terça-feira, 19 de julho de 2016

esperando


todos os meus pensamentos têm ficado em segundo plano. nos últimos dias eu só consigo pensar nele, aí o coração acelera e me falta um pouco de ar.



agora, esperando, com tão pouca distância entre a gente, certas coisas não param de passar pela minha cabeça: como ele me enxerga? o que ele sente por mim? como vai ser encontrá-lo e matar as saudades? será que ele mudou muito? quanto vou sofrer com a nova despedida? quantas minas vou ter que ver ele pegando nos rolês? quando vou conseguir partir pra outras histórias? quando vão APARECER outras histórias?



porque, quando ele apareceu, meu coração já estava vazio tinha um tempo, e nada surgia na minha vida, então foi como um sopro de, sei lá, alegria, eu acho.



e fiquei pensando em como a vida era cruel em me apresentar alguém que nunca me pertenceria, quando eu sou exatamente o tipo de pessoa que precisa desse sentimento de posse.


e ele me deixa tão insegura que nesse momento eu estou nervosa e com medo de que ele me deixe esperando
(talvez esperando por ele pra sempre, isso é assustador demais, porque o que eu prevejo pra minha vida é exatamente isso: esperar por alguém que nunca chega.)

quarta-feira, 6 de julho de 2016

Lendo Casa-grande & senzala: o primeiro capítulo

Características gerais da colonização portuguesa do Brasil: formação de uma sociedade agrária, escravocrata e híbrida
Vai ser feito um apanhado das características dessa sociedade que tem uma formação de estrutura agrária, de técnica de exploração econômica escravocrata e híbrida de índio, negro e português em sua composição.
A primeira tese apresentada é de que os portugueses teriam uma predisposição para essa colonização híbrida, pois possuíam em sua formação muito desse hibridismo e sempre foram uma nação sempre indecisa entre Europa e África, caracterizando um “vago impreciso”, algo que não pertence a nenhuma das duas realidades, atlântico e móvel por natureza e, assim, realizadores de um domínio continental que tem valores e estruturas mais flexíveis e adaptáveis.
A conseqüência foi a execução de um tipo de colonização que, devido às suas predisposições, superou empecilhos como nenhuma outra, tendo um caráter original e criador. É mostrado que a colonização da Argentina e dos EUA, pelos espanhóis e ingleses, foi mais fácil, pois o clima desses territórios em muito se assemelhavam ao clima europeu, coisa que não aconteceu no Brasil.
O português colonizador foi o primeiro a realmente se estabelecer em uma colônia, transportando seus cabedais para os trópicos, assim como suas famílias, quando não eram essas formadas aqui mesmo – ou, o que autor afirma ter sido comum, coexistiam duas famílias, a estrutura da colônia era polígama, e eu vou falar sobre isso mais pra frente. Essa característica faz com que a família se torne o fator colonizador do Brasil, a família se torna a menor célula constituinte dessa sociedade.
É pontuado um aspecto da colonização que já tive contato em outros textos: a tendência da colônia era a de se derramar – espalhar as pessoas ao longo do território – e não de se adensar. Esse fato gera algumas interpretações no debate historiográfico, alguns historiadores afirmam que foi um modelo de colonização que gerou um despovoamento inicial na colônia, pois não havia braços para tomarem todo aquele território, outros dizem que não, foi a forma que se encontrou e dominar o espaço, senti que o autor fica no meio termo, ele diz que primeiro se domina o território horizontalmente e depois em sua profundidade e quantidade. Importante mencionar que a ferramenta de unidade do projeto colonizador era a religião católica.
Retomando um pouco o conceito de lavoura parasita da natureza vai se falar um pouco sobre os hábitos alimentares da colônia e é mostrado que a dieta com a qual as pessoas viviam na época era tenebrosa: a classe senhorial e os escravos viviam bem alimentados – no sentido de não passavam fome e de tinham uma alimentação um pouco mais equilibrada que a dos outros, mas não era uma boa alimentação – enquanto a população média, não inserida na grande lavoura escravocrata, passava muita fome. A economia se organizou ao redor da economia açucareira de tal forma que pouco se produziam os itens básicos de sobrevivência, foi necessário regulamentar a produção de alimentos para conseguir aliviar um pouco da escassez gerada pela monocultura – e a situação persistiu até o século XVIII (aí se pontua também o costume que as pessoas tinham de fazer jejuns religiosos, achei muito interessante). (e em São Paulo essas questões eram mais equilibradas)
Um trecho, localizado na página 79, que achei que explica bem essa questão da lavoura exploratória, que mais rouba do que gera, é esse aqui:
“O colonizador português do Brasil foi o primeiro entre os colonizadores modernos a deslocar a base da colonização tropical da pura extração de riqueza mineral, vegetal ou animal – o ouro, a prata, a madeira, o âmbar, o marfim – para a de criação local de riqueza. Ainda que riqueza – a criada por eles sob a pressão das circunstâncias americanas – à custa do trabalho escravo: tocada, portanto, daquela perversão de instinto econômico que cedo desviou o português da atividade de produzir valores para a de explorá-los.
Semelhante deslocamento, embora imperfeitamente realizado, importou em uma nova fase e em um novo tipo de colonização: a “colônia de plantação”, caracterizada pela base agrícola e pela permanência do colono na terra, em vez do seu fortuito contato com o meio e com a gente nativa. No Brasil iniciaram os portugueses a colonização em larga escala dos trópicos por uma técnica econômica e por uma política social inteiramente novas: apenas esboçadas nas ilhas subtropicais do Atlântico. A primeira: a utilização e o desenvolvimento de riqueza vegetal pelo capital e pelo esforço do particular; a agricultura; a sesmaria; a grande lavoura escravocrata. A segunda: o aproveitamento da gente nativa, principalmente da mulher, não só como instrumento de trabalho mas como elemento de formação da família. Semelhante política foi bem diversa da de extermínio ou segregação seguida por largo tempo no México e no Peru pelos espanhóis, exploradores de minas, e sempre e desbragadamente na América do Norte pelos ingleses.
A sociedade colonial no Brasil, principalmente em Pernambuco e no Recôncavo da Bahia, desenvolveu-se patriarcal e aristocraticamente à sombra das grandes plantações de açúcar, não em grupos a esmo e instáveis; em casas-grandes de taipa ou de pedra e cal, não em palhoças de aventureiros. Observa Oliveira Martins que a população colonial no Brasil, “especialmente ao norte, constituiu-se aristocraticamente, isto é, as casas de Portugal enviaram ramos para o ultramar; desde todo o princípio a colônia apresentou um aspecto diverso das turbulentas imigrações dos castelhanos na América Central e Ocidental.”

A questão sexual
O autor coloca a capacidade de se misturar com outras raças por meio do sexo como uma das maneiras de driblar a sua falta de capital humano, uma capacidade gerada por essa pré-disposição ao hibridismo, citando que a preferência sexual do português é a mulher moura, ou de pele mais escura, tendo encontrado nas índias a materialização de um fetiche prévio “tara étnica inicial” e tendo, através das primeiras relações, sifilizado a população nativa.
Sobre a mistura sexual e as relações existentes nesses relacionamentos, temos esse trecho, localizado na página 113:
“O intercurso sexual entre o conquistador europeu e a mulher índia não foi apenas perturbado pela sífilis e por doenças européias de fácil contágio venéreo: verificou-se – o que depois se tornaria extensivo às relações dos senhores com as escravas negras – em circunstâncias desfavoráveis à mulher. Uma espécie de sadismo do branco e de masoquismo da índia ou da negra terá predominado nas relações sexuais como nas sociais do europeu com as mulheres das raças submetidas ao seu domínio. O furor femeeiro do português se terá exercido sobre vítimas nem sempre confraternizantes no gozo; ainda que se saiba de caos de pura confraternização do sadismo do conquistador branco com o masoquismo da mulher indígena ou da negra. Isso quanto ao sadismo de homem para mulher – não raro precedido pelo de senhor para moleque. Através da submissão do moleque, seu companheiro de brinquedos e expressivamente chamado leva-pancadas, iniciou-se muitas vezes o menino branco no amor físico.
Quase que do moleque leva-pancadas se pode dizer que desempenhou entre as grandes famílias escravocratas do Brasil as mesmas funções de paciente do senhor moço que na organização patrícia do Império Romano o escravo púbere escolhido para companheiro do menino aristocrata: espécie de vitime, ao mesmo tempo que camarada de brinquedos,, em que se exerciam os “premiers élans génésiques” do filho-família.”
Então ao mesmo tempo em que fala de uma estrutura desfavorável à mulher, Freyre coloca que alguns desses momento foram de pura confraternização entre aquele que gosta de maltratar e aquele que gosta de ser maltratado, veja bem, não estamos falando de pessoas com poderes equivalentes, muito pelo contrário, estamos falando de casos em que aquele que é o sádico é quem é sinônimo de poder e aquele que é o “masoquista” é aquilo que é sinônimo ABSOLUTO de submissão. E aí é também apontada a construção social para o mantimento do racismo enquanto, para além de um sistema de exploração, um sistema moral e de ódio que garantia a própria existência dessa exploração – essa parte dá pra relacionar com aquela cena de Memórias Póstumas, em que o Brás brinca de cavalinho com o menino escravo e bate nele com chicotada, a construção do sadismo desde a infância, um modo de incutir tais valores na mente daqueles que serão a próxima geração da classe senhorial.
Na página 115 o autor faz uma análise mais geral da sociedade escravocrata e pós-escravismo:
“Na verdade, o equilíbrio continua a ser entre as realidades tradicionais e profundas: sadistas e masoquistas, senhores e escravos, doutores e analfabetos, indivíduos de cultura predominantemente europeia e outros de cultura principalmente africana e ameríndia. E não sem certas vantagens, as de uma dualidade não de todo prejudicial à nossa cultura em formação, enriquecida de um lado pela espontaneidade, pelo frescor de imaginação e emoção do grande número e, de outro lado, pelo contato, através das elites, com a ciência, com a técnica e com o pensamento adiantado da Europa. Talvez em parte alguma se esteja verificando com igual liberalidade o encontro, a intercomunicação e até a fusão harmoniosa de tradições diversas, ou antes, antagônicas, de cultura, como no Brasil. É verdade que o vácuo entre os dois extremos ainda é enorme; e deficiente a muitos respeitos a intercomunicação entre duas tradições de cultura. Mas não se pode acusar de rígido nem de falta de mobilidade vertical – como diria Sorokin – o regime brasileiro, em vários sentidos sociais um dos mais democráticos, flexíveis e plásticos.”
Ao mesmo tempo em que fala de equilíbrio, algumas páginas antes no capítulo:
“Com relação ao Brasil, que o diga o ditado: “Branca para casar, mulata para f..., negra para trabalhar”; ditado em que se sente ao lado do convencionalismo social da superioridade da mulher branca e da inferioridade da preta, a preferência sexual pela mulata.”
 Como se coloca a palavra “equilíbrio” para narrar uma realidade camuflada por essa miscigenação? Não sinto a miscigenação como um diminuidor de desigualdades e sim como um camuflador de estruturas de exploração onde o sexo é usado como dominação e como forma de embranquecimento de gerações.


Fora isso, senti que, apesar de focar no social, muitos dos estudos apresentados e endossados tem uma grande carga de abordagem biológica. Concluindo, sinto que a obra traz um panorama muito bom do pensamento científico da época, nas notas de rodapé é bem presente o debate historiográfico em torno das questões abordadas.

segunda-feira, 4 de julho de 2016

Lendo Casa-grande & Senzala: o prefácio da primeira edição

            É traçado um paralelo interessante entre o Norte do Brasil e o Sul dos EUA: o autor segue o conceito de “lavoura parasita da natureza” para falar do latifúndio escravocrata, achei o conceito interessante pois contempla o fato de que, nesse tipo de propriedade, não haviam ações que cuidavam da conservação da terra, sendo a agricultura mais uma forma de degradar a natureza, quase que uma forma não renovável de obtenção de energia.
            Ao analisar a implantação da cana como atividade econômica majoritária da colônia, o autor pontua que a característica democrática do comércio no Brasil foi alterada, pois o comércio de pau-brasil e de couro foram “mortos”, instaurando uma classe agricultora, da qual faziam parte aqueles que tinham o capital para investir em tais empreendimentos e não mais os aventureiros anteriores. O espaço que acabou mantendo essa característica da livre competição foi o sertão.
            Há, no prefácio, um panorama da arquitetura colonial que analisa dois aspectos: a arquitetura religiosa e a arquitetura da casa-grande. Esse panorama mostra quais relações sociais são expressas nas construções do período, relacionando a forma da casa-grande com a estabilidade que os senhores procuravam passar e colocando-a como fruto da estrutura escravocrata e latifundiária (já que tanto na economia cafeeira quanto na economia açucareira o modelo de casa era quase o mesmo).
            O autor mostra então quais são os empecilhos do seu estudo e quais são os possíveis lugares para encontro de fonte para aqueles que desejam seguir os seus estudos, para isso, há um contraponto entre a lógica protestante e a lógica católica e como a prática de confissões do catolicismo, quando comparada com a escrita de diários dos protestantes, acaba sendo um pouco pior para a historiografia, pois faz com que o acesso do historiador à vida privada seja viável apenas por meio dos documentos gerados na Inquisição.
            Uma outra tese, que me agrada muito, também abordada pelo autor é a da continuidade do latifúndio e das condições escravas de trabalho: “Aliás, a monocultura latifundiária, mesmo depois de abolida a escravidão, achou jeito de subsistir em alguns pontos do país, ainda mais absorvente e esterilizante do que no antigo regime; e ainda mais feudal nos abusos. Criando um proletariado de condições menos favoráveis de vida do que a massa escrava. Roy Nash ficou surpreendido com o fato de haver terras no Brasil, nas mãos de um homem só, maiores que Portugal inteiro: informaram-lhe que no Amazonas os Costa Ferreira eram donos de uma propriedade de área mais extensa que a Inglaterra, a Escócia e a Irlanda reunidas.”
Algo importante é a discordância de abordagem que levou o autor a realizar seus estudos. A teoria que estava em voga na época era o discurso médico da degeneração, causada, no Brasil, pela miscigenação, Freyre discorda dessas teorias e acredita que deve-se analisar as coisas por um viés mais social, vendo quais são as condições geradora de algumas realidades.
            Ao tentar colocar a miscigenação como algo positivo, Freyre comete algumas barbaridades, na minha opinião:
“A escassez de mulheres brancas criou zonas de confraternização entre vencedores e vencidos, entre senhores e escravos. Sem deixarem de ser relações – as dos brancos com as mulheres de cor – de “superiores” com “inferiores e, no maior número de casos, de senhores desabusados e sádicos com escravas passivas, adoçaram-se, entretanto, com a necessidade experimentada por muitos colonos de constituírem família dentro dessas circunstâncias e sobre essa base. A miscigenação que largamente se praticou aqui corrigiu a distância social que de outro modo se teria conservado enorme entre a casa-grande e a mata tropical; entre a casa-grande e a senzala. O que a monocultura latifundiária realizou no sentido de aristocratização, extremando a sociedade brasileira em senhores e escravos, com uma rala e insignificante lambujem de gente livre sanduichada entre os extremos antagônicos, foi em grande parte contrariado pelos efeitos sociais da miscigenação. A índia e a negra-mina a princípio, depois a mulata, a cabrocha, a quadradona, a oitavona, tornando-se caseiras, concubinas e até esposas legítimas dos senhores brancos, agiram poderosamente no sentido de democratização social no Brasil. Entre os filhos mestiços, legítimos e mesmo ilegítimos, havidos delas pelos senhores brancos, subdividiu-se parte considerável das grandes propriedades, quebrando-se assim a força das sesmarias feudais e dos latifúndios do tamanho de reinos.”

É colocada aqui o que parece ser a tese central do livro: a miscigenação fez com que no Brasil existisse uma maior democracia, como se a miscigenação tivesse reduzido as desigualdades do país, inclusive as desigualdades raciais. Ao tentar colocar como positiva a miscigenação na formação do país, e ao renegar as teorias de degeneração, ele relativiza o estupro sofrido por diversas mulheres escravizadas, colocando as relações sexuais como redutoras das distâncias entre a casa-grande e a senzala, quando elas eram, na verdade, uma ferramenta de coerção, é um pouco complexo colocar tal fato como “zona de confraternização”.

sábado, 2 de julho de 2016

Lendo Casa-grande & Senzala, de Gilberto Freire

            Vou tentar fazer aqui um diário da minha leitura, uma espécie de resumo, só que com as minhas impressões, meus pensamentos. Vou tentar ir resumindo tudo por capítulos e ver se consigo chegar a algumas conclusões.
            Esse livro é centro de muitas discussões no curso que faço – História. De um lado as críticas assertivas, do outro um endeusamento, no meio aqueles que clamam por neutralidade “sim, merece críticas, mas não podemos deixar de reconhecer o valor da obra.”, e todas essas discussões tem como pano de fundo a construção de um currículo acadêmico (devo dizer que há um bom tempo deixei de crer que o caminho do meio é sempre o mais sensato). Vou usar as minhas férias para ler essa obra e poder tirar as minhas próprias opiniões, saber o que é isso que todos criticam.

O texto inicial do FHC
            Não simpatizo com o FHC, então já estou entrando nesse texto com o pé bem atrás. O texto começa alegando que o Gilberto Freyre realmente merece todas as críticas que recebeu, porém que o livro é inegavelmente eterno, o que é algo que eu até concordo, deu base pra muita coisa boa e ruim na academia. Coloca o autor como um gênio iluminado, esse papel do gênio é algo que eu preciso ler, pra conseguir entender melhor, até agora tudo que sei é: o gênio, enquanto tropo, só existe em uma sociedade ocidental branca.
            “A história que está sendo contada é a história de muitos de nós, de quase todos nós, senhores e escravos. Não é por certo a dos imigrantes. Nem a das populações autóctones. Mas a história dos portugueses, de seus descendentes e dos negros, que se não foi exatamente como aparece no livro, poderia ter sido a história de personagens ambíguos que, se abominavam certas práticas da sociedade escravocrata, se embeveciam de outra, com as mais doces, as mais sensuais.”
            Me deu a impressão de que o que ele quer dizer aqui é que os escravos, apesar de sofrerem com a escravidão, se “embeveciam” dela, por meio do sexo. Logo em seguida é dito que na história de opostos que é contada “os contrários se justapõem, frequentemente de forma ambígua, e convivem em harmonia.”, ou seja, que no Brasil há a convivência harmônica entre explorador e explorado.

            Há um apanhado breve de como a academia absorveu a obra, mas com críticas sempre sutis, de dois homens da mesma classe talvez, não sei, me pareceu que a ideia chave do autor é que apesar de não ser bacana o mito da democracia racial, no Brasil ele tem um grande fundo de verdade, e nesse sentido eu tendo a discordar.

Resenha: Holocausto Brasileiro

Antes de fazer a resenha desse livro, acho importante situar o meu lugar dentro da sociedade, como forma de esclarecer melhor qual o impacto desse livro sobre mim. Sou uma mulher negra de dezoito anos, filha miscigenada de pai negro (pai que também é filho da mesma mistura que eu) e mãe branca (mãe branca que teve três irmãos, todos negros), eu cresci vendo a desigualdade muito de perto.
Dos três irmãos da minha mãe, só um está vivo, as duas irmãs morreram jovens, uma de complicações do HIV e a outra de problemas cardíacos muito provavelmente desencadeados por uma vida sofrida. Em ambos os lados da família, o que se pode perceber na geração dos meus avós é o alcoolismo, minhas avós eram alcoólatras e deprimidas. Meus pais são acometidos também por alguns transtornos psiquiátricos, minha mãe tem depressão crônica e meu pai é alcoólatra e, o que eu acho provável, deprimido. Meu tio paterno, alcoólatra e deprimido, minhas tias todas tem algum nível de depressão. Meus irmãos todos tem algum problema de saúde mental, eu passo por momentos de tristeza que não consigo explicar e sinto que ainda não estou pronta pra procurar tratamento. Remédios psiquiátricos são algo comum na minha família há décadas, e minha mãe trabalha na área da saúde mental, tornando essa discussão ainda mais próxima da minha vida.
É importante dizer também que sou militante feminista e que reparo na enorme quantidade de mulheres (principalmente as negras) que foram enlouquecidas por esse mundo, percebo também que quanto mais entendo a crueldade das estruturas que nos envolvem, mais entro em espécies de colapsos mentais.
O livro Holocausto Brasileiro, da jornalista Daniela Arbex, fala da história do Colônia de Barbacena, hospital "psiquiátrico" que funcionou durante 80 anos no estado de Minas Gerais e que foi palco da vida e da morte de dezenas de milhares de pessoas, os relatos e questionamentos propostos no livro dizem muito a respeito da história do nosso país, da trajetória das ciências médicas ao longo do século XIX e das estruturas de exploração que embasam nossa sociedade.
Entendo os processos descritos no livro como irmãos da escravidão, pois a criação desse hospital psiquiátrico se dá quinze anos após a abolição e aqueles que são alvos das internações são todos aqueles que desafiam, questionam, atrapalham a ordem de alguma maneira. A primeira pergunta é, quem são essas pessoas? São os negros, alcoólatras, são as mulheres que não se submetem, as prostituídas, os vagabundos (aí entram novamente as pessoas negras desempregadas em um período pós-abolição), todos aqueles que são "indesejáveis".
As ciências sociais e a psiquiatria, ao longo do século XIX e durante a primeira metade do XX, tinham como discurso central as teorias sobre degeneração, que encaixavam um discurso médico e biológico nas análises dos fenômenos da sociedade: a explicação do crime por meio da frenologia, as doenças mentais, o crime, a pobreza como resultantes de uma degeneração das mentalidades. No Brasil esse discurso foi adaptado às teorias raciais: a razão da degeneração do país se encontrava na miscigenação tanto cultural quanto sexual. Essas teorias desencadearam um processo de higienização social, um dos alicerces dos princípios positivistas de "ordem e progresso", uma tentativa de transformar o Brasil em um país desenvolvido.
O Colônia fingia muito mal ser um local de tratamento e de cuidado: não haviam médicos, não haviam profissionais capacitados para estar ali, os pacientes não eram diagnosticados e também não tinham previsão de saída. O hospital era uma fábrica de mortes e, ao invés de tratar, acabava adoecendo as pessoas, que muitas vezes entravam lúcidas em suas dependências.
Entendo a grande massa de hospitais psiquiátricos como parte do encarceramento em massa da população jovem e negra, como meios de mascarar aquilo que a própria sociedade criou. Se criam hospitais, prisões, se coloca a polícia pra cometer assassinatos, todas formas de apagar socialmente as marcas deixadas pela escravidão e que continuam beneficiando setores da sociedade até hoje, por meio do racismo.
É nesse sentido que a luta antimanicomial deve estar aliada a luta abolicionista/minimalista penal, pois sendo dois braços de um mesmo processo histórico, devem se ajudar para que tais injustiças tenham fim. A abordagem do crime e da "loucura" tem que ser social, pois enquanto houver capitalismo, racismo e patriarcado haverá crime, pessoas enlouquecendo e pessoas se rebelando. Não podemos individualizar tais questões, não podemos colocar nas pessoas a culpa (como fazem os discursos biológicos), temos que ver formas de mudar as coisas.

*O texto tá muito confuso, infelizmente, queria que tivesse ficado miorzin mas #vamoquevamo