimento disponível e a reapropriação do próprio
conhecimento, focando na produção e transformação do conhecimento africano.
O autor, ao propor a criação de uma
agenda africana, motivada pelos interesses, vontades e necessidades africanos,
cujos debates são realizados de maneira endógina e cujo conteúdo vindo do
ocidente é apropriado a partir da
bagagem africana, quebra com uma lógica do reconhecimento, o que interessa não
é se mostrar legítimo e capaz para o outro e sim usar sua capacidade para si
mesmo, não é construir um panorama para que o outro estude e sim produzir,
revisar para si o conhecimento que já foi produzido, é nesse sentido que
Hountondji retoma ideias panafricanas e trabalha a africanidade de uma maneira
não essencialista ou reducionista.
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