Cidade de Deus é um romance de Paulo Lins, publicado e, 1997, que se baseia em fatos reais (o processo de pesquisa e coleta de materiais durou oito anos - de 1986 a 1993) e que narra a história do conjunto habitacional Cidade de Deus, mostrando as mudanças sofridas sofridas entre 1960 e 1990 - a passagem de uma criminalidade baseada em furtos e assaltos para o crescimento do tráfico de drogas e o surgimento do Comando Vermelho.
Quero deixar bem claro, já nessas primeiras linhas, que essa é uma história sobre homens, contada por um homem para outros homens. Não existe uma personagem feminina realmente importante, talvez apenas Ana Rubro Negra, que, mesmo assim, não tem tanta relevância na história. Mas eu gostei do livro mesmo assim.
O estilo do autor passeia entre a escrita poética e uma narração extremamente gráfica. O jeito de escrever de Paulo Lins prende o leitor e, mesmo sendo de fácil entendimento, apresenta uma grande riqueza de vocabulário e de recursos.
A história é dividida em três partes: A história de Inferninho, A história de Pardalzinho e A história de Zé Miúdo. Esses três personagens são os fios condutores da história, mas a grande protagonista da obra é a própria Cidade de Deus.
Esse é o tipo de leitura que causa desconforto, por mostrar de um modo muito realista a violência, a crueldade humana e a desigualdade social em sua face mais cruel. Apesar de todo o desconforto e de toda a carga trazida pelo conteúdo dessa história, a narrativa também nos mostra o lado mais leve da vida das personagens, um lado boêmio e despreocupado.
O que muito me agradou foi a construção das personagens, que se dá de maneira complexa, conhecemos os sofrimentos, os complexos e os sentimentos de todos aqueles a quem somos apresentados e conseguimos nos afeiçoar e entender todos eles, por mais bárbaros que sejam os crimes que venham a cometer.
São muitos os personagens mostrados ao longo da história, cada um com uma trajetória de vida muito específica e não existe uma única linha conduzindo a narrativa.
A adaptação da obra para o cinema merece palmas (e sou suspeita para falar, porque é um dos meus filmes favoritos, e foi esse o fato que me levou a ler o livro), o personagem Busca-pé ter servido como amarração para o roteiro foi uma ótima solução.
A inovação na produção, na escalação do elenco, tornam o universo dessa obra um dos mais fascinantes da cultura pop nacional. Cidade de Deus foi um marco para o cinema brasileiro, depois dele diversos filmes sobre a criminalidade e o tráfico surgiram e estes se tornaram os temas mais abordados pelo nosso cinema,
Fica a certeza de que a leitura valeu muito a pena, e de que releituras ainda existirão (e o filme? bem, só nesse ano eu já assisti pelo menos umas cinco vezes.).