veio o 29 e eu mudei
veio o 30 e eu mudei de novo
veio o 31 e aí era esperado que eu
mudasse mas a mudança tinha vindo
antes e o 1 já era 2 na minha
cabeça e o passado que eu achei que era
bom foi visto com novas
lentes e parecia ser mais
complexo do que eu achei parecia
ser cheio de imagens compactadas que eu
precisava olhar com mais
cuidado eu peguei então todos os
óculos e tentei afastar todas as
neblinas mas ele custa a ficar
nítido e ele precisa ficar
nítido pra iluminar
o futuro e eu estou aqui solta porém
mudando não sei como não sei
por quê, eu só estou
mudando de um jeito que eu ainda não
entendi e o 29 que devia ter me feito
completa me tornou ainda mais
vazia e eu busco me preencher mas
fico mais vazia e acho que logo vou
me tornar uma casca cheia de
nada.
Nunca Mais Te Pago Um Sorvete
sábado, 21 de janeiro de 2017
quinta-feira, 29 de dezembro de 2016
quarta-feira, 28 de dezembro de 2016
foi
foi-se tão rápido quanto veio
deixou pra trás memórias
que se esvaem com a mesma rapidez
da sua fulgás passagem
memórias tão breves, tão tolas
que me sinto estúpida tentando, em vão
segurá-las entre meus dedos
tentando, em vão
(res)significar seus gestos
já não enxergo direito seu rosto
não reconstituo sua voz ou seu cheiro
lembro bem do seu toque
dos círculos de seus dedos sobre a minha pele
do gosto da saliva e do som da respiração
do rosnado e do gemido rouco
da risada e do conforto
espero de verdade que retorne
mas se não retornar
foi o que foi
ficarei feliz se ao menos
retornar em novas faces, novas vidas
terça-feira, 15 de novembro de 2016
“Conhecimento de África, conhecimento de Africanos: Duas perspectivas sobre os Estudos Africanos” – Paulin J. Hountondji
Hountondji, ao longo do texto, diz que os estudos sobre a
África são iniciados e controlados pelo ocidente e que seu motor faz parte de
um projeto político de acumulação do conhecimento, no qual a pesquisa e
conhecimento africanos são ou extraviados ou tem desde a sua produção um sentido
exteriorizado.
O autor demonstra que o leque de ciências denominadas estudos africanos são geralmente sobre
África e não de África e propõe uma visão abrangente e interdisciplinar
desse leque, para que o nome estudos
africanos tenha sentido em sua existência, por isso nos diz que essas
disciplinas se interrelacionam e são interdependentes, que se solidarizam entre
si.
O autor fala de seu local de filósofo e demonstra qual
crítica teceu a respeito dos estudos de filosofia africanos ao longo dos anos,
mostrando que o que se produzia não era filosofia e sim etnofilosofia, uma
reconstituição da mundivisão antepassada e dos pressupostos coletivos de
comunidades. O autor coloca esse fato como motivado pela visão historicamente
consolidada de que apenas alguém de fora poderia realizar a análise completa,
sistemática, daquilo que foi produzido de maneira não “autoconsciente” pelos
africanos. O autor busca, por meio dessa crítica, questionar a necessidade de
um distanciamento entre pesquisador e objeto, necessidade esta que se encontra
na base do pensamento científico ocidental, além de buscar situar o termo filosofia africana como sendo
simplesmente a filosofia produzida por africanos e não uma visão de mundo
compartilhada por todos os africanos, colocando o pensamento e cultura
africanas como pensamentos vivos, capazes de se transformar.
Para Hountondji, a ideia da produção massiva da descrição
de mundivisão tem a ver com as ideias colonialistas, de um conhecimento
produzido para facilitar a dominação de um povo, e é daí que surge a
necessidade da construção de um tipo comum, da construção da unanimidade, por
isso realiza críticas incisivas a esse tipo de produção.
É por pensar na filosofia africana
enquanto organismo vivo que o autor estabelece uma distinção entre africanos e
africanistas, a distinção estabelecida tornou possível observar quais eram as
tensões, contradições internas e debates que existem nesse campo, mostrando que
não existe, em África, uma unanimidade dos pensamentos e colocando em choque
uma ideia de etnofilosofia.
A ideia de uma não unanimidade do
pensamento africano era vista como perigosa e é por isso que o autor define
essa não unanimidade como pluralismo,
contrapondo a ilusão unânime que se
busca fomentar ao estudar África, o autor coloca esse pluralismo como fator de
progresso para a produção de conhecimento africana.
A proposta do autor é que se construa na África uma
tradição de pensamento similar à Alemã, proposta por Humboldt, que se pauta em
um debate interno, endógino, que cresce dentro de si por meio do diálogo entre
pares, é dessa forma que propõe uma investigação científica autônoma, definida
não pelo ocidente e nem para o ocidente, mas pelas necessidades e vontades
africanas. Essa tradição de conhecimento se daria em torno de dois pilares: a
apropriação do conhecimento disponível e a reapropriação do próprio
conhecimento, focando na produção e transformação do conhecimento africano.
O autor, ao propor a criação de uma
agenda africana, motivada pelos interesses, vontades e necessidades africanos,
cujos debates são realizados de maneira endógina e cujo conteúdo vindo do
ocidente é apropriado a partir da
bagagem africana, quebra com uma lógica do reconhecimento, o que interessa não
é se mostrar legítimo e capaz para o outro e sim usar sua capacidade para si
mesmo, não é construir um panorama para que o outro estude e sim produzir,
revisar para si o conhecimento que já foi produzido, é nesse sentido que
Hountondji retoma ideias panafricanas e trabalha a africanidade de uma maneira
não essencialista ou reducionista.
quarta-feira, 5 de outubro de 2016
Exclusão
Artistas
Mesmo os mais medíocres
Produtores de pastiches
Genéricos em sua alma
Continuam artistas
E artistas sendo
Gozam da genialidade que
Só aos artistas cabe
Das visões que
Só aos artistas pertencem
Eu, por não ser artista
Preciso me tornar mil vezes mais genial
Para fazer ser vista a arte da minha concretude
Mesmo os mais medíocres
Produtores de pastiches
Genéricos em sua alma
Continuam artistas
E artistas sendo
Gozam da genialidade que
Só aos artistas cabe
Das visões que
Só aos artistas pertencem
Eu, por não ser artista
Preciso me tornar mil vezes mais genial
Para fazer ser vista a arte da minha concretude
quinta-feira, 22 de setembro de 2016
Lendo Casa-Grande & Senzala: o quarto capítulo
O escravo negro na vida sexual e de família do brasileiro
Logo no começo do capítulo, na página 367, podemos
perceber que o texto é feito de e para brancos (eu arrisco dizer que mais do
que brancos, para a parcela específica da branquitude que fez parte da classe
senhorial): “Na ternura, na mímica excessiva, no catolicismo em que se deliciam
nossos sentidos, na música, no andar, na fala, no canto de ninar menino
pequeno, em tudo que é epressão sincera de vida, trazemos quase todos a marca
da influência negra. Da escrava que nos embalou. Que nos deu de mamar. Que nos
deu de comer, ela própria amolengando na mão o bolão de comida. Da negra velha
que nos contou as primeiras histórias de bicho e de mal-assombrado. Da mulata
que nos tirou o primeiro bicho-de-pé de uma coceira tão boa. Da que nos iniciou
no amor físico e nos transmitiu, ao ranger da cama-de-vento, a primeira
sensação completa de homem. Do moleque que foi o nosso primeiro companheiro de
brinquedo.”
O primeiro ponto defendido é o de que todos no Brasil tem
um pouco de índio e de negro dentro de si, seja cultural ou biologicamente
(tudo como reforço da harmonia defendida ao longo de todo o texto).
O autor coloca o desejo do homem branco pela mulher negra
no território brasileiro como estimulado pela cultura de amas-de-leite, nesse
ponto eu senti uma análise muito biológica para um fenômeno social que muito
tem a ver com estruturas de poder e de exploração.
Outro ponto defendido é o de que o negro é superior ao
índio, contrariando a visão que estava em voga na época, alguns aspectos da
cultura negra são também colocado como superiores aos portugueses, sempre
recorrendo a estereótipos como o do negro feliz e enérgico, procurando usar as
diferenças biológicas para falar de uma superioridade física – estereótipos e
uma suposta superioridade que serviram como justificativa para a escravidão
negra e para a exploração da população negra de forma geral, para além da
escravidão.
Podemos perceber, durante o texto, como o discurso da
pscicologia era atrelado a um discurso de formulação de tipos nacionais e
raciais – abordagem chamada de “tipo ideal”, ou “tipos psicológicos.
Muito se fala, durante o capítulo, sobre a questão da
alimentação, sobre como o português em seu projeto de colonização esteve aberto
às mudanças, aberto à novas tecnologias, dentre elas as tecnologias
alimentícias, o que acabou fazendo com que uma boa parte da alimentação
africana fosse transplantada para o Brasil. O que Freyre faz, ao nos entregar
essas informações, foi pensar no impacto dessa transplantação na vida daqueles
que foram traficados para o país, se você é transferido para um novo
território, os impactos desse novo estilo de vida se amenizam se a sua
alimentação não é tão modificada.
Como nos outros capítulos, é grande a amostragem de um
panorama científico da época, acho que é esse o aspecto mais rico desse livro,
a sua grande pesquisa bibliográfica e a capacidade de reunir conhecimentos de
diversas áreas em uma mesma pesquisa, se fala de frenologia, de biologia, de
psicologia e psiquiatria, dos grandes debates dentro da medicina, da
sociologia, e dentro desse discurso nos são mostradas algumas teses sobre a
melanina. Recentemente descobri que as teses sobre a melanina não são somente
as vindas desse núcleo acadêmico racista, há conteúdos sobre o assunto dentro
do panafricanismo, e é urgente na minha vida a necessidade de estudar esse
movimento social, filosófico, histórico...
O trecho abaixo, localizado na página 378, nos mostra
muito desse pensamento racista que tinha de ser desmentido, temos um parágrafo
inteiro explicando o porquê de não ser o negro o tipo humano mais próximo ao do
macaco, se faz isso aproximando a raça branca do mesmo animal, e o mais
engraçado é pensar que as ofensas destinadas às populações negras não evoluíram
até o dia de hoje.
“Nem merece contradita séria a superstição de ser o
negro, pelos seus característicos somáticos, o tipo de raça mais próximo da
incerta forma ancestral do homem cuja anatomia se supõe semelhante à do
chimpanzé. Superstição em que se baseia muito do julgamento desfavorável que se
faz da capacidade mental do negro. Mas os lábios dos macacos são finos como na
raça branca e não como na preta – lembra a propósito o professor Boas. Entre as
raças humanas são os europeus e os australianos os mais peludos de corpo e não
os negros. De modo que a aproximação quase se reduziria às ventas mais chatas e
escancaradas no negro do que no branco.”
O texto mostra também a tendência das ciências em se
aprofundarem mais no estudo das áreas de cultura africanas, essa abordagem
significa um avanço, uma diminuição da aplicação de uma lente macroscópica
demais para se passar a observar as minúcias nas relações dentro do território
africano, porém, ao mesmo tempo em que vem desmistificar a homogeneidade com
que analisavam o papel do negro, vem, por meio do uso do arcabouço teórico da
época e tendo como referencial, como norte, as civilizações europeias,
classificar e hierarquizar as civilizações existentes dentro da África, sempre
relegando certos traços, tonalidades, tecnologias, valores morais etc. como
inferiores ao europeu.
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Uma
perspectiva transatlântica
“Aliás é curioso notar que até fins
do século XIX deu-se o repatriamento de haúças e nagôs libertos da Bahia para a
África; que geges libertos repatriados fundaram em Ardra uma cidade com o nome
de Porto Seguro. Tão íntimas chegaram a ser as relações da Bahia com cidades
africanas que chefes de casas comerciais de Salvador receberam distinções
honoríficas do governo de Daomé.” (página 395)
Durante a escola, apesar de se falar
sobre a escravidão, pouco se fala sobre as relações entre África e Brasil,
sobre qual era a relação dos traficados com sua terra natal, sobre quais eram
as trajetórias dos negros dentro desse período. Pensar nesses repatriados é
pensar, e isso é estimulado por Freyre, no negro além do escravo, nas vidas
negras para além da escravidão, por mais indissociável que seja, ao se falar da
introdução dos negros no Brasil. Pensar nas trajetórias que negros se
esforçaram para trilhar é entender que os escravizados não eram passivos, que
eram seres completos em uma condição de subordinados, nesse sentido o ensino
básico peca profundamente.
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Outra
face da miscigenação
“Roquette-Pinto foi encontrar
evidências, entre populações do Brasil Central, da ação europeizante de negros
quilombos. Escravo fugidos que propagariam entre os indígenas, antes de
qualquer missionário branco, a língua portuguesa e a religião católica.
Aquilombados na serra dos Pareci, os negros fugidos cruzaram com mulheres
roubadas aos indígenas.. Uma bandeira que os foi dispersar no século XVIII
encontrou ex-escravos dirigindo populações aquilombadas de cafuzos. Encontrou
grandes plantações. Criação de galinhas. Cultura de algodão. Fabrico de panos
grossos. E todos os caborés de maior idade verificaram os bandeirantes que
“sabiam alguma doutrina cristã que aprenderam com os negros [...] todos falavam
português com a mesma inteligência dos pretos, de quem aprenderam.””
O trecho acima me fez pensar em como
a academia estuda a relação entre as raças – e com raças quero dizer dos indígenas
e dos negros, pois acredito que a definição de raça se consolidou na definição
de quem é o ser e quem é o outro, uma alteridade – e o branco – branco esse que
representa o todo, o padrão, mas pouco se fala na relação dessas raças entre
si. Acredito que isso se dá, pensando que nossas vivências, nossas histórias,
são as principais forças que nos levam a estudar algum assunto, pelo fato de
que os ambientes de pesquisa são dominados pela branquitude, branquitude esta
que, mesmo quando se debruçando para entender o outro, está na verdade
estudando sobre si mesma. Pensar nesse aspecto não europeu da miscigenação,
nessas relações não pautadas diretamente no elemento branco, embora geradas por
esse elemento, é algo que pouco se faz (ou que pouco se divulga) e que pouco se
estimula. Se a vivência de africanos foi, no território brasileiro, unida pela
experiência da escravidão, como se uniram as vivências de africanos e indígenas
sob a ordem colonial, a estrutura escravocrata de uma sociedade dominada por
europeus que condenaram como propriedade ou obstáculo tudo aquilo que deles se distinguia?
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A
consolidação de um padrão estético e moral
Um dos fenômenos gerados pela escravidão foi o de uma
sociedade dividida pela cor, de uma maneira nunca antes vista no mundo, a
profunda divisão, embora tenha se dado por motivos econômicos, passou a ter
sérios embasamentos ideológicos, e dentro desses embasamentos se encontra a
criação de um restrito padrão moral e estético, que perpassa todas as esferas
da vida social.
Uma das teorias embasadoras do capítulo é a de que o
Brasil recebeu o melhor estoque africano, um estoque muito superior ao dos
norte-americanos, essa tese é baseada nos índices de desenvolvimento das
sociedades africanas que foram traficadas para cá e também no fenótipo – quanto
menos negróide, mais superior – por isso a grande valorização dos negros de
cultura maometana, de traços mais próximos aos traços árabes, de cabelos menos
crespos, de peles mais claras. Essa tese, no entanto, vem para desconstruir a
ideia de que houve um exclusivismo banto na escravidão brasileira, algo que
pode ser contestado apenas observando como o catolicismo foi influenciado pela
cultura maometana em sua ritualística nos locais com grande porcentagem de
população negra.
“Os característicos físicos dos
negros importados para o Brasil, é interessante segui-los através da linguagem
pitoresca do povo, nos anúncios de compra e venda de escravos para o serviço
doméstico ou agrícola. Nesse sentido a coleção do Diário de Pernambuco – o
diário mais antigo da América chamada Latina, fundado em 1825 – apresenta-se
com particular interesse para o estudante de antropologia. Vê-se através dos
velhos anúncios de 1825, 1830, 35, 40, 50, a definida preferência pelos negros
e negras altas e de formas atraentes – “bonitas de cara e de corpo” e “com
todos os dentes da frente”. O que mostra ter havido seleção eugênica e estética
de pagens, mucamas e molecas para o serviço doméstico – as negras mais em
contato com os brancos das casas-grandes; as mães dos mulatinhos criados em
casa – muitos deles futuros doutores, bacharéis e até padres.” Nesse trecho, da página 396, podemos
observar como a cultura escravocrata se preocupou em realizar uma seleção
estética dos seus serviços, podemos observar também como esse padrão estético
estabelecido pela classe dominante serviu para causar especificidades e
desigualdades nas explorações sofridas pelo povo negro. Sendo o serviço doméstico
o serviço menos penoso dentro da ordem escravocrata – por menos penoso quero
dizer aquele cuja expectativa de vida era mais alta – a seleção daqueles que
viveriam nesse contexto era baseada nos critérios definidos por esse padrão. Essa
seleção servia como forma de estabelecer divisões entre os negros e de garantir
uma manutenção não só estética, mas também moral, já que os negros selecionados
para conviver dentro do espaço doméstico eram aqueles mais distantes de
religiões de origem africana, ou aqueles que eram de cultura mais maometana do
que de outras áreas de cultura do continente africano.
Também no campo da linguagem se deu
uma seleção do correto e do errado. Ao mesmo tempo em que a língua portuguesa
foi uma ferramenta de coerção e controle das populações africanas, ela absorveu
muitas palavras, expressões e a forma falada de algumas línguas africanas. A
forma que se criou de frear essa influência foi definindo toda essa linguagem
como incorreta e fruto de burrice, ignorância de mau gosto, falta de
refinamento, como pode-se observar no trecho abaixo, retirado da página 415.
Acredito que o mesmo fenômeno ainda se manifesta na sociedade atual, quando se
classifica como incorreta a linguagem falada nas periferias.
“Embora tenha fracassado o esforço
dos jesuítas, contribuiu entretanto para a disparidade, a que já aludimos,
entre a língua escrita e a falada do Brasil: a escrita recusando-se, com
escrúpulos de donzelona, ao mais leve contato com a falada; com a do povo; com
a de uso corrente.”
Na área das artes, pensando no
conceito de arte com o qual temos contato como algo específico do ocidente, no
qual os artistas tem papel definido, o papel do gênio, da excelência, essa
formação de um circuito de pessoas que definem o que é boa arte e o que não é,
uma arte que saiu da esfera daquilo que serve para a socialização das pessoas e
hoje em dia serve como um fortalecimento de um individualismo, foi o
eurocentrismo que classificou tudo aquilo que tinha origem em outros pontos
como inferior, se convencionou a arte europeia como o verdadeiro conceito de
arte e o que vem de fora como uma deturpação, um desvio desse conceito.
“Acima das convenções: em uma esfera mais pura, onde
realmente se confrontassem valores e qualidades. Por longo tempo, a grande e
forte beleza da arte de escultura, por exemplo, foi considerada pelos europeus
simples grotesquerie. E simplesmente por chocarem-se suas linhas, sua
expressão, seu exagero artístico de proporções e de relações, com a escultura
convencional da Europa Greco-romana. Esse estreito critério ameaçou de sufocar,
no Brasil, as primeiras expressões artísticas de espontaneidade e de força
criadora que, revelando-se principalmente nos mestiços, de mãe ou avó escrava,
trouxeram à tona valores e cânones antieuropeus. Quase por milagre restam-nos
hoje certas obras do Aleijadinho. Requintados no gosto europeu de arte ou na
ortodoxia católica, várias vezes pediram a destruição de “figuras que mais
pareciam fetiches”.” (pág. 379)
No campo da religião, certas coisas
me chamaram a atenção: na América Portuguesa ocorreram mais esforços para a
catolicização negra, a catequese funcionou como uma ação moralizante, de onde
derivaram cultos católicos negros muito expressivos, que são colocados como
permitidos e estimulados pela ala clerical da época, como uma forma de
apaziguar possíveis conflitos, pensar nesses cultos dentro de uma lógica onde
há ao mesmo tempo aculturação e resistência é algo que me interessa muito; se
por um lado se tenta trazer o negro para essas crenças e ritos católicos, por
outro lado, é citado um fenômeno interessante, os portugueses tentam jogar na
conta africana e indígena aqueles aspectos de sua própria religiosidade não
condizentes com o cristianismo:
“A frequência da feitiçaria e da
magia sexual entre nós é outro traço que passa por ser de origem exclusivamente
africana. Entretanto, o primeiro volume de documentos relativos às atividades
do Santo Ofício no Brasil registra vários casos de bruxas portuguesas. Suas
práticas podem ter recebido influência africana: em essência, porém, foram
expressões do satanismo europeu que ainda hoje se encontra entre nós, misturado
a feitiçaria africana ou indígena. Antônia Fernandes, de alcunha Nóbrega,
dizia-se aliada do Diabo: a consultas, quem respondia por ela era “certa cousa
que falava, guardada num vidro.” Magia medieval do mais puro sabor europeu.
Outra portuguesa, Isabel Rodrigues, ou Boca-Torta, fornecia pós miríficos e
ensinava orações fortes. A mais célebre de todas, Maria Gonçalvez, de alcunha
Arde-lhe-o-Rabo, ostentava as maiores intimidades com o Diabo. Enterrando e
desenterrando botijas, os bruxedos de Arde-lhe-o-Rabo ligavam-se quase todos a
problemas de impotência e esterilidade. A clientela dessas feiticeiras
coloniais parece que era quase exclusivamente de amorosos, infelizes ou
insaciáveis.” (pág. 406)
---------------------------------------------------------------------
Uma
ordem corruptora
O argumento que permeia todo
o capítulo é o de que a ordem escravocrata agia como corruptora dos seres
humanos nela inseridos das mais variadas formas, no campo moral, sexual, nas
relações familiares, nas relações travadas entre negros e brancos. O capítulo é
concluído com o seguinte trecho, localizado na página 462, o autor avança em
muitos sentidos, porém não nomeia claramente agentes dominadores.
“Na realidade, nem o branco nem o
negro agiram por si, muito menos como raça, ou sob a ação preponderante do
clima, nas relações do sexo e de classe que se desenvolveram entre senhores e
escravos no Brasil. Exprimiu-se nessas relações o espírito do sistema econômico
que nos dividiu, como um deus poderoso, em senhores e escravos. Dele se deriva
toda a exagerada tendência para o sadismo característica do brasileiro, nascido
e criado em casa-grande, principalmente em engenho; e a que insistentemente
temos aludido neste ensaio.”
Tratando dos campos em que a corrupção atua, destaquei
alguns trechos ilustrativos, o primeiro, localizado na página 452, trata da
ação das estruturas sociais na formação mental de uma criança, falando das
relações que se travam entre os dois lados dessa sociedade cindida desde a mais
tenra idade:
“O
menino do tempo da escravidão parece que descontava os sofrimentos da primeira
infância – doenças, castigos por mijar na cama, purgante uma vez por mês –
tornando-se dos cinco aos dez anos verdadeiro menino-diabo. Seus jogos e
brincadeiras acusam nele, como já observamos, tendências acremente sadistas. E
não era só o menino de engenho, que em geral brincava de bolear carro, de matar
passarinho e de judiar com moleque: também o das cidades.”
Na esfera sexual, destaco o trecho
localizado na página 404, trecho em que o autor desmistifica a tese
academicamente aceita na época, que ainda se expressa no nosso cotidiano e
influencia muito a vida das mulheres negras, a tese da negra fogosa. O autor
coloca a luxúria e promiscuidade como inerentes a uma ordem escravocrata, alegando
que isso não é fruto da introdução do negro, que seria lascivo e teria mais
apetite sexual do que os brancos, no território e sim fruto de uma ordem social
que estimula a procriação feminina e o domínio sexual do homem branco sobre o
maior número possível de mulheres, o qual ocorre principalmente sobre as
mulheres negras, pois são as mais estruturalmente oprimidas dentro dessa
sociedade. Para comprovar essa ordem corruptora o autor utiliza duas
ferramentas: a comparação e a contraposição. Como semelhante a esse fenômeno no
Brasil, o autor usa dados sobre o modo como se dão as relações sexuais no sul
dos EUA, local também sob a ordem escravocrata e como contraposição usa o
sertão, local que sofre mais indiretamente as influências do escravismo. Algo
que o autor não diz mas que se pode inferir a partir da leitura é que a questão
não é sexo, é poder.
“[...] na divisão da sociedade em
senhores todo poderosos e em escravos passivos é que se devem procurar as
causas principais do abuso de negros por brancos, através de formas sadistas de
amor que tanto se acentuaram entre nós; e em geral atribuídas à luxúria
africana.” (pág. 404)
Na página 421 há um trecho que trata
das relações entre mulheres brancas e mulheres negras, falando de um sadismo
acentuado proveniente das mulheres brancas, que mistura competição feminina e
algo similar à síndrome do pequeno poder, é importante pensar nessas relações
ao se pensar como organizar o movimento de mulheres na atualidade:
“Quanto à maior crueldade das senhoras que dos senhores
no tratamento dos escravos é fato geralmente observado nas sociedades
escravocratas. Confirmam-no os nossos cronistas. Os viajantes, o folclore, a
tradição oral. Não são dois nem três, porém muitos os casos de crueldade de
senhoras de engenho contra escravos inermes. Sinhá-moças que mandavam arrancar
os olhos de mucamas bonitas e trazê-los à presença do marido, à hora da
sobremesa, dentro da compoteira de doce e boiando em sangue ainda fresco.
Baronesas já de idade que por ciúme ou despeito mandavam vender mulatinhas de
quinze anos a velhos libertinos. Outras que espatifavam a salto de botina
dentaduras de escravas; ou mandavam-lhes cortar os peitos, arrancar as unhas,
queimar a cara ou as orelhas. Toda uma série de judiarias.
O motivo, quase sempre, o ciúme do
marido. O rancor sexual. A rivalidade de mulher com mulher.”
O autor fala sobre um sadismo
BRASILEIRO, o que me faz pensar: quem o autor vê como brasileiro? Para quem o autor escreveu esse livro?
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Relações
de gênero na ordem escravocrata
Ao tratar da mulher negra o autor
fala do que leva os senhores a se relacionarem com ela, que é a visão da mulher
negra como propriedade (que também há, porém de forma mais sutil, em relação às
suas companheiras brancas, é outra lógica que vigora nessas relações) e um
sadismo que forma a moral da classe dominante dentre dessa estrutura.
A prostituição é colocada como papel
em que a mulher é colocada por seus senhores ou como única ocupação que essa
mulher consegue para livrá-la do papel de escrava, pois geraria um pecúlio
próprio.
Essas duas formas com que o homem branco se relaciona
sexualmente com as mulheres negras levariam a uma sifilização dessa população,
momento em que o autor desmistifica a lenda de que foi o africano que sifilizou
o Brasil, colocando o papel da mulher negra dentro desse panorama como sim um
fator que trabalhou para espalhar essa doença, mas que não tem responsabilidade
nesse fenômeno.
É ao tratar da sifilização que o autor introduz a questão
da cultura das amas-de-leite, afirmando que essa cultura foi responsável por
transmitir a sífilis para as crianças. Ao tratar da amamentação o autor levanta
diversas questões: a relação de afeto entre as amas e os nhonhôs, as razões que
levaram essa cultura a ser padrão no país. Na relação de afeto o autor em
nenhum momento fala de como esse carinho era em si um tipo de exploração e
também não fala de como o afeto é usado como apaziguador de conflitos. Para
falar da primazia que essa cultura adquiriu o autor muitas vezes trabalha com
justificativas biológicas, que não sei até que ponto são válidas, mas que mostram
muito sobre a realidade da mulher branca no território brasileiro.
Tratando-se da família patriarcal o autor fala da
discrepância de idade dos casamentos, pontuando como as meninas se casavam
ainda na adolescência e como começavam cedo a procriar, procriação essa que
acontecia todos os anos, acabando com a saúde das mulheres e tornando fato
padrão maridos viúvos de uma ou duas esposas.
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