terça-feira, 15 de novembro de 2016

“Conhecimento de África, conhecimento de Africanos: Duas perspectivas sobre os Estudos Africanos” – Paulin J. Hountondji



Hountondji, ao longo do texto, diz que os estudos sobre a África são iniciados e controlados pelo ocidente e que seu motor faz parte de um projeto político de acumulação do conhecimento, no qual a pesquisa e conhecimento africanos são ou extraviados ou tem desde a sua produção um sentido exteriorizado.
O autor demonstra que o leque de ciências denominadas estudos africanos são geralmente sobre África e não de África e propõe uma visão abrangente e interdisciplinar desse leque, para que o nome estudos africanos tenha sentido em sua existência, por isso nos diz que essas disciplinas se interrelacionam e são interdependentes, que se solidarizam entre si.
O autor fala de seu local de filósofo e demonstra qual crítica teceu a respeito dos estudos de filosofia africanos ao longo dos anos, mostrando que o que se produzia não era filosofia e sim etnofilosofia, uma reconstituição da mundivisão antepassada e dos pressupostos coletivos de comunidades. O autor coloca esse fato como motivado pela visão historicamente consolidada de que apenas alguém de fora poderia realizar a análise completa, sistemática, daquilo que foi produzido de maneira não “autoconsciente” pelos africanos. O autor busca, por meio dessa crítica, questionar a necessidade de um distanciamento entre pesquisador e objeto, necessidade esta que se encontra na base do pensamento científico ocidental, além de buscar situar o termo filosofia africana como sendo simplesmente a filosofia produzida por africanos e não uma visão de mundo compartilhada por todos os africanos, colocando o pensamento e cultura africanas como pensamentos vivos, capazes de se transformar.
Para Hountondji, a ideia da produção massiva da descrição de mundivisão tem a ver com as ideias colonialistas, de um conhecimento produzido para facilitar a dominação de um povo, e é daí que surge a necessidade da construção de um tipo comum, da construção da unanimidade, por isso realiza críticas incisivas a esse tipo de produção.
            É por pensar na filosofia africana enquanto organismo vivo que o autor estabelece uma distinção entre africanos e africanistas, a distinção estabelecida tornou possível observar quais eram as tensões, contradições internas e debates que existem nesse campo, mostrando que não existe, em África, uma unanimidade dos pensamentos e colocando em choque uma ideia de etnofilosofia.
            A ideia de uma não unanimidade do pensamento africano era vista como perigosa e é por isso que o autor define essa não unanimidade como pluralismo, contrapondo a ilusão unânime que se busca fomentar ao estudar África, o autor coloca esse pluralismo como fator de progresso para a produção de conhecimento africana.
A proposta do autor é que se construa na África uma tradição de pensamento similar à Alemã, proposta por Humboldt, que se pauta em um debate interno, endógino, que cresce dentro de si por meio do diálogo entre pares, é dessa forma que propõe uma investigação científica autônoma, definida não pelo ocidente e nem para o ocidente, mas pelas necessidades e vontades africanas. Essa tradição de conhecimento se daria em torno de dois pilares: a apropriação do conhecimento disponível e a reapropriação do próprio conhecimento, focando na produção e transformação do conhecimento africano.

            O autor, ao propor a criação de uma agenda africana, motivada pelos interesses, vontades e necessidades africanos, cujos debates são realizados de maneira endógina e cujo conteúdo vindo do ocidente é apropriado a partir da bagagem africana, quebra com uma lógica do reconhecimento, o que interessa não é se mostrar legítimo e capaz para o outro e sim usar sua capacidade para si mesmo, não é construir um panorama para que o outro estude e sim produzir, revisar para si o conhecimento que já foi produzido, é nesse sentido que Hountondji retoma ideias panafricanas e trabalha a africanidade de uma maneira não essencialista ou reducionista.

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